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“Parece que o senhor toma um chá de cogumelo...”

por Taís Oliveira

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Conferência Consciência e processo criativo, Universidade Federal de Minas Gerais, 6 de agosto de 2008.

São dez horas da manhã e o sol bate nas cabeças das centenas de pessoas que fazem fila na porta do auditório da reitoria da UFMG. Todos querem ver David Lynch, o cineasta cujos filmes todo mundo tenta desvendar.

Depois de acomodados (na medida do possível), a professora e poetisa Maria Esther Maciel apresenta o trabalho de Lynch com um texto belíssimo, mas que já esclarece que “não há palavras que dêem conta”. O modesto Lynch “nem sabia que tinha feito tudo isso”.

Começam as perguntas, e aquele grisalho de voz anasalada consegue ser simpático até ao responder apenas “não sei” a uma enorme questão-texto de Maria Esther sobre a relação dele com o surrealismo. É curta também a resposta sobre sua ligação com o cinema e cineastas contemporâneos: “Não tenho nenhum diálogo e nenhum relacionamento”.

David Lynch não consegue se rotular – e quem consegue? Ele é um apaixonado pelas idéias. São elas que o artista concretiza em seus filmes, pinturas, livros, fotografias, esculturas... E elas chegam para ele das mais diversas maneiras. O sonho é uma delas, seja dormindo ou acordado. O ambiente é outra fonte de idéias – “que vão borbulhando; e eu vou pescando, primeiro peixes pequenos, apenas fragmentos, que juntos formam um todo. O desejo da idéia é a isca no anzol”, diz. A princípio, não dá para saber que peixe se está pescando. “Às vezes, você não entende as idéias, mas depois o sentido aparece”, falou Mr. Lynch.

E é o sentido que todos não se cansam de procurar em suas obras cinematográficas. Lynch garante que ele existe, mas não adianta perguntar sobre a caixa azul de “Cidade dos Sonhos”. Para ele, “quando as coisas ficam abstratas, as interpretações variam”. Ele faz uma comparação que talvez resuma a sensação de assistir a um de seus filmes: quando tentamos descrever um sonho para alguém, não conseguimos fazê-lo com fidelidade. “As palavras falham no mundo abstrato”.

Consciência era, junto com processo criativo, o tema da conferência. E a palavra esteve na fala de David Lynch muitas vezes, em especial quando falou dos 35 anos praticando meditação - para ele, uma “expansão da consciência”. Com ela, você consegue se livrar de toda a negatividade e a “negatividade é inimiga da criatividade”.


Fumar um cigarrinho com uma pose bem cult entre os takes de seu filme não se configura como negatividade.

Será esse o segredo de David Lynch que, aos 62 anos, além de talentoso artista, é educado, carismático e inteligente? “A verdadeira paz não é a falta de guerra, mas a falta de negatividade”, diz. Ainda não se sabe se o problema é voar alto ou ter asas de cera, mas ele não hesita em responder do quê nossas asas devem ser feitas: de consciência.

Mesmo com tanta conversa filosófica, David Lynch não deixa de falar de cinema. “Se tivesse que trabalhar com película de novo, me mataria”. Não à toa, seu último filme, “Império dos sonhos”, foi capturado em mídia digital. Ele ainda prevê que a combinação tela grande + som alto + luzes apropriadas será popular nas casas das pessoas, e não nas salas de cinema, que tendem a entrar em decadência. Falando em decadência, o cineasta ainda falou de seu país natal, os Estados Unidos que, para ele, está decaindo nos últimos oito anos. “Não é o país do qual quero fazer parte”, afirma.

A presença de David Lynch se mostrou um acontecimento com direito a tietagem. Fãs do diretor iam ao microfone apenas para pedir um aperto de mão, ou aproveitavam a oportunidade para entregar bilhetes. Faziam cantadas em público, elogiando o cabelo dele e fazendo discursos absurdos num momento de extrema vergonha alheia (confira abaixo o “top 5 momentos vergonha alheia David Lynch na UFMG”). Ao que ele respondia educadamente, sempre sorrindo, com cara boa. Talvez ele mereça mesmo tanto apreço. “Keep fishin’!

Top 5 momentos vergonha alheia David Lynch na UFMG

5. Teoria enorme sobre a caixa azul de “Cidade dos Sonhos”, explicada com orgulho pelo viajante. Recebeu um razoável e previsível "sem comentários".

4. Menino empolgado, fã recente de Lynch: "Parece que você fumou um, que tomou um chá de cogumelo antes dos seus filmes, é muito lôco...".

3. "Não-pergunta" sobre um filme que David Lynch não fez ("eu vi seu nome nos créditos..."). Não satisfeito, o sujeito ainda resolveu contar a história do verdadeiro diretor, que "é um artista muito bom, muito legal...". E a fila parada.

2. Cantada descarada de uma menina: "Eu gosto do seu cabelo".

1. Papo transcendental da mesma menina, que não parava nem com as palmas do público nem com os cortes da mediadora. Definitivamente, algumas pessoas não fazem sentido. Por que os filmes dele têm que fazer?

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