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Little Joy

por Alfredo Brant (texto e fotos)

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Algumas horas antes do quarto show da turnê européia do Little Joy, no Maroquinerie, em Paris, dia 13/01, dois brasileiros passam na bilheteria da casa de shows para comprar ingressos. “Esgotados há mais de uma semana” é a resposta que recebem. Alguém que está na porta de saída fumando um cigarro escuta a garota e o garoto decepcionados. “Ei, vocês são brasileiros? Vocês vêm hoje a noite?” Trata-se de Fabrizio Moretti, musico do Little Joy e dos Strokes. “Ah, não tem problema. Coloco o nome de vocês na lista. Acho que vai ser bem legal hoje”, é a réplica de Fabrizio.

A cena traduz bem o clima da turnê que chegou ao seu quarto destino em Paris, no dia 13 de janeiro, depois de passar por Amsterdã, Bruxelas e Colônia. O show aconteceu numa pequena sala com capacidade para 500 pessoas. Para a abertura, a banda americana The Dead Threes toca durante 40 minutos e depois volta ao mesmo palco para completar o Little Joy. A satisfação de tocar em um grupo de pequeno porte está estampada na cara de Rodrigo Amarante e Fabrizio Moretti.


Amarante franze a testa

Quando Amarante entra sozinho no palco com sua guitarra para cantar “Evaporar” ou quando “Keep me in mind” é executada com três guitarras e uma bateria rapidinha é difícil não pensar nas bandas de origens dos dois brasileiros. Porém, não espere de um show do Little Joy a carga emocional de um Los Hermanos ou a energia de um Strokes. A banda é bem menos pretensiosa, no bom sentido da expressão.

A impressão é que os músicos estão se divertindo mais que o publico. Apesar de ficar na lateral do palco, Fabrizio é o mais hipnotizante. Charmoso e descontraído, brinca com Amarante e fala bobagens com o público. Amarante também está à vontade, sorrindo e fazendo suas caretas. Já Binki Shapiro, a terceira integrante do Little Joy, tem aquele chame frio de uma modelo. Se por um lado ela está um pouco distante dos outros dois, não decepciona quando canta, acrescentando uma doçura ao som da banda.


O trio no microfone

O disco de estreia é tocado inteiro, além de uma musica inédita. O show é curto. Depois de encerrar com “Brand New Start”, eles voltam ao palco e Amarante diz com naturalidade que eles tocaram todas as musicas que compuseram e que serão obrigados a tocar um cover: “Eat at Home”, de Paul McCartney fase Wings.

Em geral a interpretação é bem parecida com as canções no disco. Os backing vocals são bonitos, tudo soa leve e espontâneo. O mais marcante é mesmo a despretensão do grupo. Nesse sentido, assim como o disco, o show não é algo extraordinário, mas está longe de ser pobre. Não poderia ser melhor resumido do que com o nome do grupo: uma pequena alegria.


O charme frio da Binki

Antes do show, conversei com o trio.

Vocês acabam de fazer uma turnê com mais de 30 shows na América do Norte e agora chegam à Europa. O show de Paris é o quarto depois de Amsterdã, Bruxelas e Colônia. Como vocês sentiram a recepção do público europeu? E como músicos, qual foi a diferença de tocar para este público?

Fabrizio: Nos EUA a gente sentiu uma grande sensação de comunhão com o público, mas a gente tinha que convencê-los de que éramos bons. Aqui tive a impressão de que já somos aceitos e é só tocar.

Rodrigo: Mas, ao mesmo tempo em que a plateia de Amsterdã ou Bruxelas esta ali pra ver a gente, eles são mais quietos que nosso publico americano.

Binki: É também uma questão de tempo. Quando começamos a turnê nos EUA o disco tinha acabado de sair, agora já faz alguns meses que ele foi lançado.


O trio na escada

A música do grupo soa leve e espontânea. Muitos falam de um clima praiano que permeia as canções. Vocês tomam isso como a influência do sol e do clima californiano ou pelo fato de vocês serem amigos que se encontraram espontaneamente para fazer música?

Rodrigo: São as duas coisas. De fato a gente se conheceu na Califórnia e se tornou amigo lá.

Sobre os projetos paralelos. Fabrício e Rodrigo, tocam em outros grupos. Como é conciliar isso como o Little Joy?

Fabrizio: É mais uma questão de calendário. Não tem nada a ver com o fim dos Strokes ou dos Los Hermanos. E, da mesma maneira, a gente não vê o fim do Little Joy.

Ser musico pra vocês significa ter vários projetos com pessoas diferentes? Isso é uma motivação a mais?

Rodrigo: Eu não acho que o musico é alguém que faz isso, pois existem aqueles que estão sempre sozinhos ou com o mesmo grupo. Acho que cada um tem seu caminho. Mas eu cresci podendo fazer isso, tocar com pessoas diferentes em outro país. Isso foi um refresco incrível pra mim, poder começar de novo, ter outra banda e tocar pra plateias pequenas e pra pessoas que não me conhecem. Tudo isso tem sido muito importante pra mim, como pessoa e como músico.

Rodrigo e Fabrizio, vocês se tornaram famosos com suas bandas anteriores. Qual é a diferença entre ser reconhecido como um músico e ser uma pessoa famosa?

Fabrizio: Essa é uma boa questão. Acho que uma coisa é consequência da outra. O mais importante é você fazer honestamente o que você quer como musico ou artista. O reconhecimento vai vir depois.

Rodrigo: A questão é mais ampla, pois famoso pode ser alguém que dá um tiro em outra pessoa. Existem várias maneiras de ser famoso. Ainda mais hoje com a mídia e seus milhares de canais, tudo é volátil, as pessoas ficam famosas e desaparecem. Se você é reconhecido pelo seu trabalho, você não será algo descartável. A gente não liga pra ser famoso, mas talvez pra ser reconhecido.


Os sonhadores em Paris

Na língua inglesa, “outsider” é um termo usado pra definir aquele que vive ou trabalha fora do mainstream. Já em francês, o “outsider” é o concorrente que tem menos chances de vitória. Rodrigo, dadas essas definições, você se considera um outsider?

Rodrigo: Eu não tenho nenhum fetiche em não estar no mainstream. Não vejo nenhum glamour em ser eternamente do underground ou ser eternamente incompreendido. Eu pretendo ser compreendido. Eu não tenho nenhum problema em transitar pelo mainstream, se for o caso disso acontecer. Agora a parte que diz de ser uma zebra, ou seja, uma pessoa que parece não ter chances de ganhar e ganha, eu acho bonito isso, eu me identifico com a zebra.

Vocês prevêem gravar com suas bandas de origem esse ano? E o Los Hermanos vai mesmo tocar junto com o Radiohead no Brasil, no mês de março?

Rodrigo: Eu não posso confirmar nada ainda [nota: entrevista de 13/01]. O Fabrizio vai fazer um disco novo com os Strokes esse ano - já estou adiantando pra você, Fabrizio. Com o Los Hermanos nos não temos planos de gravar esse ano. Mas a gente esta sempre em contato. Falei com o Marcelo na semana passada. Ele comprou um clarinete igual a mim. Nos dois estamos aprendendo a tocar clarinete.

E você Binki? Você tem projetos fora do Little Joy?

Binki: Tricotar... E fazer alguns suéteres para esses garotos!

Little Joy em ação com "No one's better sake"

Além de tricotar, ela canta "Unattainable"

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