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Revistices

por Braulio Lorentz e Rodrigo Ortega

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A frase que está na comunidade de orkut da extinta Revista Zero é de autoria do jornalista Alex Antunes: “A Zero não precisa se explicar”. Mas todos sabemos que não é bem assim. Aproveitamos a passagem em Belo Horizonte do jornalista Luiz César Pimentel, atualmente no UOL, para pedir algumas explicações sobre o que aconteceu no apagar das luzes da publicação. Segundo ele, não existe chance de ligar o interruptor de novo.

Luiz estava em BH para o lançamento de seu livro “Sem Pauta”, no dia 11 de fevereiro, na Livraria Quixote. Ele acabou sendo a pauta salvadora para o nosso querido Ressonância. Quando soubemos da vinda de LCP, a redação do Pílula Pop vibrou. As “Revistices” que estão no título dizem respeito ao rumo que o papo tomou. Abordamos a extinta revista Zero, revistas virtuais, capas de revistas, resenhas de revistas e o fato das reportagens de seu livro terem sido publicadas em revistas.

Tudo bem que ele esteve na Índia, Dinamarca, Rússia, Alemanha, Macau, Hong Kong, Vietnã, Camboja, Tailândia, Malásia, Mianmar, Tibet, Polônia, República Tcheca, Bangladesh, Nepal, Holanda e Equador, produzindo as matérias compiladas em “Sem Pauta”. Porém, o que naturalmente norteou nossas perguntas foram os momentos em que Luiz César Pimentel estava no Brasil mesmo. Na redação em que era diretor.


A foto oficial, que está no livro

Pílula Pop: Para começar, a gente gostaria de saber sobre o fim da Revista Zero...

Luiz César Pimentel: Muitos perguntam se ela vai voltar. A Zero foi um projeto que se bastou durante aquele tempo. A gente conseguia, viabilizava como projeto editorial e não comercial. Em dois anos de circulação havia uma divisão de receita com a editora que era 50% a 50% na propaganda. Isso sustentava os custos de produção. Nunca tirávamos dinheiro com a revista, era difícil. Mas depois eles passaram para 80% a 20%. E inviabilizou. Daí a gente decidiu encerrar pra que não ficasse um negócio que a gente fizesse “nas coxas”. Porque a gente fazia com tanto carinho... Decidimos encerrar de vez. Isso faz um ano e meio.

Pílula Pop: E agora você trabalha no UOL. Mas como estão as colaborações, tem a Laboratório Pop...

Luiz César Pimentel: No UOL eu trabalho em uma área totalmente diferente, que é para escolher os sites que estão no UOL. Faço a avaliação editorial. Mas depois da Zero eu comecei a escrever em um tanto de lugar sobre música: revista Sexy, Superinteressante, Laboratório Pop, o próprio UOL, revista Outra Coisa. Eu também faço muito release de banda. Mas nada muito fixo. Música para mim virou um hobby.

Pílula Pop: E quais os últimos releases que você escreveu?

Luiz César Pimentel: Eu escrevi Cachorro Grande, Pitty, Capital Inicial, Cascadura, Astronautas, Rock Rockets. Eu só escrevo de banda que eu gosto. Se eu não gosto da banda, eu declino o convite. Eu deixaria de ser jornalista para ser publicitário. Eu não vou ficar inventando adjetivo e enganando as pessoas. Vai totalmente contra o que a gente vinha fazendo na Zero. Porque não tínhamos uma mega-operação por trás, mas tínhamos liberdade editorial pra escrever absolutamente tudo que a gente quisesse. E eu não posso contrariar isso pra ficar fazendo propaganda de banda que eu não acredito.

Pílula Pop: Em outras entrevistas que você deu, a gente nota uma questão sobre a maneira de trabalhar na internet e no impresso. Você costuma citar também a questão do achismo que predomina nos sites.

Luiz César Pimentel: Nos sites tem muita publicação de opinião. Tem cara que monta um site que não pratica jornalismo e se diz jornalista. E não é. Existe muito jornalista que não faz um bom texto ou uma reportagem. Eu sinto muito falta disso nos sites. As pessoas se acomodam um pouco. Vejo simplesmente resenha e não fazem entrevistas.


KLB, LCP e Bezzi, que não é o da música do CSS. Putz, quantas siglas!

Pílula Pop: Na Zero, os colaboradores geralmente mandavam resenhas. Vocês chegaram a receber matéria com apuração?

Luiz César Pimentel: Se a gente recebesse uma sugestão de matéria direcionávamos a pauta para que fosse uma matéria mesmo, e não ia ser uma coluna da pessoa. Porque a gente recebia muita resenha. 90% que a gente recebia era texto de opinião.

Pílula Pop: Uma outra coisa de internet. Há pouco tempo no site do Curitiba Rock Festival tinha uma matéria sua sobre o show do Weezer, que você fez pro UOL. A matéria foi usada como publicidade, do jeito que foi colocado. Era a única matéria indicada pelo site do festival...

Luiz César Pimentel: Aquilo foi casual, porque eu vi o show um mês antes de acontecer aqui no Brasil. Pro UOL, o que interessa é a audiência.

Pílula Pop: Mas você foi por conta própria?

Luiz César Pimentel: Sim, estava viajando. Eu ia assistir o Reading [festival]. Teve uns shows naquela semana e eu assisti. O Weezer ia tocar um mês e meio depois aqui. Eu escrevi que o show foi ótimo, não podia mentir. É que nem aqueles caras que fazem uma publicidade de filme com base em críticas: “Fulano de tal da Veja”. Não usariam se eu tivesse falado mal, é claro.

Pílula Pop: Voltando pro papo da revista Zero. A Zero pegou muitos órfãos da Bizz, e os órfãos da Zero agora têm a volta da Bizz. O que você acha da nova Bizz? Já leu?

Luiz César Pimentel: Eu li a Bizz. Eu achei uma revista bacana, ok assim. A minha crítica é que ela poderia ousar mais. Ela tem um amparo para ser mais ousada, que é sair pela editora Abril. Ela pode não ficar muito no noticiário, no dia-a-dia. Pode mostrar coisas diferentes. Mas é uma revista bacana, eu sempre achei. Tem gente que tem a Bizz como escola, mas eu nunca fui fanático ou colecionava. Na minha época de revista de música eu lia a Rock Brigade, que era mais “podrona” e de metal, que era o que eu mais ouvia. Mas eu acho o cara que está tocando a Bizz bem legal, o Ricardo Alexandre. Eu acho ele um jornalista bem bom.

Pílula Pop: No começo da Zero, vocês meio que tentavam desvincular desse negócio de que a Zero era para órfãos da Bizz. Qual era então a diferença?

Luiz César Pimentel: A gente não ficava tão focado em música. Era cultura pop. A gente podia publicar uma entrevista do Bangs ou fazer umas coisas mais diferenciadas. Tinha até coisa de viagem que tem no livro que saiu na Zero. Tinha o gancho da música, porque é o ponto mais forte da cultura pop.

Pílula Pop: E pra Bizz música é tudo... Já a Zero teve capas sobre drogas e pornografia...

Luiz César Pimentel: O gancho da Zero era diferente. E a gente tem orgulho de fazer essas coisas porque fugia do lugar-comum, algo como “10 anos da morte do Renato Russo”. A idéia era que fosse uma revista que a gente tivesse vontade de ler. Mesmo que não gostássemos da banda ou do artista, o mínimo seria que a gente tivesse vontade de ler aquela matéria. E dentro disso valia tudo, valiam idéias boas. Mas gente tinha preocupação de colocar na capa o que fosse mais vendável. A gente fecharia muito o leque da revista, se botasse uma banda que agrada três amigos nossos.

Pílula Pop: A Laboratório Pop, neste sentido, é corajosa de botar bandas como Fiction Plane, ou aquela menina do Luxúria, a Marjorie Stock.

Luiz César Pimentel: É, eu tenho umas discussões sobre isso. Eu não acho tão produtivo, porque você fecha muito. Em vez de você abrir o leque de leitores para que eles conheçam aquele artista, você restringe e vende para aqueles caras que já conhecem o artista. Eu acho um pouco contraproducente. Você tem que ser ousado e fazer sua ousadia vingar. Não tem que ser ousado pro seu amigo. Isso não vai ter valor nenhum.

Pílula Pop: Na Zero tinha muito isso. Tinha umas capas com Red Hot Chili Peppers ou Dinho Ouro Preto. Mas nem eram as matérias principais da edição.

Luiz César Pimentel: Não eram as matérias mais importantes da edição, mas é claro que a gente iria colocar o Dinho, do que uma matéria do Mogwaii. Se a gente colocasse os caras do Mogwaii a gente venderia três revistas. E falaria: “Ó! A gente é corajoso”.


A capa do livro

Pílula Pop: Voltando para o negócio de grande reportagem, e parando um pouco de falar só sobre Zero. Você já tinha escrito todas os textos do “Sem Pauta” antes da Zero e está lançando agora? Demorou muito tempo para editar?

Luiz César Pimentel: O livro tem muita coisa que foi publicada na Zero e na Radar, outra revista que a gente tinha. Eu morei na Ásia, e fiz muita reportagem, entre 99 e 2002. Eu tinha todo o material dessas reportagens e também os diários e fotos. Conversei com o editor e bolamos o formato.

Pílula Pop: Você foi pra Ásia de freelancer ou estava contratado?

Luiz César Pimentel: Eu fui como freelancer de vários veículos. Porque a matéria que pintasse eu vendia para algum veículo. Eu vendi matéria pro Terra, Viagem e Turismo... Para editorias variadas. Então, quando eu cheguei da viagem fui editar um portal de turismo. Daí eu abri o meu leque, fui pra revista Trip e lá escrevia sobre qualquer coisa. Então surgiu a idéia da Zero.

Pílula Pop: Foi na Trip que você teve contato com o Daniel Mota [editor de arte da Zero]...

Luiz César Pimentel: A gente trabalhou junto na Trip.

Pílula Pop: Porque desde o começo da Zero ficava muito clara a relação entre a diagramação, o design e o texto.

Luiz César Pimentel: A gente queria fazer junto, pra que não ficasse eu simplesmente mandando o texto pra ele e ele diagramando e fazendo o projeto gráfico. A gente bolava a coisa junto. Às vezes o projeto gráfico puxava a matéria. Ele lia e a gente já conversava, tinha uma idéia.

Pílula Pop: O projeto gráfico era meio ousado...

Luiz César Pimentel: Ele foi se acertando com o tempo, eu acho. Nas primeiras edições eram blocos de textos, era muito 8 ou 80. Depois eu acho que ele acertou e ficou mais flexível. Mas era natural que no começo a gente tivesse um pouco de dificuldade.


Luiz, o rei cover (que esteve em uma capa da Zero) e Daniel

Pílula Pop: Você disse que era meio metaleiro. O que você acha de bandas que fazem paródias com o metal, como Massacration, Darkness. Porque elas acabam pegando dois públicos: os que gostam de Metal realmente e os que vão aos shows e escutam só de farra.

Luiz César Pimentel: Na época que todo mundo começou a ouvir metal era uma coisa meio de defesa do gênero. Você não podia...

Pílula Pop: Usar bermuda.

Luiz César Pimentel: Isso. E os caras do Massacration passaram por essa época. Hoje você ouve vocal operístico com guitarra metal: esses Nightwish da vida. As coisas meio que perderam essa rigidez. Os caras aproveitaram essa onda. Eles viram o quanto que era ridículo essa coisa do metal da década de 80. A molecada está mais flexível e tira sarro. Quem ouvia metal na época também evoluiu, amadureceu e tem a visão do quanto era ridículo. É um nicho que eles aproveitaram. Eu falei com o cara do Dorsal Atlântica e ele odeia. Mas é uma piada, se você conta uma vez é engraçada. Já a segunda...

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