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Salve-se sem cessar

por Filipe Isensee

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No dia em que São Paulo parou, Joaquim Vaz de Carvalho estava “puto da vida” parado em frente à TV assistindo ao Fantástico. Ele esperava conferir uma matéria sobre “Zuzu Angel”, do qual ele é produtor e Sérgio Rezende, o diretor. No entanto, a cobertura extensa do fatídico domingo de dia das mães da capital paulista fez com que o filme fosse cortado do noticiário global.

Denise Weinberg terminava mais um dia de ensaio em São Paulo e planejava passar o domingo no Rio de Janeiro, onde moravam a mãe e o filho. No caminho para o aeroporto, ouviu no rádio sobre uma suspeita de bomba em Congonhas. Desistiu de viajar. Mal sabiam que estavam diante de um futuro projeto. Ele, o produtor. Ela, a atriz.

Dando continuidade as intermináveis entrevistas de divulgação de “Salve Geral”, Joaquim (ele mais quieto) e Denise (ela mais intensa), conversaram com a equipe do Pílula Pop sobre “o representante brasileiro na disputa por uma indicação ao Oscar em 2010”.

Oscar

O discurso dos dois é afinado em relação ao prêmio: um passo importante, a coroação de uma obra, a felicidade de representar o país. Tão logo divulgada, a notícia já surtiu efeitos e o filme que estrearia com 150 cópias vai para 180, segundo Joaquim. Com um orçamento de oito milhões de reais (o que não é pouco em terras tupiniquins), a produção espera emplacar nas bilheterias em um ano em que o público do cinema brasileiro só “pagou para ver” comédias – queria ter colocado na frase um adjetivo como “boas”, mas não tenho essa cara de pau.


Salve a equipe: o diretor Sérgio Rezende, sua assistente e o produtor Joaquim Vaz de Carvalho (trabalhando, como todo bom produtor, ao telefone).

Como vantagem imediata na corrida até o Kodak Theatre, o produtor ressalta o fato de os ataques do PCC (Primeiro Comando da Capital) terem sido amplamente divulgados em noticiários do mundo inteiro, além de uma “diferenciação” que considera importante: a perspectiva de um olhar feminino, materno, como fio condutor do enredo. Uma história de ficção, porém universal, que se alinha a um fato recente, “que qualquer criança de 10 anos se lembra, um histórico sem mofo”, complementa Denise. Para a atriz, a cena mais impactante do longa é aquela que mostra a Avenida Paulista completamente deserta. Ela destaca ainda a trilha percussiva de Miguel Briamonte, que vem chamando a atenção da crítica

Bandido bom é bandido morto?

Antes mesmo de chegar aos cinemas, a obra foi acusada de tentar humanizar os “bandidos” – discussão, aliás, recorrente no cinema nacional. Defendendo a cria, Denise sustenta que o filme trata de uma coisa maior, a luta de uma mãe para salvar o seu filho, trazendo uma reflexão sobre a efemeridade das coisas e a falta de controle que temos, inclusive sobre nós mesmos. “Se eu estivesse naquela situação, faria qualquer coisa para tirar meu filho daquele inferno. Até matar. Claro que faria”, argumenta.

Joaquim Carvalho também relativiza a questão. “Ali não fala que nenhum bandido é legal. O que mostra é o sistema penitenciário brasileiro da forma como ele é. Os direitos dos presos são completamente desrespeitados apesar da constituição dizer o contrário”, defende o produtor, que emenda a frase com a informação de que o roteiro teve dez versões até chegar no “ponto certo”.

As atrizes

Com essa etapa finalizada, a escolha da intérprete da protagonista Lúcia foi um ponto crucial. Rezende não abria mão de Andréa Beltrão que, devido a compromissos com a Rede Globo e a minissérie “Som e Fúria”, não conseguia se adequar ao cronograma da produção. Para ter a atriz no longa, o início das filmagens foi adiado algumas vezes.


Denise Weinberg faz carão como Ruiva, o Palpatine para o Darth Vader de Lúcia.

Sua antagonista na trama é Ruiva, interpretada por Denise Wienberg. Colaboradora recorrente nos filmes de Rezende (“Salve Geral” é o quinto dessa parceria) e atriz premiada no cenário teatral com importante passagem pelo grupo TAPA, ela foi apelidada pelo diretor de “primeira-dama” – título que ela carrega com orgulho.

A atriz explica que teve a função de apresentar vários dos rostos vistos no longa-metragem, desconhecidos do cinema, mas atuantes no teatro paulista, nicho que ela conhece muito bem. A idéia era fugir das figuras repetidas da TV. “O meu maior orgulho foi levar para o cinema brasileiro essa moçada desconhecida”, confirma. Do teatro, conta que herdou a construção artesanal. Para compor Ruiva, chegou a fazer aulas de dança do ventre para acentuar a feminilidade de uma personagem por vezes tão masculina.

No filme, a personagem de Denise é aquela que traz o olhar de dentro dos presídios para as ruas. Já Lúcia, de frágil ingenuidade, realiza uma jornada oposta. Essa diferença foi determinante nas construções das sequências em que ambas estão juntas. Como explica Weinberg, cada cena entre as duas foi trabalhada com energias opostas. “Começo de salto alto e acabo na sarjeta. E a Lúcia vai subindo gradativamente”, sintetiza.

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