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Fome de bola

por Daniel Oliveira

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Thiago Martins está cansado. Já são quase 19h e o ator está dando entrevistas desde as 14h. Ele me pergunta se há algum problema em ele deitar no banco enquanto conversamos, eu digo que não. Thiago está enfrentando a maratona de divulgação de uma das maiores apostas do cinema nacional para 2008. E não está sendo fácil: ele perdeu o avião das 7h para Belo Horizonte e tomou um belo chá de aeroporto pela manhã. No dia seguinte, tem uma entrevista com a Trip às 17h. E antes de nosso papo, sua agente avisava de mais uma, desta vez para a Globonews, em dois dias. E depois ainda tem Salvador, Recife...

Então não, eu não me importo se ele deitar.

Thiago Martins tem apenas 20 anos e o sentimento do mundo. Talvez não o do mundo, mas o de um amor impossível em uma cidade partida. Somado ao peso de 14 anos de carreira e de uma vida toda nadando contra a maré em uma favela carioca.

O Dé de “Era uma vez...” começou atuar em um grupo de teatro aos seis anos. Aos 14, esteve em “Cidade de Deus”. Mesmo assim, não foi fácil conseguir o papel do herói romântico do longa de Breno Silveira. Na entrevista a seguir, ele conta sobre um ano e meio de testes, uma apendicite – e sobre os planos de quem está cansado, mas sabe que está apenas começando.


Eu, Thiago e uma espécie diferente de divã...

Pílula Pop: Você brigou muito por esse papel. Qual foi a leitura e/ou teste em que você disse “agora eu consegui. Eu encontrei o Dé”?

Thiago Martins: O Breno preferia um ator negro e desconhecido para o personagem – e eu tinha acabado de sair de uma novela das oito. Durante um ano, fui recusado seis vezes. Aí, eu raspei a cabeça, fui para a praia do Leblon e fiquei de oito da manhã às cinco da tarde. Cheguei com o corpo muito queimado, a pele muito escura, o cabelo raspado e a roupa mais larga que eu tinha. O Breno me viu e disse ‘cara, o que você fez???’. Eu disse que queria fazer o teste de novo e ele deixou. Logo em seguida, tive apendicite. Fui parar no hospital e, quando me ligaram para contar que eu tinha passado, tava no soro. Comecei a gritar e as enfermeiras ficaram loucas comigo (risos).

Pílula Pop: E por que esse papel?

Thiago Martins: Porque esse personagem retrata 90% de uma população brasileira que trabalha. Que, por mais que as circunstâncias sejam perigosas, consegue ser bom. Eu, Thiago Martins, me incluo nessa população. Sou morador de morro. E trabalho no meu grupo, o Nós do morro, há 14 anos para quebrar o estereótipo de que favela só tem bandido. Favela tem gente boa, batalhadora, que corre atrás, que quer o bem.

Pílula Pop: O Breno te pediu para ‘enfeiar’ um pouco pro papel. Em algum momento, houve uma ‘crise de vaidade’?

Thiago Martins: Fiquei muito feliz com o resultado. Eu não sou vaidoso, cara. Se quiser, raspo minha cabeça a zero agora para um personagem. Corto minha sobrancelha. O Dé pode até ser feio, mas acho que os gestos e a atitude dele são muito bonitos.

Pílula Pop: Você disse que a história do Dé poderia ser a sua – e inclusive já se apaixonou por uma garota do Leblon. Com a situação do Brasil, e do Rio especificamente, hoje, você acha que “Era uma vez...” poderia ter um final diferente?

Thiago Martins: Não, hoje não. A gente vive em mundos completamente separados. É gueto de um lado e burguesia do outro. E isso não existe, cara. As pessoas são iguais, independente de classe social, raça. Acho que esse filme vem como um abre-alas para quebrar essas barreiras e construir pontes. Para que as pessoas se olhem no olho, se relacionem.

Pílula Pop: Qual a sua cena preferida no filme e qual foi a mais difícil de fazer?

Thiago Martins: Difícil...a preferida, acho que é aquela em que o pai oferece dinheiro para ele abandonar a filha. Foi uma cena que me arrepiou muitas vezes. E a mais difícil foi a seqüência final, do cativeiro, né? Exige toda uma concentração. É arma em jogo, festim, o medo de machucar o colega...


Thiago: de olho no caminho dos tijolos de ouro...

Pílula Pop: Você já atua há algum tempo. Ainda acha difícil fazer cenas mais românticas com atrizes quase desconhecidas?

Thiago Martins: Totalmente. Eu sou muito tímido. No teste para o filme, tinha que beijar a Vitória [Frate, que faz a Nina], cara, e eu fiquei quase uma hora para beijar...Tenho muita vergonha. Muita mesmo.

Pílula Pop: O Dé tem muito de Romeu. Já tinha lido ou leu Romeu e Julieta do Shakespeare?

Thiago Martins: Eu já montei Shakespeare, mas “Os dois cavaleiros de Verona”, primeira comédia romântica dele. Fui pra Inglaterra em 2006 com ela. Mas a Patrícia Andrade [roteirista] me deu um livrinho do “Romeu e Julieta” e eu lia, durante as filmagens, quando não tava em cena.

Pílula Pop: Você disse que é muito tímido e introspectivo. Você é passional como o Dé ou é uma pessoa mais racional ao tomar suas decisões?

Thiago Martins: Sou um pouco mais racional, mais tranqüilo. Demoro muito a chorar. É raro. Posso ficar triste, magoado, mas tem um tempo que não choro.

Pílula Pop: Que personagem você assistiu recentemente no cinema e também gostaria de ter representado?

Thiago Martins: Ah, que legal isso...depois do “Era uma vez...”, em que eu faço um menino de morro, queria muito fazer um personagem como o do Selton Mello em “Meu Nome Não é Johnny”. Ou o que o Rodrigo [Santoro] fez no “Bicho de sete cabeças”. Queria fazer um personagem como o Johnny Depp em “Piratas do Caribe”, de composição mesmo. Mas o Dé é legal, o Leonardo Dicaprio começou assim, né, com o “Titanic”, e depois...

Pílula Pop: Tem gente como o Rodrigo Santoro e a Alice Braga batalhando no cinema no exterior...

Thiago Martins: Pode me esperar...

Pílula Pop: ... Você tem interesse?

Thiago Martins: Muito. Eu fiz um filme alemão, né, que estréia em agosto, “Show de bola”. Se o “Era uma vez...” me der visibilidade, tomara que alguém me chame para uma participação lá fora. A minha próxima meta é aprender inglês e...correr atrás.

Pílula Pop: Próximos projetos?

Thiago Martins: Tô no próximo longa da Tizuka Yamazaki, “Amazônia caruana”. Tô indo pra Inglaterra com meu grupo, pela segunda vez. Fico duas semanas lá. E sou contratado da Globo, devo entrar em alguma novela até o final do ano ou início do ano que vem.

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