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Por Trás do Seco, Tem um Mar

por Rodrigo Campanella
(Fotos: Daniel Oliveira)

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Não há como não perceber que Lírio Ferreira chegou. Alto, expansivo, fala rápida, cumprimenta e já comenta de saída “Cara, época de lançamento de filme a gente conhece tanta gente, putaquepariu”. Não é reclamação, mas constatação. Quase dez anos depois da divulgação de ‘Baile Perfumado’, em 1997, ele enfrenta de novo a maratona de entrevistas, festivais, debates. De boa vontade, diga-se de passagem. Responde com paciência as perguntas de praxe, que dezenas de jornalistas já fizeram antes, e conta histórias novas.

Boné com a bandeira de Cuba puído na aba, óculos escuros da Diesel, barba por fazer, Lírio parece encarnar de uma vez o trio-parada-dura de amigos de Jonas, em ‘Árido Movie’. A seguir, a entrevista exclusiva que o Pílula Pop fez com o diretor em sua primeira vinda a Belo Horizonte.

Pílula Pop: Como está sendo a carreira do filme?

Lírio Ferreira: O ‘Árido’ estreou ano passado numa exibição no Festival de Veneza, desde lá vem passando em festivais internacionais e nacionais. Em abril o filme começou a carreira comercial, estreou em São Paulo, no Rio, em Recife e agora em Belo Horizonte e Porto Alegre.

Pílula Pop: E ao mesmo tempo você vem gravando um documentário sobre o Cartola.

Lírio Ferreira: Teve essa infeliz coincidência de ter que fazer em paralelo os dois projetos. O Cartola começamos a fazer (Lírio e Hilton Lacerda) antes do ‘Árido’. A gente termina o filme agora, entra em mixagem em julho e no início de agosto já deve ter uma cópia pronta.


Lírio com Cuba na cabeça

Pílula Pop: Como foi a captação da verba para o ‘Árido Movie’?

Lírio Ferreira: A primeira grana foi do edital de baixo orçamento do Ministério da Cultura, em 2001. A gente ia filmar em 2002, mas não conseguiu captar todo o dinheiro. Mas usamos o período parado em prol do filme, trabalhando no roteiro. Filmamos a parte de Pernambuco em 2003 e só conseguimos a grana pra filmar em SP em novembro de 2004. Durante esse ano parado, filmamos o Cartola e fiquei montando o filme junto da Vânia Debs.

Pílula Pop: Como fica viver de cinema no país, se às vezes são gastos quatro anos para se fazer um filme?

Lírio Ferreira: É complicado, porque é preciso fazer um projeto atrás do outro. Além do ‘Árido’ e do Cartola, termino de filmar em 2006 um documentário que eu venho fazendo há três anos, chamado “O Homem que Engarrafava Nuvens”, sobre o Humberto Teixeira, parceiro do Luiz Gonzaga. Talvez eu ainda monte o filme novo do (fotógrafo do ‘Árido’) Murilo Salles, chamado ‘História Real’. As filmagens terminaram agora, é com a Leandra Leal, baseado num livro da Clara Averbuck. Mas nem reclamo muito, porque a maioria das profissões no Brasil é muito cruel. É cruel pra caramba ser professora primária aqui, por exemplo.

Pílula Pop: Você enxerga um amadorismo e uma falta de visão nos donos de cinema e nas distribuidoras?

Lírio Ferreira: Não, acho hoje até as pessoas menos condescendentes. Vou dar um exemplo. Quando a gente lançou o ‘Baile Perfumado’, conseguiu um apoio muito grande em Pernambuco, participação da sociedade civil, espaço em outdoors e na televisão. Nas primeiras semanas com o filme em cartaz, os números que a gente recebia mostravam 260, 280 pagantes em salas com 250 lugares. Tinha gente sentada na escada vendo o filme! Depois de três semanas, tiraram o ‘Baile’ de cartaz para entrar com uma merda lá, um ‘Volcano’ da vida. Porque para exibir um ‘Titanic’, você é obrigado a comprar outras vinte merdas e exibir. As distribuidoras não vendem só o filme, mas tudo que tem ali por trás. Vendiam o cigarro que o Humphrey Bogart fumava, com todo aquele glamour.

Pílula Pop: Como você vê essa mudança no Brasil, dos cinemas agora estarem nos shoppings?

Lírio Ferreira: Na década de 70, o público brasileiro era muito C e D e os cinemas eram de bairro.
Esse público não vai ao shopping porque tem vergonha ou não tem grana pra pagar o estacionamento e tudo mais. A gente acha que o cinema brasileiro vai bem quando atinge 18% ou 20% das salas, mas na verdade são três ou quatro filmes que resultam nesse número. Agora nós produzimos filmes, mas a questão da distribuição e da exibição ainda não foi resolvida. Fizeram uma conta que até maio tinham lançado 180 filmes no Brasil, o que é quase um filme e meio lançado por dia. A disputa é muito grande e vários desses filmes precisam de tempo para ganhar público, no boca-a-boca.

Pílula Pop: Entrando diretamente no ‘Árido Movie’. Não deu pena começar a história matando o (personagem do) Paulo César Peréio logo de cara?

Lírio Ferreira: É, (risos) olha só, um ator maravilhoso com quem eu sempre sonhei trabalhar mas enfim, era uma idéia. No ‘Árido’ tudo pode tender pro certo e pro errado, mas nada é de graça. Chamei o Peréio e a Renata Sorrah pra serem os pais do Jonas porque eu achava que ele era filho do ‘Matou a Família e foi pro cinema’ do Julio Bressane e do ‘Bang, Bang’ do Andrea Tonacci, que são filmes com a Renata Sorrah e o Peréio. Mas ainda consegui que ele ressuscitasse, o nome do cara não é Lázaro? Ressuscitou... (risos)


Sobre gravadores e cigarros

Pílula Pop: De onde vem o termo ‘Árido Movie’?

Lírio Ferreira: As pessoas pensam que é um movimento, mas na verdade é uma mística criada pelo cineasta Amin Stepple, com quem eu dirigi um curta chamado That´s a Lero-Lero, sobre a passagem do Orson Welles em Recife. Foi criado como um contraponto ao manguebeat. Recife vivia um momento de muita efervescência na música, nas artes plásticas, no movimento de curtas-metragens. E a gente se sentava no bar, com uma idéia na cabeça e um uísque na mão para discutir cinema e essa possibilidade de fazer filmes. Eu, Cláudio (Assis, de Amarelo Manga), Marcelo (Gomes, de Cinema, Aspirinas e Urubus), Paulo (Caldas, O Rap do Pequeno Príncipe Contra as Almas Sebosas), Feijão (Paulo Jacinto, fotógrafo do ‘Baile’). O título do filme é uma homenagem a esse tempo.

Pílula Pop: Quais são as outras influências por trás dele?

Lírio Ferreira: Tem o Easy Rider, o Dragão da Maldade, do Glauber, os filmes do Sérgio Leone e até do John Ford. E também um filme brasileiro muito pouco visto, de Pernambuco, chamado A Noite do Espantalho, do Sérgio Ricardo. Carlos Reichenbach falou que se o (cineasta) Rogério Sganzerla estivesse vivo, ia falar assim do ‘Árido’: “Temos o primeiro faroeste do terceiro mundo desse milênio”. (risos)

Pílula Pop: Parece que houve uma camaradagem dentro do set de filmagem que aparece também na tela.

Lírio Ferreira: Tinha esse espírito mesmo. Nunca houve escola de cinema em Pernambuco, sempre teve espírito de brodagem pra vencer as dificuldades e a pouca grana. A gente trabalha com amigos desde os curtas e, se é difícil você cobrar, essas pessoas dão uma segurança tremenda porque entram mesmo no projeto, não acham que é um trabalho qualquer. Com os atores aconteceu o mesmo. O filme tem uma mais-valia na tela maior que a grana que foi gasta. As pessoas se apaixonaram pelo roteiro e houve uma coisa de agregação, de carinho mesmo.

Pílula Pop: De onde vem a sensação de estranheza, tão forte no filme?

Lírio Ferreira: Desde criança, anos 70, viajo pelo sertão de Pernambuco, com meu pai. Até hoje quando eu cruzo o sertão me sinto meio estranho com a geografia, o clima, o tratamento das pessoas. Sempre sentia que penetrava num lugar que não me pertencia. O filme tem isso, quis impregnar nele essa coisa do olhar estranho. Temos um personagem que nasceu em Pernambuco mas que tem 1,92 de altura, é loiro, olhos claros. Ele nasceu e tem memórias afetivas ali, mas se desgarra. Quando volta, se sente um estranho na própria terra.

Tudo isso é calcado na própria realidade que a gente vivia em Recife. O Guilherme é um ator paranaense, mas o Otto, que fez a trilha do filme, nasceu na cidade vizinha das filmagens e é loiro, grande, aquele tipo europeu.


Lírio-rapper dá a rima do 'Árido'

Pílula Pop: O filme chega a ser até um pouco ‘bipolar’ no modo como você ri e logo vai pro fundo do poço.

Lírio Ferreira: É legal ter o frescor do filme de estrada com aquela cacetada no fim.O ‘Árido’ é para deixar dúvidas, não é um filme de respostas, que se fecha. Gosto da sensação de mal-estar no final, sair do cinema pensando no filme.

Pílula Pop: Como foi sua relação com o Guilherme Weber?

Lírio Ferreira: O Guilherme faz uma atuação muito generosa, que foi uma coisa pedida por mim. Os personagens que povoam o caminho do Jonas são muito intensos e eu queria que Guilherme fizesse um personagem totalmente pálido, imparcial, um repórter envolvido com tudo aquilo ali. Ele foi muito generoso e seguiu o que eu queria. As pessoas solam ao lado dele todo o tempo, e ele fica como o condutor da história. É uma maneira diferente de compor.

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