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Contracampos

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Na pequena sala de entrevistas do hotel, os jornalistas esperam nos sofás pela entrevista. Três fileiras de cadeiras já estão dispostas diante da mesa da entrevista, escoltada de cada lado pelo cartaz de um dos filmes: Peões e Entreatos. Câmeras de tv já estão armadas, esperando pela coletiva ou as entrevistas posteriores.

Perto da porta, Pedro Olivotto, dono da rede Cinemas Liberdade, espera pelos dois. Pedro, certamente o mais apaixonado empresário de cinema de Belo Horizonte aprece viver num mundo onde a vida e os filmes se unem agradavelmente em um só trânsito. Um mundo algo cinematográfico, anos 40, que se perdeu no espaço.

João Moreira Salles e Eduardo Coutinho chegam no horário. O jeito reservado de Salles se revela logo na roupa: camisa azul de colarinho duro, jeans e um óculos de lente pequena, aro dourado. O cabelo acompanha o traço da roupa, penteado de linhas certas rente à cabeça. Coutinho chega (ou é) mais tranquilo: carrega nas costas uma bolsa-carteiro e vem de camisa polo, cabelo e barba já enbranquecidos. Ambos vão direto para a mesa: a rotina de imprensa a ser percorrida para apresentar os filmes em uma nova cidade quase não deixa brechas na agenda.

Alguém pergunta sobre a idéia dos filmes. Salles explica que partiu dele, mas inicialmente a proposta era filmar em paralelo a campanha dos dois candidatos que concorressem no segundo turno. Como não deu certo (para sorte de Coutinho, que se via desconfortável com o fato de seguir uma pessoa pública numa situação tão delicada), surgiu a nova idéia.

Salles não conhecia Lula e tudo foi definido num café da manhã marcado para tratar do assunto em agosto. O encontro foi rápido: Lula, sem mesmo consultar a cúpula do PT, autorizou Salles a acompanhar sua campanha.

João Moreira é incisivo em suas respostas, fala olhando nos olhos do interlocutor, raramente se perde. Mas, ao contrário de Coutinho, e mesmo sendo tímido, sabe muito bem onde inserir as melhores falas, despertar pequenas polêmicas.

No outro extremo da mesa, Coutinho fala muito. Parece falar como quem conta histórias numa mesa de bar, atropela palavras tentando ganhar da velocidade da língua. Reclama da Universidade por não haver se interessado em fazer uma história das Grandes Greves do ABC.

Gosta, mas fala pouco. Guarda as polêmicas, tem algo de mineiro no jeito de não tocar em certos assuntos. Conta algo sobre o filme novo “é passado na Paraíba. Foi feito sem roteiro, eu queria filmar o nada. São só pessoas falando, não há um assunto, eu queria fazer isso há muito tempo” e fala sobre o acaso nas filmagens “o que vocês chamam de acaso para mim é Deus”.

Moreira Salles se define como um documentarista de observação e Coutinho aproveita para brincar: “Sorte que ele não fez Peões. No ABC não tem nada para se observar. Eu, ao contrário, não observo nada. Já chego e vou logo falando”, diz, fumando calmamente do começo ao fim da entrevista. Algumas vezes Coutinho pára, olhando longe. Mas ninguém se engane, o ouvido continua aberto.

Salles fala de Lula, muito. De como, na verdade, Lula não suportaria ficar sozinho, como diz desejar no filme (“O caso do Lula é absurdo. É alguém que há 25, 30 anos não fica sozinho. Eu acho que ele ia ficar louco se ficasse sozinho”). Do medo que Lula diz ter de ser engolida pela máquina administrativa (“A máquina realmente é uma besta. Eu vi como funciona. E ele (Lula) deve dormir à noite pensando nisso”). E, enfim, sobre a liberdade de filmar:

“Tudo que eu queria, eu filmei. Claro que teve horas que eu sabia que devia sair. E é melhor sair pela própria vontade. Porque se você é mandado embora, tem que pedir pra entrar de novo no dia seguinte. Mas, mesmo no tempo todo de edição do filme, nunca ninguém chegou para mim e disse: corta isso, isso não entra. A liberdade foi total."

Termina a entrevista. Moreira Salles senta no sofá na parte detrás da sala para ser imediatamente abordado pelos repórteres de tv. Coutinho continua na mesa, agora na beirada, atendendo cada um dos muitos repórteres que chegam. Gesticula realmente como se estivesse numa mesa, conversando informalmente. Lá atrás, Salles conversa no sofá, agora mais solto. Em qualquer uma das entrevistas, a certeza de bons (e interessantes) dois minutos de prosa.

Agradecimento: Cinemas Liberdade

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