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O fantástico mundo de Lúcio Ribeiro

por Braulio Lorentz e Rodrigo Ortega

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Se você quer ser legal, tem que conhecê-lo. Se quiser ser muito descolado, tem que ler toda semana e baixar as músicas que ele cita na coluna. Se quiser ser indie, mas muito indie mesmo, tem que conhecer, ler toda semana e ainda falar mal dele.

Lúcio Ribeiro, um dos nomes mais comentados do jornalismo brasileiro de cultura pop, é mais conhecido pela Popload, sua coluna na Internet e na Ilustrada, da Folha de S. Paulo, publicada todas as sextas-feiras. Também edita a revista Capricho e a Out!, guia de baladas de São Paulo, atualmente de férias, por falta de tempo do editor.

Além de jornalista, Lúcio Ribeiro é DJ. Pela segunda vez ele viajou a Belo Horizonte, para discotecar n’A Obra, segundo ele, o reduto roqueiro mais quente da cidade, do que ninguém pode discordar. Antes que ele desse o play nas últimas do rock, com destaque para remixes espertos, o Pílula Pop foi visitá-lo no hotel. Sério e educado, Lúcio falou sobre seu trabalho, o crescimento da cena indie nacional e sobre o que faz com o monte de discos que ele recebe.


Lúcio no documentário "Música de Trabalho", de Daniel Dias

Pílula Pop: Você pode fazer um apanhado geral da sua trajetória como jornalista?

Lúcio Ribeiro: Eu me formei em 1990 e passei o ano seguinte na Inglaterra. Quando voltei fui freelancer na Quatro Rodas e em 93 fui para o Notícias Populares, jornal do Grupo Folha que não existe mais. Era uma coisa meio cultura popular mesmo. O NP foi minha grande escola. Meu chefe era o Álvaro Pereira Júnior, hoje no Fantástico. O André Barcinsky, do Garagem, programa da Rádio Brasil 2000 FM, tinha acabado de sair quando entrei. Fiquei lá de 93 a 96, quando fui para Ilustrada. Fiquei nove anos na Folha, sete na Ilustrada e dois no Esporte, outra das minhas paixões. Fui para a Editora Abril e estou na Capricho desde julho de 2003. Fiz contratos com a Folha que me permitissem continuar com coluna, colaboração, repórter, Pensata. Na Capricho edito comportamento, vida real, estas coisas.

Pílula Pop: Tem gente que estranha o fato de você estar na Capricho e ainda escrever na Folha. O que você acha disso?

Lúcio Ribeiro: São trabalhos diferentes. A Capricho é uma revista sensacional no trato com o leitor. A resposta daquelas meninas que lêem Capricho é das mais legais que têm. Nenhuma revista tem este contato e compromisso leitor-veículo. A Quatro Rodas não tem, a Playboy não tem, e são revistas consagradas. É legal fazer uma revista para meninas que estão crescendo. Como deve ser legal fazer para meninos também.

Pílula Pop: Só pra constar, a gente gosta da Capricho, ok?

Lúcio Ribeiro: Claro, claro... A Capricho é demais. A gente queria fazer umas outras coisas, só que não podemos, tem que estar com o pé no chão.

Pílula Pop: Paralelamente tem a revista Out!, com a qual a gente não tem muito contato....

Lúcio Ribeiro: A revista Out! parou em janeiro, mas tenho planos de voltar. Não dava, é muita coisa pra cuidar e somente 24h. Mas o tempo em que circulou foi inacreditável. De uns anos pra cá, as cenas em São Paulo começaram a se constituir. Antigamente eram umas coisas esporádicas e agora tem uma amarra sem uma representação como a da Out!. A gente fez uma revista gratuita em formato de flyer, de bolso. Tinha desde festas de rock, shows de eletrônica, hip hop. Era quinzenal. Porque agora não é como antes, quando você sabia o que a casa ia tocar hoje, mas não amanhã. Existe um calendário de show e DJs. Igual a gente briga no futebol por um calendário descente do tipo. A gente distribuía a Out! nos lugares de shows, restaurantes, hotéis, lojas de discos e eventos em que a galera vai.

Pílula Pop: Falando em locais pra sair, você diz que em SP isso tem crescido e aqui em BH nem tanto. Ficamos pensando se esses lugares são fruto da cena que vem crescendo ou se a existência desses lugares vai fazer com que cresça...

Lúcio Ribeiro: As duas coisas. Hoje você consegue enxergar uma cena: bandas, casas pras bandas tocarem, lojas para comprar o disco, rádio para tocar essa banda e anunciar que vai ter show, jornal que vai falar do programa de rádio, que vai tocar a banda... Esta corrente constituída é uma cena. Como na Inglaterra, França, Suécia ou Canadá. Aqui não tinha, era tudo muito jogado. Vejo isso em São Paulo. Não é ideal, mas é cada vez mais forte, com um número de bandas crescendo: se existem 200 bandas em São Paulo, só três são legais mesmo e o resto ainda está no caminho. Pode ser que um dia, destas 200 você vai achar dez, o que já é mais legal. Como em todo o lugar. A Inglaterra tem oito trilhões de bandas, mas só umas 20 são legais, o resto é lixo.

Aqui, a molecada meio “do it yourself”, o punk da geração Internet, faz o disco em casa e comunicação via e-mail. Você pode até colocar uma análise sociológica aí. A molecada tem banda e não tem bola pra jogar futebol, porque acabaram com os campos e hoje você só aprende em escolinha. Toda essa coisa somada começa a criar uma cena. Chega uma hora e “o sertanejo esgota”, “a eletrônica dá uma caída”. Daí a Pitty vira sucesso, CPM 22, rock de moleque tocado no Hangar 110, um antrozinho de hard rock em São Paulo, e os caras viraram nacional. Gram e Leela ganham prêmios na MTV, Leela é gravado pela EMI.

Pílula Pop: E as outras cidades brasileiras?

Lúcio Ribeiro: Goiânia tem uma cena legal. Sempre no sufoco, mas legal. Curitiba tem até festival. As grandes de celular estão patrocinando festivais independentes. E é lógico que é muito mais fácil você ir a um showzinho na sua cidade, do que num em São Paulo, geograficamente. Mas você pode passar um fim de semana em São Paulo. Como é quando tem show em Curitiba e vão 80% de paulistas para lá. Isso é legal pra cacete. A coisa fica mais globalizada. Os caras fazem o MADA no Rio Grande do Norte, e as informações chegam a São Paulo e Porto Alegre. E o festival é com bandas de São Paulo, Minas, Brasília, Porto Alegre, Goiânia, Rio de Janeiro. Isso absolutamente não existia há dois anos. Era um deserto de homens e idéias. Hoje existe uma coisa mais constituída, bandas indies tocam no Tim Festival, que é um mega festival.


Festival MADA 2004, em Natal

Pílula Pop: Tem um momento em que você distingue que está escutando música ou vendo TV por gosto pessoal ou por trabalho? Porque às vezes pode parecer que você fica 24 horas por dia trabalhando. A Pensata é muito isso, o que você ouve, o que acompanha... Até que ponto você delimita isso?

Lúcio Ribeiro: O único ponto que delimita é a Capricho. Em tudo que faço na Folha viso o meu gosto pessoal e as coisas com as quais estou envolvido. A não ser quando tem uma ordem "faça isso ou faça aquilo". Mas isso era mais no começo, depois de um certo tempo comecei a trabalhar com o que gosto. É o mundo maravilhoso e ideal para uma profissão. Mas na hora que estou na Capricho, editando um texto para uma menininha, ouço rádio, Ipod, o que for. Claro que tem hora que me exige concentração, não é toda hora que quero ver seriado e escutar música. Às vezes quero dar um tempo, ler jornal, revista, dar uma parada. Mas grande parte do meu tempo é fazendo o que gosto mesmo.

Pílula Pop: Você deve receber CD pra caramba... Você ouve tudo que recebe?

Lúcio Ribeiro: Não... Tenho um problema sério com isso. Recebo CDs, principalmente nacionais, tanto independente como do mainstream. Quando vem do mainstream internacional a grande maioria eu já tenho. Meu grande problema é com a música independente, que recebo bastante e não tenho o mínimo tempo de ouvir. De dez escuto dois, mal escutado, não como você tem que escutar. Mas estou sempre esperto, vejo muito show. E se a banda me pegou ao vivo, vou procurar o CD que eu sei que tenho. Ou então tem um círculo de amigos que dizem "você ouviu a banda tal?" E isso me faz prestar atenção na banda. O trabalho de pegar e escutar é muito difícil, não dou conta. São só 24 horas...

Pílula Pop: Por quê resolveu ser DJ?

Lúcio Ribeiro: Não me considero DJ, sou um cara que troco os CDs. Mas certo dia, em uma festa em Franca, um DJ me disse que "ser DJ é colocar o que o pessoal quer ouvir, não ficar fazendo malabarismo e tal". É engraçado porque nesta semana recebi uma proposta de uma empresa me acompanhar. Por exemplo, eu vou tocar em uma festa e o cara acha que a galera que vai é o mesmo público da marca. Eles me acompanhariam. Não falo ainda qual a marca, porque precisa acertar direito. De repente vou começar a excursionar pelo Brasil! Fico brincando de “Popload Tour”, meio zoando, mas já me chamaram para tocar em Belém e Recife. Não vou porque é longe demais. Mas já toquei em três cidades de São Paulo, Vitória, outra vez aqui em BH, Rio. Agora, bem remunerado, nem eu estou acreditando. Ponho meus CDs, é a música que eu ouço. Nunca preparei um set na minha vida. É meio esquisito ser DJ. Sou um jornalista tocando discos.

Pílula Pop: Sua coluna mistura informações novas e opinião. Pela resposta dos leitores, o que você acha que mais chama a atenção?

Lúcio Ribeiro: Acho que são as coisas juntas. Quando comecei, em maio de 2000, já era forte a onda blog, que são diários para todo mundo ver. “Hoje eu fui ao cinema e vi tal filme. Este filme é uma merda, este filme é legal pra cacete. A trilha sonora é uma merda, comprei um disco xarope”. Ou seja, você está emitindo todas suas opiniões e está todo mundo vendo. A minha coluna é meio blog. Tentei não fazer aquela coisa "O jornalista superior, e o leitor embaixo". Têm colunas que são baseadas em toques de leitores. O cara manda um e-mail "Lucio, você viu tal coisa no site tal?". Vou lá, vejo, legal pra cacete... E ponho na minha coluna. As respostas são um termômetro. Existe comunicabilidade, posso largar meu status de jornalista em um jornal brasileiro famoso. Quando comecei este negócio de opinião, a galera curtia. E muita gente me odeia, tem o orkut “Eu odeio Lúcio Ribeiro” e ficam zoando nos blogs as coisas que eu escrevo. Mas eles continuam lendo, não deixam uma semana sem ler. Lêem para falar mal, mas lêem. Mas ponho a informação exatamente por tudo o que a coluna constrói. É uma fórmula legal pra cacete: informação, toques legais e opinião. Eu gosto de ver isso em outros lugares, vou lá correndo ler também.


A fotinha da coluna que os indies lêem toda semana

Pílula Pop: O Pílula Pop é nosso projeto de conclusão de curso. Na nossa primeira reunião com nosso orientador, ele perguntou "O que é pop?", e a gente gaguejou um pouco...

Lúcio Ribeiro: Não dá mesmo pra definir. Falar o que é pop é muito difícil. Antigamente, era um sinal de coisa ruim. Você tinha os guetos que eram bacanas e cultos e o pop era uma coisa de populacho mesmo. Depois acabou isso em 91, com Nirvana e toda aquela revolução grunge americana, porque aquela revolução foi total, mas Seattle foi a parte mais visível. Quando os caras pintaram e venderam milhões, tiozinho passou a ouvir. Eles estavam ouvindo Madonna e Michael Jackson, que eram ruins na época para quem gostava de rock, mas hoje em dia nem é. Às vezes Madonna é cult.

No britpop também. Quando o Oasis era cantado pela tiazinha que tava limpando e pelo carinha que tava tomando cerveja no pub, o pop mudou de significado. Hoje em dia está muito esfacelado. Quando eu falo "a banda chega ao pop", quer dizer que ela não está só no “guetinho”. Porque hoje em dia é muito mais fácil você ser pop. Está muito confuso, muito por causa da Internet, não dá para fechar direito o conceito. Cultura pop é legal, pop é uma palavra que é legal.

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