Busca

»»

Cadastro



»» enviar

A fala do filme

por Rodrigo Campanella

receite essa matéria para um amigo

Fim da coletiva. João Moreira Salles vai para a sala contígua e, sentado num confortável sofá claro, começa sua série de entrevistas individuais. Coutinho, ainda sentado na ponta da mesa da coletiva, apenas vira a cadeira para o lado de fora e apoia o cotovelo. Simples assim, está aberto o espaço para a entrevista.

O repórter chega acanhado: “Vou te incomodar um pouquinho com umas perguntas.” Coutinho olha de lado, impaciente. “Ué, não é para isso que eu estou aqui?” ele parece se perguntar. Melhor começar:

Pílula Pop: Numa entrevista há alguns anos, você falava que, ao filmar, talvez estivesse procurando uma família.

Eduardo Coutinho: Isso faz tempo e foi uma vez só. Isso é complicado, é por aí. Primeiro essa frase foi dita por um filho da Elizabeth Teixeira (do filme Cabra Marcado para morrer) que me atormentou na filmagem e é uma pessoa com a qual eu tenho pesadelos às vezes. Ele tinha razão em parte. Eu faço documentário para sair de mim mesmo. Eu quero saber é a ficção dos outros, a neurose dos outros. E nesse sentido pode ser que seja uma vida que eu não tive, uma família que eu não tive. Enfim, eu acho que você sempre parte de uma insatisfação profunda que aqui, talvez seja essa.

Pílula Pop: Como fica a relação com os personagens depois de pronto o filme?

Eduardo Coutinho: É falso e romântico - e eu sempre combati isso - dizer que eu fico amigo das pessoas que eu filmo. Eu filmo, trabalho com ela por meses, tento ser leal àquele relato. Dou para elas uma atenção maior do que eu dou aos meus amigos mais íntimos Mas a não ser para mostrar o filme depois de pronto ever se alguém se sente prejudicado, eu nem volto ao local de filmagens.

Pílula Pop: Qual a razão?

Eduardo Coutinho: Ah, o local de filmagem é sempre chato em relação ao filme. Porque a rotina é insuportável. Costumam dizer: - Ah, o documentário aponta o que é dizer a verdade. Não é verdade. O documentário é um condensado de coisas que dão uma impressão de vida, de rotina. Mas o fato é que aqueles personagens me alimentam enquanto eu estou montando, enquanto eu estou filmando, me alimentam a vida.

Pílula Pop: O que é o momento da entrevista?

Eduardo Coutinho: É um jogo teatral, né? A pessoa está lá, eu estou aqui e tem uma câmera.

Pílula Pop: E quando esse jogo funciona?

Eduardo Coutinho: Pra que fique bacana e forte, a minha tese atual é o seguinte: eu preciso tentar ser, ao mesmo tempo, andrógino e criança. Isto é: homem, mulher e criança. Você precisa ser tão receptivo quanto o feminino. E ao mesmo tempo ser agressivo porque se você fica calado é muito comum achar tudo que o outro fala maravilhoso, porque o outro é o pobre. Essa coisa detestável de paternalizar o pobre. Embora eu tenha a câmera e por isso seja socialmente superior, eu tenho que me colocar no mesmo nível que ele. E a coisa essencial pra ser o grande entrevistador, o grande conversador é a criança de 5 anos. Tudo que você diz ela fala “por quê?” “como?”. É como se tudo pra ela fosse duvidoso. Você tem que ter esse lado infantil que só é atingido em horas raras.

Pílula Pop: Qual é a diferença de até hoje estar lidando só com situações entre aspas comuns e agora estar lidando com esses homens comuns na história do Brasil?

Eduardo Coutinho: (interrompendo) Ah, mas eu isso eu não faço. Nunca mais. Arquivo nunca mais. Sofri muito com isso, não quero mais não. Em princípio. Em princípio eu quero filmar lugares onde não esteja acontecendo nada. Meu sonho é fazer um filme em que nada aconteça.

Pílula Pop: Conseguiu?

Eduardo Coutinho: Ah, nesse último que eu fiz ("O Fim e o Princípio", filmado num vilarejo da Paraíba, em fase de montagem) o que acontece? Tem um cabo eleitoral que passa, um cara pega os bois...o resto é ato de filmagem. Um velho muito doente não quer falar e de repente repete um verso que ele fez há 50 anos, no interior da Paraíba. E isso é glória absoluta que é acaso, que é disponibilidade. Ele sabe que eu preciso dele. Eu não falo isso realmente, mas simbolicamente eu me ajoelho e digo “por favor me fale senão eu não tenho filme”.

Pílula Pop: Mas por que filmar o nada?

Eduardo Coutinho: Porque eu preciso é que eles falem. Vou fazer filme com paisagem? Isso eu não faço. Pra que eu vou filmar uma parede? Ou um bicho? Eu não consigo entender a linguagem dos gatos, se eu conseguisse... Tem gente que fala com capim, eu não consigo. Você filma uma coisa, a pessoa fala uma coisa, você mostra essa coisa: eu não estou interessado nisso. O discurso é que interessa. A pessoa diz ”Eu recebi um santo e aconteceu não-sei-o-quê...” Eu tenho que filmar ela recebendo um santo? Quero mais é que ela me conte que recebeu um santo. Porque daí é um mistério, é opaco. Isso é verdade, isso é mentira, não importa isso. Se ela fala bem é verdade, acabou.

» leia/escreva comentários (1)