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Traduzindo o que nao se vê: uma conversa com Masahiro Kobayashi

por Taís Oliveira

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“Eu cheguei no Brasil como turista, sem conhecer o sofrimento [deles] mas o que eu posso fazer é produzir cinema, transmitir minhas sinceras sensações nos filmes”. E quando se trata de filmes, Masahiro Kobayashi não é nenhum turista.

Um dos principais representantes do cinema do sol nascente contemporâneo, ele ganhou uma retrospectiva de sua obra na Mostra do Cinema Japonês em Belo Horizonte, que comemora os 100 anos da imigração nipônica no Brasil. O sofrimento a que ele se referiu no parágrafo acima é o dos conterrâneos que vieram trabalhar no país tropical, por quem o cineasta expressou sua admiração logo no início da conversa.

Segundo o diretor, a visita ao país – Kobayashi esteve em BH no último dia três de outubro - despertou o desejo de fazer um filme em São Paulo, mostrando imigrantes japoneses que conseguiram “vencer na vida” e outros que “nem tanto”. O título já está pronto: “Pessoa rica e pobre”, de acordo com a tradutora - que demonstrava, assim como Kobayashi, a simpatia e serenidade do povo japonês. “Eu não quero só mostrar a dificuldade. Tem que ter alguma música, algum momento de felicidade”.

Também cantor e ator, Kobayashi ressaltou a importância da trilha em seus filmes. “Cinema tem que ter música para alegrar a obra”, diz. Suas canções servem para divulgar os filmes que dirige e a atuação ajuda a economizar na produção “e a manter a ordem”. “Ator famoso é muito caro. Quando tem ator famoso, eles querem ter meu filme, mas eu que mando no meu set. Eu que pago, então não aceito”, diz o sempre sorridente cineasta. Mas atuar não sai tão mais barato assim. Uma vez, Kobayashi teve que comer 20 ovos por dia durante duas semanas numa gravação. O diretor/ator/cantor garante que não teve problemas com salmonela.


Kobayashi no poster do filme 'O Renascimento'.

O problema dos recursos escassos nas produções não é apenas de Masahiro Kobayashi. “Quase todo filme japonês é muito doméstico”, conta, explicando a dependência dos patrocínios para realizar as obras. Ainda há outro problema: as TVs japonesas. Além de fazerem novelas, elas também produzem filmes mais comerciais, comprando a maioria das salas de cinema. Sem lugares para exibir e impossibilitados de anunciar os filmes nos canais de TV, a audiência é baixa. “Estou impressionado com o poder da televisão”, diz.

Mesmo exibindo pouco dentro do próprio país, o cineasta diz que “o japonês não faz filmes para agradar estrangeiros, mas para eles mesmos”. Mas parece que Kobayashi vem agradando o público, seja de onde for. Em uma experiência “muito corajosa”, o cineasta assistiu ao filme junto com o público. “Dá muito medo. Pensei que fossem dormir ou sair da sala”, assume. Mas tudo deu certo. “Algumas pessoas saíram, mas ninguém dormiu. No final, ganhei aplausos. Entendi que o público se sentiu igual a mim”.

O fã de João Gilberto e Tom Jobim não tem planos certos de gravar um disco mas, se o fizer, será de maneira independente, com o próprio dinheiro. Mais voltado para o cinema, Kobayashi vem construindo uma filmografia em que o fundo do cenário importa tanto quanto o que está em primeiro plano. Segundo o cineasta, ele tenta, através dos planos, mostrar os personagens por dentro, ”filmar o coração, o sentimento”. Levanta da cadeira e gesticula para explicar: se está filmando uma pessoa, enquanto ela conversa com outra, e o fundo está azul, aquela conversa e/ou relação é fria. Se, ao mostrar a outra pessoa, a parede do fundo é vermelha, a relação muda: “tornou-se mais quente, próxima, íntima, apaixonada”.

Kobayashi ainda revelou a trama de seu novo filme, cujas filmagens foram finalizadas. “É a história de um menino de 16 anos, órfão”. O título em inglês será “Where are you?”. Perguntado se este filme teria diálogo, Kobayashi responde: “Sim. Pouco”. Sempre sorrindo, sempre sereno.

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