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De letra

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Eduardo Coutinho sempre quebra a fama de calado e avesso à imprensa quando chega na sala da coletiva. O documentarista, que carrega no currículo o clássico “Cabra Marcado para Morrer” (1984), considerado por muitos o melhor filme brasileiro dos anos 80, é mestre em quebrar expectativas. Saltou da produção em vídeo nos anos 90 de volta para a película, para realizar projetos como “Santo Forte” e “Edifício Master”. Reergueu no doc brasileiro a ponte entre público e crítica. Saltou da paisagem carioca para a memória histórica com “Peões”. E agora faz seu próprio filme sobre o nada: “O Fim e O Princípio”. Sem roteiro ou tema, rumo ao sertão da Paraíba para, simplesmente, ouvir histórias bem-contadas. Mas nada é tão simples assim.

Pílula Pop: Realmente não havia nenhuma noção de onde iria ocorrer a filmagem?

Eduardo Coutinho: A única informação era do Guia Rodoviário, que indicava um bom hotel para a equipe por ali. Mas é uma região tão desconhecida que mesmo assim era uma informação muito frágil, nem a cidade certa do hotel estava lá.

Pílula Pop: E como foi o contato com as pessoas, já que não houve pesquisa?

Eduardo Coutinho: É uma cidade do interior, mas o mundo moderno ta lá. No filme não acontece nada. As pessoas falam. Ninguém nasce, ninguém morre durante o filme. Rosa foi o canal para aquelas pessoas. Ela é uma figura de transição porque se tornou professora. Queria conhecer o que tinha lá fora, mas amava muito essas tradições. Graças a ela entramos em umas 30 casas com a câmera ligada, filmando.


E o laço afetivo lá foi muito maior (que nos outros filmes). Devido à distância, à possibilidade de não voltar, de voltar e não encontrar mais com a pessoa viva.


Coutinho, Rosa e o mapa do tesouro

Pílula Pop: Qual era a idéia inicial ao chegar lá?

Eduardo Coutinho: Ah, era uma idéia romântica – filmar de longe, aproximar conversando e só depois chegar com a câmera. Se eu fosse fazer assim, eles não iam dizer nada.

Pílula Pop: A Rosa diversas vezes intervém no meio das perguntas...

Eduardo Coutinho: Ela perguntava coisas que eu não sabia e são entradas muito felizes porque são assuntos sobre os quais eu não perguntaria. São coisas que eu não me sentiria à vontade para perguntar, para a mulher do vigário, por exemplo.

Pílula Pop: A proximidade com as pessoas influenciou na escolha dos personagens na hora da edição?

Eduardo Coutinho: Gostar de uma pessoa é uma coisa, gostar como personagem é outra. Mas um personagem que é bom e é fanho, por exemplo, é muito complicado de colocar em um filme. O próprio Zé de Souza, que é surdo, não entraria. Foi a gente encontrar com ele por ali que fez surgir a oportunidade de tentar fazer daquele jeito, escrevendo. O esforço de se comunicar, meu e das pessoas, é o que eu acho de importante. Por isso o filme não tem legendas.


Coutinho e seu Zequinha

Pílula Pop: Com esse projeto pronto já há perspectiva de algum outro?

Eduardo Coutinho: Eu dependo dos outros. Vivo da caridade pública. Há possibilidade de um dinheirinho aí. Não sei uma coisa que me apaixone agora, não estou mais em idade disso. E tenho que encontrar, porque se eu não for fazer cinema, vou fazer o quê? Sentar na praça?


O que eu tenho que fazer um dia é um filme sobre a máquina Singer. Sobre a mulher brasileira no interior. Essa história é atravessada pela história da máquina Singer.


Preciso encontrar agora é um dispositivo que me interesse. Nos meus filmes interessa é a idéia do jogo. Explicitar o dispositivo de filmagem. E onde não aconteça nada, só gente falando. Faço filmes onde pessoas falam. Falar bem é difícil. Se fala muito mal na cidade. O lugar de uma fala realmente boa é o sertão, do Nordeste, algum lugar da Bahia.

Pílula Pop: No final das contas, você consegue ver no filme um ‘tema’ central?

Eduardo Coutinho: O tema não importa. Eles se expressam bem, ainda conhecem as palavras, inclusive as de um português arcaico que se preservou por aquela ser uma região muito isolada. E o imaginário também é menos contaminado pela influência externa. Ali existe toda a coisa baseada na família patriarcal, com tudo de bom e ruim: tem o louco da família, a tia que não casou, cada pessoa tinha seu lugar. E existe a história da morte: quando não falo da morte, eles falam. Até nos mais positivos, a morte está presente. Aquele casal que nunca brigou vai ter a primeira briga ali, por conta da história da morte.


Existia ali toda a questão da imigração mas não entrou porque seria um outro filme. O cangaço mesmo ficava escrito na caderneta com as perguntas, mas esquecia de perguntar. O que entrava (nas questões) era infância, roça, casou, não casou, a perspectiva da morte. Em alguns, isso se apresenta não na morte pessoal, mas na questão do fim do mundo. Como diz o Nato: ali é trabalhar pensando que não morre, rezar pensando que morre.

Pílula Pop: E qual era a regra do jogo nesse lugar novo?

Eduardo Coutinho: A regra do jogo é o respeito. A equipe sabe disso. Se está no campo, não fala palavrão. Se usa alguma droga, não leva na filmagem. Se eu fosse filmar índio, faria um filme sobre não saber como filmar índio. Já Nordeste eu conhecia muito, tanto de filmar lá quanto de ler muito. Com a ajuda da Rosa, tudo era feito sem marcar hora, era chegar e filmar, não houve cachê. E todo mundo improvisa: o câmera, a personagem, e eu também.


Coutinho em casa de Dôra

Pílula Pop: Nesse filme existe mais diálogo do que perguntas e respostas apenas.

Eduardo Coutinho: Eles inclusive devolvem as perguntas que eu faço, é maravilhoso. E surgem aqueles momentos complicados, como quando ele me põe na parede se eu acredito em Deus.Se eu falo que não existe Deus, acaba o filme, acaba o diálogo em qualquer lugar do Brasil. Daí eu vou no máximo que é possível: digo, “queria acreditar, mas não sei”.

Pílula Pop: Como é a vida naquela cidade?

Eduardo Coutinho: O modo como aquilo está lá remete à ditadura militar. Nessa época foi criado o Funrural. Acabaram com os sindicatos e tudo e colocaram a aposentadoria rural. Tem 60 anos, pode aposentar, já que não tem como comprovar. Quem tem renda lá é quem tem uma renda desse tipo. Sobrevivem lá graças ao estado, federal, estadual e municipal. O dinheiro não corre

Pílula Pop: Normalmente é difícil mobilizar as pessoas para falar diante da câmera?

Eduardo Coutinho: Normalmente é muito difícil. Eles perguntam o que você faz, e ouvem que é documentário. Daí perguntam “É para televisão?” Não. “Quando fica pronto?” Daqui um ano. Daí acabou. A pessoa já perde o interesse. E dessa vez, eu estava interessado por pessoas não contaminadas pela televisão. São as que melhor contam histórias.

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