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Ver e viver em Brasília

por Rodrigo Campanella

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Logo após assistir ‘A Concepção’, tudo que você espera encontrar na coletiva é um diretor punk, cabelo moicano, óculos verde-limão, camisa justa e cigarro na mão. Quando José Eduardo Belmonte entra na sala, você percebe imediatamente como essas concepções apressadas podem ser burras.

Vestido folgadamente com camisa pólo e jeans, um par de sapatênis nos pés, o diretor conversa com a imprensa. Fala muito, e rápido, mas é tranqüilo. Por várias vezes durante o papo, revela o receio de coletivas com jornalistas, talvez por conta de alguns travestirem ofensas de perguntas. Mas não foi o caso desse dia. ‘Eu não esperava tanta gente aqui hoje’, ele diz um pouco receoso antes de se sentar.

Pílula Pop: Como ‘A Concepção’ surge?

José Eduardo Belmonte: A idéia do filme começou quando eu tinha 16 anos, assistindo uma aula sobre movimentos estéticos. Foi nos anos 80 e eu pensava como era anacrônico fundar um movimento estético naquela época, com todo aquele tédio, aquele vazio. Pensei que o que daria mais certo era um movimento concepcionista.

Também tinha um grupo de amigos que costumava se fantasiar, se vestiam de dark para ir numa festa gótica, de caubói para ir em uma de agropecuária. As coisas se somavam, mas eu ainda não sabia como contar isso. Foi quando veio a idéia de contar a história de forma concepcionista também. Não deixar tudo encadeado, vertical, mas fazer um filme horizontal.

Pílula Pop: Você considera a estrutura do filme experimental?

José Eduardo Belmonte: O termo experimental tem hoje essa coisa de ter que ser cabeça. O que eu quis foi trazer um pouco de volta a invenção ao cinema mas fazer um filme pop, musical, engraçado, divertido. Que, de certa forma, é uma experiência sensorial para o público.

Pílula Pop: A trilha sonora encaixa muito bem no filme.

José Eduardo Belmonte: O Zepedro (Gollo, músico e DJ) fez a trilha de quase todos os filmes meus. Essa tem Secos & Molhados, Walter Franco e algumas coisas do rock de Brasília que quase ninguém ouviu, como Prot(o). E tem aquilo que funciona como tema, o David Bowie para a Liz.


Belmonte versão balada

Pílula Pop: Afinal, a história se passa nos anos 80 ou hoje em dia?

José Eduardo Belmonte: Tenho um amigo que fala que o filme se passa num universo paralelo. Mas nós misturamos tudo mesmo. Exatamente porque o concepcionismo nunca é. Quando você acha que ele é uma coisa, é outra.

Pílula Pop: Você participou de experiências parecidas com as do filme?

José Eduardo Belmonte: O que está ali é uma coisa muito minha também, eu sou de Brasília. O filme podia se passar em qualquer canto, mas tem isso de Brasília que é um vazio muito grande, uma falta de referências – e daí você pode ser tudo. É um pouco esse paradoxo.

E é um filme sobre a crise e em crise. Ele divide a perplexidade com hoje em dia. O vazio em Brasília é o vazio da gente. Já tentamos tanto tipo de coisa, tanto tipo de discurso, de modos de vida, e isso não tapou o buraco.

Pílula Pop: Você ficou com medo de receber críticas acusando as cenas sexuais no filme de gratuitas?

José Eduardo Belmonte: Esse filme tem sido uma montanha-russa para mim. Num dia eu leio duas críticas, uma falando bem e outra mal. Nunca fui de um elogio a uma ofensa tão rápido. E como o filme não tem uma afirmativa, não quer afirmar nada, eu entendo que as pessoas tentam se defender dele. Mas em relação a isso eu preciso admitir. Trazer a sexualidade para a tela foi um ato político, porque esse assunto sumiu do cinema nacional.

Pílula Pop: A montagem foi fundamental para construir o filme?

José Eduardo Belmonte: Muita coisa da montagem já estava lá no roteiro. Montar foi um trabalho delicado, quase esquizofrênico, porque tinha que haver um rigor para o filme não descambar para algum lado e ficar trash. Precisava ter uma afirmação e logo depois uma negação, e nisso muitas vezes a gente tinha que controlar o tempo (das imagens). A montagem (com Paulo Sacramento) foi muito exaustiva, brigamos muito. Mas às vezes é bom ser inimigo dentro do set.

Pílula Pop: E a sua angústia que a gente vê no filme, passou?

José Eduardo Belmonte: Ela não passou, mas foi bom para colocar isso para fora, botar para jogo. Porque isso existe mas ninguém fala, a gente vive no trânsito, meio que na Matrix. E é bom sair disso, ser o Outro de fato.


Belmonte versão palestra

Pílula Pop: E qual o lugar de Brasília nisso?

José Eduardo Belmonte: Eu tenho um pouco de medo de coletiva, então vindo pra cá lembrei de um trecho do (poeta) Nicholas Behr, que ia citar: “A cidade é isso que você está vendo, mesmo que você não esteja vendo nada”. Brasília é essa esfinge, é uma ficção científica para o resto do país. O cara olha e pensa, ‘onde estão as pessoas’? Mas Brasília teve seu lado bom, acrescentou para o país esse olhar de não entender, um olhar horizontal.

Pílula Pop: Como foi trabalhar com Matheus Nachtergaele?

José Eduardo Belmonte: Ele é um ator com muita generosidade, muito técnico mas com um lado intuitivo bem acabado. O Matheus é pequeno, franzino, mas com um carisma impressionante, perfeito para interpretar o X, que eu sempre imaginei como vírus. E ele não conhecia a gente, recebeu o roteiro e resolveu arriscar. Ele se entregou e deu certa credibilidade para todo mundo fazer o mesmo.

Pílula Pop: Já existe algum próximo projeto?

José Eduardo Belmonte: Já, vai se chamar “Se Nada Mais Der Certo”. Todo filmado na rua, com um tom documental e possivelmente o mesmo elenco de agora, sobre pessoas de fora que vão viver em São Paulo e os códigos que criam entre eles. É sobre a crise ainda, mas é um filme mais inteligível que ‘A Concepção’, no qual ainda é um mistério para mim saber qual vai ser a reação do público. Tem sido uma montanha-russa mesmo.

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