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A segunda vida da Noiva

por Rodrigo Ortega

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Joffre Rodrigues se sentou na única cadeira vazia no meio de uma dezena para responder às perguntas dos jornalistas que cobriam a Mostra de Cinema de Ouro Preto. Mas ele não estava sozinho. No fundo da sala estavam seu filho, Sasha, produtor, e seu neto, Vinicius, ator. Sentado em suas costas, se divertindo horrores como Madame Clessi, personagem de ”Vestido de Noiva”, primeiro longa de Joffre, estava o autor do texto original e seu pai, Nelson Rodrigues. Os jornalistas não perderam tempo.

A gravidez

“Ainda em vida meu pai me pediu para fazer este filme. Como eu era só produtor, sempre achei que ele tivesse me pedido para produzir. Mas eu teria que entregar na mão de um roteirista, e eu queria fazer algo leal ao texto. Resolvi fazer o roteiro, que foi delirantemente aplaudido por pessoas como Fernanda Montenegro, Ruy Castro, Camila Amado, etc. Quando "nêgo tarô" pelo roteiro, eu falei: então vai me caber dirigir esse filme, porque se der para um diretor, ele vai mexer no roteiro. Isso começou em 1996. Levei oito anos para captar patrocínio e dois para fazer o filme. Pode parecer piada, mas é verdade.”

O parto


O obstetra cobrou caro (foto: Leonardo Lara - divulgação)

“Eu não tenho charme para captar, é a coisa mais incrível do mundo. Eu tinha um projeto maravilhoso, um elenco fantástico, mas não conseguia patrocínio. Provavelmente, o cara me via, então com 60 anos, gordo, cabelo branco, primeiro filme a ser dirigido, e pensava: só vai dar meleca...”

A adaptação

“Primeiro, ninguém via os elementos cinematográficos no texto original como eu via. Então eu pensei que ou eu estava errado, ou eles. Mas quando entreguei o roteiro para todas estas pessoas que falei, todo mundo aprovou. Segundo a Camila Amado, foi o melhor roteiro cinematográfico da vida dela.”

Os amiguinhos

“Enquanto texto, não houve espaço colaborativo para os atores na filmagem. Mas no set eu não só pedia, mas exigia que eles participassem da criação de cada take. E os atores quase nunca erraram.”

As namoradas


Simone Spoladore na tela da Mostra de Ouro Preto

“A Simone (Spoladore), pediram para ela ir lá em casa. Eu cheguei em casa e falei: "Ih, caramba, que mulher linda". Para a Madame Clessi, eu inicialmente tinha pensado na Vera (Fischer), mas ela já me assustou logo com o negócio de grana. Para mim era uma fortuna. Acabei pagando a mesma coisa para a Marília (risos). Mas aí você se encontra com a Marília e faz xixi nas calças. É um desbunde. A mulher, com 62 anos de idade, faz cenas de sexo. E com aquele esplendor, com aquela atuação que é dela mesma.”

O aprendizado

“Eu sei, como produtor, que a coisa fundamental para um diretor de primeira viagem é demonstrar nos primeiros três dias que sabe o que está fazendo. Então fiz questão de chegar cedo, e falei para o câmera: começa aqui, lente 85, vamos filmar a Marília no corredor E depois para o maquinista: coloca o carrinho ali, depois vamos pra lá, etc. Pois eu estava filmando o roteiro que eu não só escrevera, mas estudara loucamente. E mais: eu acordei cinco horas da manhã e decupei tudo. Cheguei lá e tirei onda. Quando o diretor de fotografia chegou, já estava tudo pronto (risos).”

A paternidade


Esse joguinho com os dedos é um passatempo sensacional

“Com exceção d'A Falecida, meu pai gostava de todas as montagens de suas obras. Tinha o nome dele, ele achava ótimo. Mas ele achava a Falecida do Leon (Hirszman) muito triste. E a obra, segundo ele, era uma coisa mais alegre, mais ligeira.”

A família

“Tem uma fala da Marília no filme que é: "Que família... (em tom irônico). Todas as famílias do mundo são "que família...". Mas eu achava bacanérrima minha relação com meu pai. Ele era companheiro, amigo, tudo. Se eu tive uma relação boa com meu pai, paciência. Acontece, nas melhores famílias...”

A morte

"Eu quis deixar a ambigüidade do filme menos ambígua e mais secreta. Se eu consegui fazer isso, não sei, vocês que sabem. Eu não sei mais nada. Para falar agora, não sei falar nada... Estou tão cansado do filme... Já pensou em fazer um projeto que demore dez anos? Porra, é um saco (risos)"

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