Busca

»»

Cadastro



»» enviar

Infinito para dentro

por Daniel Oliveira

receite essa matéria para um amigo

Misterioso e teatral. Foi como o diretor Gustavo Acioly definiu também o ator Fernando Eiras. Misterioso, ele pode começar longas divagações a respeito da vida, partindo de seu personagem em seu sexto filme, “Incuráveis” – “para dentro, nós somos infinitos”, ele afirma. Teatral, ele não pensa duas vezes antes de interromper a entrevista, ficar de pé e imitar uma senhora que saiu chocada da sessão do longa, na noite anterior. O carioca de 48 anos conversou com o Pílula e tirou umas fotos “interessantes”, debaixo do calor escaldante de Tiradentes.


Tradicional foto-turista, em frente à matriz de Santo Antônio, em Tiradentes

Pílula Pop: O Gustavo [Acioly, diretor] disse que você é um ator enigmático, de teatro, e foi isso que ele tinha pensado para o papel. Como foi sua experiência no filme?

Fernando Eiras: Fazer cinema é uma temeridade. O ator corre perigo, ele está milimetricamente marcado no espaço. A liberdade dele é só para dentro. E para dentro, a gente é infinito. O bom trabalho do ator no cinema só é possível quando se é amparado. E nisso, eu dei muita sorte porque o Acioly gosta muito de atores. Ele nos deu a chance de apostar nas nossas idéias e no nosso talento. E eu tive a sorte de trabalhar com a Dira, que me aceitou com a minha rabugice – devo ser muito complicado de trabalhar como ator.

Pílula Pop: Como você chegou ao personagem?

Fernando Eiras: A Laura [Pozzobon, produtora do filme e mulher do diretor] viu um trabalho meu, uma peça de Shakespeare e veio falar comigo no camarim. Disse que ia fazer esse filme, “Incuráveis”. Eu já conhecia o texto d’A dama da Lapa” e gostei muito da teatralidade dos personagens. Ela disse que ia me ligar, mas eu não acreditei. Achei que era tipo “paixão de praia”. Sabe aquela pessoa que você conhece no litoral e diz que vai te ligar quando subir a serra, mas você tem certeza que não vai? Mas ela ligou e cá estou eu.

Pílula Pop: E como você enxerga aquela história?

Fernando Eiras: É o encontro de dois atores sem lugar. Eles estão ensaiando sua vida, buscando o lugar que eles não têm. O Deus deles é um Deus irônico. Acho que meu personagem é um cara muito bem sucedido, só que frustrado. Como o Henry Miller diz, “a gente vive adiando o grande momento de agir, de decidir”. Ele perdeu esse momento.


“Achou!”

Pílula Pop: E você acredita que ele realmente quer se matar?

Fernando Eiras: Acho que ele não tem saída, uma hora vai acabar se matando. Ele fica buscando motivos para não fazer isso. Ela é um motivo para ele não se matar. Existe uma ponte entre os dois, apesar de serem diferentes. É o filme de um encontro, uma chance.

Pílula Pop: Você é um ator de teatro. Como tem sido sua passagem pelo cinema?

Fernando Eiras: Comecei a fazer cinema com o Julio Bressane. Foi uma sorte muito grande. Foram três trabalhos de composição de personagem. “Incuráveis” foi o inverso desse processo que eu vinha fazendo com o Bressane. Eu sentia antes e buscava a forma para aquele estado depois. Foi muito interessante, e muito desafiador também.


E a foto turista vs. remix ator de teatro

Pílula Pop: Como foi assistir ao filme com a platéia de Tiradentes?

Fernando Eiras: Eu sofri muito durante a sessão. Mas a platéia da Mostra foi maravilhosa. Ela se envolveu com o filme. Foi legal ver o público se deixando levar por aquela história estranha, difícil, de vida, amor, morte. Elas reagiam nas cenas mais sensíveis, riam das coisas mais sutis do roteiro. Teve uma senhora que se levantou [Fernando fica em pé, pega sua bolsa e imita a senhora saindo]. Ela disse: “esse filme é isso? Não vou assistir a essa coisa!” (risos).

» leia/escreva comentários (1)