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Lá e cá (não necessariamente nesta ordem)

por Mônica Paula

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Exportado para a Europa e importado para o Brasil: Seu Jorge tem uma trajetória distinta de muitos. O músico e ator carioca esteve em Belo Horizonte no dia oito de outubro e o Pílula Pop aproveitou para bater um papo, logo após seu show na Serraria Souza Pinto. O sucesso alcançado por estas bandas e pelas bandas de lá, a relação com o “rock que não toca na favela” de David Bowie e a discriminação racial foram os temas que soltaram mais aos nossos ouvidos. E esperamos que soltem aos seus olhos.


Cigarro de divulgação

Pílula Pop: Como você encara o fato de hoje as pessoas fazerem tanto esforço pra te escutar? Muita gente veio aqui pra ver seu show. Como é que você vê isso?

Seu Jorge: É uma delícia, né?! Porque se faz muito esforço pra chegar nesse momento do trabalho, da carreira, da expressão. Mas eu particularmente não faço quase nada, não tenho disco lançado direito, nem toco na rádio, e é assim. De repente os anos vão passando, o trabalho vai se firmando... É um processo, fazemos o nosso trabalho hoje e um número realmente satisfatório de pessoas se identifica com a nossa escolha. Encontrar com essas pessoas então, é maravilhoso. A relação de troca que eu tive hoje é uma experiência no mínimo pra não esquecer, estou muito feliz por esse contato e com essa apreciação das pessoas.

Pílula Pop: Como é que você encara a fama?

Seu Jorge: Acho que há uma força muito grande quando percebo que a minha tentativa aqui é ser o mais positivo possível, e até posso dizer, romântico no que eu faço. Por que de onde eu venho não se tem o hábito de escolher as coisas, não se tem a opção de escolher caminhos. E quando se tem uma limitação, há também a opção: delinqüência ou luta pela prosperidade. Eu não poderia escolher a carreira de músico, de ator de cinema por conta de um quadro de deficiência. Aprendi naquela época, inclusive, que tinham limitações que fariam com que eu não pudesse participar disso, dessa atmosfera. Mas o tempo foi passando, fui adquirindo informações e fui vendo também que muitas outras pessoas não concordavam com isso. Sobretudo quando se sofre com a desigualdade, e quando se vive num país que abandona seu povo. Mas graças a Deus eu tive uma família, apesar de pobre, muito boa, pai e mãe que não me abandonaram. Mas eles foram abandonados pelo país. Esse país nunca me deu nada, só me deu oportunidade para eu fazer amigos, e eu estou nessa luta.

Pílula Pop: Você se sente mais responsável por as pessoas pararem pra te escutar, por causa do seu histórico?

Seu Jorge: Claro. Mas essa minha responsabilidade eu levo com muita prudência, tenho que ficar atento a tudo porque eu não gostaria de ser usado como exemplo para justificar a miséria das pessoas. Ou seja, “...ah Seu Jorge tá superbem, tá fazendo sucesso e ele vem da favela, você não sai porque você não quer, ele saiu”. Não, não é bem assim. É muito complicado ser citado como exemplo desse jeito. Eu tenho procurado ser um exemplo como espírito, eu quero criar um aspecto positivo musical e passar essa produtividade para as pessoas. Lá fora, na Europa, nos EUA, no Japão, no meu trabalho com os brasileiros que moram lá quero repatriar as pessoas através da música.


Seu Jorge em ação na música

Pílula Pop: As pessoas que ouvem seu som acham que vão escutar samba e acabam escutando uma mistura de ritmos, como você vê isso?

Seu Jorge: Somos miscigenados, o Brasil é um país colorido. É possível fazer um trabalho assim aqui e ser assimilado. Tudo é muito familiar à música, aos ritmos, é super bom poder experimentar essas coisas e conseguir ser entendido. Masprocuro transmitir emoção. Eu quero fazer uma música que eu cante no momento que vier. Eu faço um trabalho de ator também. Interpreto, utilizo os textos, a imagem, e é pura música brasileira.

Pílula Pop: E o que você escuta, quais as influências na sua música?

Seu Jorge: Eu sou uma pessoa influenciável demais e falar de bandas fica difícil, porque eu não escuto muitas coisas... Eu ouço muito Zeca Pagodinho, Jovelina Pérola Negra, David Bowie...

Pílula Pop: Qual sua relação com o David Bowie?

Seu Jorge: Quando eu comecei a escutar o David Bowie eu só conhecia uma música, porque rock não toca na favela, né... O trabalho que eu fiz (um punhado de versões de músicas de Bowie para a trilha do filme “A Vida Marinha de Steve Zissou”) foi o diretor (Wes Anderson) que me pediu pra fazer. Aí eu fiz aquele filme, cantando aquelas músicas, então eu falei “tá bom, beleza, vou tentar” e foi lindo!


Seu Jorge em ação no cinema

Pílula Pop: Tem um samba seu que lembra o João Nogueira. Há influência no seu trabalho?

Seu Jorge: Ah sim, claro, certamente. Ele tinha classe, voz, ele era o samba refinado, super fino. E tem influência muito grande no subúrbio do Rio de Janeiro.

Pílula Pop: Sua carreira é mais valorizada lá fora?

Seu Jorge: Eu não acredito. Acho que essa coisa está se equalizando. Em Minas Gerais eu não tocava há 3 anos e venho tocar aqui e a casa fica cheia desse jeito. Então eu acho que essas coisas são relativas. Eu quero é a sensação de estar feliz, com tranqüilidade. Estar cantando pra mim e pros meus amigos é ficar bem. Eu sou trabalhador, não sou artista, minha profissão é que é arte. Fora do palco eu sou uma pessoa normal, tenho filho pra criar, tenho conta pra pagar, tenho problemas com vizinhos. Não cabe mais fantasiar a vida. As pessoas podem parar comigo na rua pra conversar porque eu sou uma pessoa normal.

Pílula Pop: E a questão racial no Brasil, você ainda acha muito latente a discriminação?

Seu Jorge: Na questão do preconceito, a discriminação é maior. Mas o racismo é uma coisa que vai se diluindo na medida em que as pessoas vão se conhecendo...

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