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Mais que só aspirina

por Rodrigo Campanella

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Foram sete anos em busca de verbas pra filmar Cinema, Aspirinas e Urubus. Quando Marcelo Gomes sentou no Café Belas-Artes para uma ‘coletiva informal’ com vários jornalistas, o que ele mais queria era contar histórias. Na conversa que foi da fotografia árida a blockbusters brasileiros, conseguimos até achar o lugar dos tais urubus . Aqui está o melhor do papo.

Pílula Pop: A trilha sonora chama muito a atenção no filme...

Marcelo Gomes: Nós contamos com a assessoria do Christiano Câmara, que tem um museu de discos de vinil que já rendeu até um curta (Rua Escadinha 162). A intenção era trazer a época pelo rádio. Mas não as músicas mais conhecidas daquele tempo. Eu queria trazer o que estava no hit-parade de 42 que hoje ninguém conhece. E a intenção o tempo todo era que as músicas ressoassem as cenas.

Pílula Pop: Como foi a experiência de Cannes?

Marcelo Gomes: Eu nem achava que ia terminar o filme, estava cansado de procurar dinheiro. Brincava que ia fazer uma cópia em dvd e mostrar para os amigos. Mandei uma cópia fudida para Cannes e dois meses antes de fechar os selecionados, fui chamado. A recepção lá foi das melhores. A gente faz cinema para ser compreendido pelas pessoas e isso aconteceu. Achei uma distribuidora, e várias já haviam fechado a porta.


A foto-oficial-do-diretor

Pílula Pop: Por que a montagem do filme aconteceu em Belo Horizonte?

Marcelo Gomes: Foi por causa da minha montadora, que havia se mudado para cá. Foram seis meses a partir de janeiro de 2004. Filmamos no Sertão da Paraíba durante 7 semanas. Faltando uma semana para acabar as filmagens, levei a Karen até lá para ela ver se com aquele material era possível fazer o filme. Se passasse desse tempo não haveria mais dinheiro para pagar a câmera!

Pílula Pop: De onde veio a história do filme?

Marcelo Gomes: Veio de um relato de um tio-avô meu. Mas o que me chamou a atenção foi a universalidade de tudo. São dois fugitivos, procurando um caminho melhor para suas vidas. Tomar conta do seu destino. E nisso entra a dificuldade, o drama de ser errante. Parece simples, mas é muito mais fundo.

Pílula Pop: Os personagens vão se transformando ao longo da viagem...

Marcelo Gomes: É isso, vão começando a entender que o que é o diferente, a se entender pelo outro, a deixar a rejeição de lado. Por isso mesmo queria ter um nordestino de personalidade, até mais seco que um alemão, não o bom selvagem. O brasileiro-padrão, que parece ser o João Miguel (Ranulpho, no filme). Esse que não sabe direito quem é, tem a ilusão do estrangeiro e o sonho do futuro, da maquinaria. Mas era preciso não ser uma transformação hollywoodiana, de príncipe em sapo. A intenção era fazer uma coisa sutil, na troca de olhares.

E além disso, queria trazer para a tela um momento da história brasileira que não se conheceu. Havia um campo concentração em Recife, outro em SP. E naquele tempo era assim: judeus para Auschwitz, nordestinos para a Amazônia, morrer de malária e outras doenças.Tudo isso acontece e até hoje os urubus continuam assombrando por ali.

Pílula Pop: Como foi o trabalho da direção de arte?

Marcelo Gomes: Foi sempre procurando a simplicidade. Tudo que tem no caminhão é usado no filme. Se não usava, foi tirado. Nas locações foi preciso tirar de lá e depois recolocar 52 postes e muito plástico, um material que não existia na época. A direção de arte sofreu muito, mas esse trabalho não podia aparecer no filme: tinha que ter a simplicidade na tela.

Pílula Pop: E a construção da fotografia?

Marcelo Gomes: Imagine a pupila dilatada de um alemão europeu que chega ao sertão e um sertanejo fugindo da seca. Para os dois, aquele lugar precisa parecer um terreno hostil. Daí esse sertão branco, sem um céu azul. Falei pro meu diretor de fotografia: “ se tiver um céu azul nesse filme, você está demitido!” (risos).

Como nós não tínhamos dinheiro, viajei com ele para o Sertão com uma máquina fotográfica. A gente ia variando a abertura do diafragma e depois o banho no laboratório, até chegar naquela luz. O filme foi feito em Super 16mm e ampliado em 35, para dar grão na tela. Depois passou por um processo para dar a cor esmaecida. Só assim para estourar a fotografia e não perder a profundidade.

Pílula Pop: O seu sertão é muito diferente do que se costuma ver na tela grande.

Marcelo Gomes: Filmei o meu Sertão, o meu Brasil. É o sertão da minha memória, de ritmo lento. Ele é cheio do que eu chamo de silêncios espaciais, com as pessoas morando a quilômetros uma da outra e esse nada no meio.

É bem diferente do documentário que eu fiz em 2000 sobre o sertão na virada do milênio, que eu fiz com o Karim (Aïnouz, diretor de Madame Satã). O filme fica pronto no ano que vem. O título é “Carranca de acrílico azul-piscina”. Ainda vão me matar por conta desses nomes... (risos).


Gomes dirige a dupla principal no sertão paraibano

Pílula Pop: Como foi a escolha dos atores?

Marcelo Gomes: O personagem alemão é um alemão. Todos nordestinos são nordestinos. Para mim era importante dar uma cor local, um sotaque para o filme. Procurei trazer as histórias dos avós de cada um para hoje, trazer as memórias. Com exceção do Peter é o primeiro filme de todos os atores.

Pílula Pop: E como foi que o João Miguel entrou no filme?

Marcelo Gomes: Ele estava no teatro com “Bispo do Rosário”, fui assistir e o convidei para um teste. Mas não gostava dos primeiros testes dele, o personagem da peça estava muito impregnado ainda. Mas cheguei um dia e disse: você vai ser o ator do filme. Ele não entendeu o porquê. Falei: preciso desses olhos no meu filme! Os olhos dizem muito mais do que as palavras. Na cena do caminhão em que estão os dois e mais a mulher, por exemplo, a Karen (montadora) foi cortando os diálogos, cortando mais, até que sobrou só o olhar.

Pílula Pop: Seu trabalho em vídeo é bem mais dinâmico, expansivo. Ter demorado sete anos para fazer o filme ajudou a encontrar um tempo mais ameno, pausado?

Marcelo Gomes: Houve bastante conceitualização do filme, já que ficamos por muito tempo procurando verba. Esse tempo longo possibilitou uma construção sólida de tudo aquilo que a gente pensava, chegar no conceito do filme. Quando ficou pronto, vimos que o que estava na tela era exatamente o filme que a gente queria fazer.

Pílula Pop: Como fica a distribuição do filme, após o prestígio de Cannes?

Marcelo Gomes: São 9 cópias no Brasil. O lançamento nos Estados Unidos é em janeiro. E na França a estréia é em abril, com 15 cópias. O cinema é uma arte aberta, cada um com sua forma de diálogo. Eu sabia que com o sertão que eu filmei não ia ter 6 milhões de espectadores. Mas, por exemplo, na França meu filme vai ser exibido por 3 anos para um milhão de estudantes secundaristas, em dvd (por conta do prêmio da Educação Nacional Francesa, ganho em Cannes). Imagina se eu pudesse fazer isso aqui?


João Miguel e Peter Ketnath em cena do filme.

Pílula Pop: E a questão das leis de incentivo ao cinema no Brasil?

Marcelo Gomes: Temos uma lei bacana de incentivo, mas que tem que ser reformulada. Eu e a Xuxa, ou eu e a Globo competindo pelo mesmo dinheiro, quem você acha que vai ganhar? Mas se for só filme de arte, quem vai classificar se o filme é de arte ou não? Em outros países, filmes comerciais conseguem empréstimos do governo e filmes com propostas diferentes são incentivados com verbas. Mesmo assim o problema da distribuição continuaria.

Pílula Pop: ...precisa disputar espaço com os blockbusters.

Marcelo Gomes: É, finaliza mas não tem salas para exibir o filme. E cinema no Brasil quando o ingresso era mais barato tinha muito mais salas. Tem um cinema no Recife (o Teatro do Parque) que é mantido pela prefeitura, com uma entrada mínima. E lota, são milhares de espectadores.

Pílula Pop: É apenas o preço do ingresso que influencia?

Marcelo Gomes: Uma empregada de uma amiga falou “eu não vou ver o filme do senhor porque cinema é coisa de gente rica”. É preciso tirar essa idéia. Nos anos 70, cinema era popular. O Carlão (Reichenbach, cineasta) conta que o preço do cinema era o preço de uma passagem de ônibus. Ele pedia um empréstimo no banco, fazia uma pornochanchada, dava 1 milhão de espectadores e com isso pagava o empréstimo. “Dois Filhos de Francisco” era para dar 25 milhões de espectadores – mas muitos fãs devem ter ficado com medo de ir no cinema.

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