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Who’s that girl?

por Daniel Oliveira

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“O site tem o quiz dos personagens e eu fiz anteontem. Deu Mano (muitos risos). Pelas minhas respostas eu seria o Mano. Talvez fosse ele mesmo. O que gosto desse personagem é que ele... erra. Mas depois a vida acontece e ele tem a capacidade de olhar, rever a história e tomar uma nova atitude. E mudar. Acho lindo isso.”

É assim que Laís Bodanzky responde minha pergunta sobre quem ela seria dentre os alunos-personagens de seu novo longa “As melhores coisas do mundo”. Escapando, graciosa e encantadoramente, do meu interesse em saber como ela era no colegial.

Something in the way she knows.

Laís quer falar sobre o filme. E com razão. Vestindo uma blusa preta de detalhes coloridos, sapatos vermelhos de salto baixo, uma bolsa (grande), o cabelo escuro liso, solto sem muitos floreios, combinando com sua figura longilínea não muito alta, e uma atitude espontaneamente interessada em todos que a cercam – de políticos a assessores a celebridades – ela é uma elegante diretora, lançando seu longa na pré-estreia belorizontina.

Something in her style that shows me.

Ainda assim, ao final da entrevista, eu me perguntava quem é Laís Bodanzky. Tão elegante e preparada no trato com o público. Tão sorridente e simpática ao responder minhas perguntas. Era uma atitude tão relaxada, tão natural que... eu me indagava: será que ela é tão... tranquila... assim? Sem subterfúgios. Sem agendas. Em um momento, uma diretora elegante; em outro, uma paixão adolescente e descontraída nos olhos ao falar do filme...

Something in her smile she knows.


A diretora pragmática.

É essa a Laís a que eu teria direito: um pouco aqui e, sempre que achava que a estava compreendendo, um pouco ali também. Profissional e assertiva sobre seu trabalho - “eu nunca aceitaria um convite em que realmente não pudesse me expressar, colocar aquilo em que acredito no conteúdo e na forma”, é como me responde quando questiono se sua atitude diante de “As melhores coisas”, o primeiro filme que ela fez “a convite”, foi diferente de seus trabalhos anteriores. Com os olhos fixos nos meus e o início de um sorriso, Laís insiste que o longa é tão dela quanto os outros. “Não sei como não tive essa ideia antes”, diz a respeito da adaptação da série de livros Mano, de Gilberto Dimenstein e Heloísa Prieto (que ela não conhecia antes de ser chamada para o projeto pela Gullane Filmes).

Poucos minutos depois, suas íris estão brilhando e sua voz afina, deslumbrada como uma adolescente em um vestido novo, quando fala sobre sua primeira experiência com o Cinemascope. Bodanzky explica que, desde o início, achava que o filme deveria ter um visual bonito e enquadramentos agradáveis porque é “dessa forma que os adolescentes iam gostar de se ver”. Além de acreditar que câmera na mão em um longa adolescente seria “quase um pouco redundante”, a diretora convenceu sua produção com o argumento de que “ia valorizar e respeitar mais os meus personagens, e eles se respeitariam mais, se a câmera tivesse essa outra maneira de olhar”.

Laís correu o risco mesmo sabendo que, com um equipamento inferior, poderia ter duas câmeras - o que, ao trabalhar com atores sem experiência, seria mais garantido. E é com a felicidade de uma menina que ela confessa: “meu problema agora vai ser fazer meu próximo filme sem Cinemascope. Estou apaixonada”.

Apesar do brinquedo novo, essa foi a filmagem mais extensa e exaustiva da carreira de Bodanzky que conta, até agora, com três longas. Foram oito semanas no colégio francês Liceu Pasteur, em São Paulo, e ela admite que, ao final das gravações, “senti o peso da duração do filme nos meus ossos” (“As melhores coisas” é o maior longa da diretora, com 110 minutos). Mas a produção teve sorte: por seguir o ano letivo europeu, em que as aulas começam em setembro, o Pasteur se encaixou perfeitamente no cronograma, estando vazio bem quando as filmagens ocorreram.

Outra sorte, para a cineasta, foi encontrar Francisco Miguez, que interpreta o protagonista Mano. Quando fala do jovem estreante de apenas 15 anos, Bodanzky revela ainda outra faceta, ao mesmo tempo admiradora, protetora e disciplinadora – quase maternal. Para o papel, ela buscava alguém que “agüentasse o tranco”, já que Mano aparece em quase todas as cenas. Miguez participou das oficinas de trabalho do roteiro realizadas em várias escolas paulistanas, “sempre muito introvertido, disciplinado” e chamou a atenção da diretora. Segundo Laís, ele “tem muito do Mano. E trouxe muito para o personagem. Mas isso é próprio do ator. Se ele vai continuar na carreira ou não...”.

(Para os curiosos: Francisco não conhecia Gabriela [Rocha], que interpreta Carol, com quem ele tem uma química fantástica. Mas Gabriela conhecia Gabriel [Illanes], que interpreta Deco, que tenta roubar Carol de Mano).

O novo e o velho

Como sua diretora, “As melhores coisas do mundo” também passeia pelo sério e o divertido, o sagrado e o profano - pelos paradoxos da adolescência, com as ameaças do mundo adulto e as irresponsabilidades da infância. Trata de um polêmico beijo entre um professor e uma aluna (“O mais importante é falar do assunto. Com os adolescentes, com os professores. E não simplesmente punir. O punir é uma visão pobre. Não resolve a questão, só passa pra debaixo do tapete), mas também do primeiro amor, primeira transa, de amizade e... de pornografia.

Quem amarra esse (tradicionalmente caótico) turbilhão de emoções e situações típicos da puberdade é a trilha musical. O responsável pelo mix de canções originais, clássicos do rock e bandas de garagem (selecionadas por meio de cartazes e anúncios em escolas e na Internet) é o músico BiD, com quem Bodanzky já havia trabalhado em “Chega de saudade”. A parceria foi fundamental para um longa em que a música tem um papel tão importante. Presente no set como “consultor técnico” para as cenas em que os atores tocam violão, BiD ficou conhecendo o filme e compôs a trilha original antes de vê-lo editado, “oferecendo, com antecedência, um universo musical para o Daniel Rezende, montador”. De acordo com a diretora, isso deu uma liberdade para o editor (de “Cidade de Deus” e “Ensaio sobre a Cegueira”), que resultou na fluidez e no ritmo do longa – que aparenta bem menos que seus 110 minutos.


A adolescente, imersa em pensamentos...

Bodanzky só não sabe (ou não divulga) a resposta à pergunta de (literalmente) 1 milhão de dólares: quanto a produção pagou pela utilização de Something dos Beatles. A canção tem um papel central no filme e a diretora só diz que foi “muito caro. Bem caro”. Segundo ela, foi uma negociação longa e sofrida, “muito frio na barriga”, e as filmagens aconteceram pouco antes do OK final. No set, Laís tinha uma opção B na manga. Mas "a gente sabia que era um acerto porque, e isso ficou muito claro na pesquisa, Beatles fala com o adolescente de hoje, assim como falava com a minha geração, com a geração da minha mãe”, ela comenta sobre a utilização de um dos catálogos mais inacessíveis do mundo.

Todo esse respaldo nas “pesquisas” (alguns meses de conversas com jovens de colégios paulistanos) é o cerne do filme para a cineasta. Ela diz que discutiu com eles sobre vários filmes adolescentes, principalmente norte-americanos, e a resposta era quase sempre “assistimos, gostamos, mas se vocês vão falar sobre a gente... a gente não é assim". Então Laís se dispôs a fazer um longa em que a principal referência fossem eles próprios. Para ela, “é um filme dos adolescentes pros adolescentes. Mas é pro adolescente que a gente tem dentro da gente”, com aliterações e tudo.

A cineasta explica que assistiu de novo a “Trainspotting” (“é diferente, não sei se você vai entender, porém, ele é um filme pop, que tem um ritmo gostoso, uma pulsação”); que gosta muito de “Juno” (seu filme favorito recente é “Amor sem escalas”, do mesmo diretor Jason Reitman); e que leu “O apanhador no campo de centeio” (“delicioso”) quando decidiu aceitar o convite da Gullane. Mas nenhum deles é tão responsável por “As melhores coisas” quanto seus entrevistados foram. Bodanzky sabe, contudo, que isso não implica necessariamente que o longa vá ser um sucesso retumbante, nem que o público de “American Pie” vá comparecer aos multiplexes para ver cinema nacional. “Cinema é como futebol, você chega lá na hora e vê”, filosofa.

Mas o que realmente interessava a Laís Bodanzky era o desafio de conhecer, “se debruçar”, sobre esse universo. E ser fiel a ele(s). Segundo ela, foi isso que a fez aceitar o convite para o filme. “São personagens jovens, intensos, ousando, se descobrindo. Descobrindo coisas novas. Na verdade, os protagonistas de ‘Bicho de sete cabeças’ e ‘Chega de saudade’ também eram assim’”. Talvez sem saber (ou sabendo), isso foi o máximo que Laís Bodanzky me disse sobre quem é Laís Bodanzky.

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