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Otto Guerra: álcool, Deus e Bob Esponja

por Daniel Oliveira

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Animação. Essa é a melhor palavra para definir Otto Guerra. Em 1977, quando pensar em fazer desenho animado no Brasil era ainda mais sonho que hoje, o gaúcho, com apenas 20 anos, decidiu ser animador. Começou com histórias em quadrinho e passou à animação publicitária, “que dava algum dinheiro para comprar equipamento e proteína para o corpo”.

Mas foi a difícil transição para a ficção que ele completou em 1984, com “O natal do burrinho”. Desde então, foram 10 filmes – sendo dois longas: “Rocky e Hudson”, de 1994, e “Wood & Stock: sexo, orégano e rock’n’roll”, que deve chegar aos cinemas brasileiros no segundo semestre de 2006.

O Pílula conferiu a passagem de “Wood & Stock” pela Mostra de Cinema de Ouro Preto – onde foi assistido por mais de 800 pessoas (em uma sala onde cabiam 400). E aproveitando, o divertido (e, segundo ele, um pouco bêbado) Otto nos concedeu essa entrevista, via email. No melhor estilo Caras, o animador fala de sua paixão por Bob Esponja, conta planos de casamento, seus problemas com sexo e como iniciou sua carreira de dublador, ao encontrar um papel à sua altura.


Otto usa óculos de cineasta. Talvez porque ele seja um.

Pílula Pop: Como foi a produção do roteiro de “Wood & Stock”? E como o script foi parar em Sundance e o que aconteceu por lá?

Otto Guerra: Eu escrevi uma versão do roteiro em 1997 para um concurso e fui reprovado. O Rodrigo John escreveu a primeira versão dele em 1998. Daí foi reescrito mais duas vezes e esse terceiro tratamento ganhou o primeiro edital de baixo orçamento do MinC [Ministério da Cultura]. Começamos a produção em abril de 2001, mas no mês seguinte fomos selecionados para aquelas oficinas de roteiro do Sundance e ficamos felizes da vida. Só que os oficineiros destruíram nossa versão. Paramos e reescrevemos mais umas três vezes. Após o recomeço, ficamos brigando, Marta [Machado, produtora], Rodrigo e eu, durante os quatro anos seguintes. Enlouquecemos os animadores com mudanças de última hora. Editamos e reeditamos milhares de vezes. Foi divertido. Nada melhor que conflitos para aprendermos, não é? Senti como se tivéssemos que reinventar a roda.

Pílula Pop: O Angeli é influenciado por quadrinistas subversivos, como o Robert Crumb [o Anti-herói americano]. E o filme, que tipo de animação e quais filmes específicos influenciaram o trabalho em "Wood & Stock"?

Otto Guerra: Talvez o Fritz the Cat, no sentido inverso. O Crumb não gostou nem um pouco do filme. Como sou fã do Angeli, a idéia era transpor, com a máxima fidelidade, os personagens dos quadrinhos para a tela. Não consigo achar uma referência para o Wood & Stock. Talvez Cheech and Chong.

Pílula Pop: Como foi selecionar a trilha para um filme em que o rock'n'roll é um ingrediente essencial? Deu muito trabalho?

Otto Guerra: A trilha fez parte daquela guerra acima. Freqüento o submundo do rock portoalegrense desde 1986. Via, escondido de minha namorada, que é super cabeça, shows dos Cascavelletes nos porões gaudérios. O Rodrigo é um profundo conhecedor de música em geral e a Marta trabalhou em uma rádio de rock por mais de dois anos. Tivemos uma escola no mundo real.


Otto dubla em seu microfone à la Bob Esponja

Pílula Pop: Quando você teve a idéia de chamar a Rita Lee para dublar a Rê Bordosa? E o Tom Zé? E como foi dublar o terapeuta da Rê Bordosa/Rita Lee no filme?

Otto Guerra: Acho que a idéia foi do Rodrigo e da Marta, ou de ambos, não lembro. A Rita Lee sempre diz que o Angeli plagiou sua vida quando criou a personagem. E o Tom Zé é baiano como o Raul Seixas.

Em 1999, eu aceitei fazer uma dublagem pela primeira vez. Era o papel de Deus no filme "Deus é Pai" do Allan [Sieber]. Achei que era um papel à minha altura e aceitei. A partir de então, tenho dublado diversos filmes e gosto bastante.

Pílula Pop: Para você, como foi o trabalho de direção das dublagens? Você acha que é mais difícil para os atores dublarem um personagem do que interpretá-lo em carne e osso?

Otto Guerra: O ator Felipe Mônaco foi quase um diretor de dublagens. Mas tivemos que regravar todas as vozes por conta de um problema técnico na primeira gravação. Editamos em cima da primeira gravação e foi difícil substituí-las depois. E eu acho que trabalhar só no microfone é um pouco mais fácil que atuar com uma câmera e tal.

Pílula Pop: A (longa) produção do "Wood & Stock" rendeu problemas para você, junto ao MinC, já que foi o último longa do edital para filmes de baixo orçamento de 2000 a ficar pronto. A gente sabe que um longa da Pixar, por exemplo, também demora anos para ficar pronto. Você acha que os mecanismos do cinema nacional ainda não suportam a estrutura necessária para um longa-metragem de animação no país?

Otto Guerra: A demora se deu muito em função da captação do restante dos recursos para a produção. O Tribunal de Contas não pôde nos processar, pois o que assinamos com o MinC era muito mais um convênio do que um contrato de produção. Tivemos de aporte do prêmio R$370 mil e tivemos que correr atrás do resto (R$630 mil). A palavra "sexo" no subtítulo dificultou bastante a tarefa. Estamos cheios de concursos e editais em todas as esferas, mas não acho saudável que só dinheiro público sustente a produção. Estamos na pré-história da animação brasileira. Eu sou um Neanderthal dela. Temos um imenso e fértil campo para ser explorado. A demanda é imensa.

Pílula Pop: Indiretamente, o Brasil teve um grande sucesso na animação nesse ano, que foi "A era do gelo 2", dirigido pelo Carlos Saldanha - um dos maiores públicos de 2006 no cinema até agora. Você acha que isso representa um incentivo para a animação nacional? Ou é um mau sinal de que bons animadores brasileiros têm ido trabalhar fora, principalmente nos EUA?

Otto Guerra: Acho que tem lugar para todo mundo. Muitos animadores saem, outros ficam. Além do Saldanha tem outros brasileiros fodões fora. O Enio Torresan que trabalha no Bob Esponja, o Fábio Lignini, animador master dos estúdios grandões e por aí vai.


Otto viaja depois de um pouco de orégano

Pílula Pop: E as suas relações com outros animadores brasileiros, como é? Com o Allan Sieber, por exemplo, você produziu o "Deus é Pai", né? Vocês dois têm alguma previsão de trabalho para o futuro?

Otto Guerra: Morei por um ano no Rio com o Allan e sua Toscographics. Sempre trabalhei de forma não autoral. Gosto muito do trabalho do Allan e me identifico com suas criações e o tipo corrosivo de humor. Não temos planos...talvez casar e ter filhos juntos!

Pílula Pop: E como você se enxerga dentro da cena audiovisual aí de Porto Alegre? Li que você teve uma rusga com o pessoal da Casa de Cinema e acompanhei uma troca de farpas (divertida, devo admitir) entre você e o Jorge Furtado...

Otto Guerra: Sou independente, não pertenço a nenhuma facção, hehehe. Na época da discussão, - 97, 98 - me fudi muito. Mas sigo achando lastimável nossa produção de longas - não só os da Casa de Cinema, mas todos aqui do estado recentemente. Depois de muitos curtas geniais na década de 80, vem essa safra de filmes chochos, burocráticos. Não dá para entender o que aconteceu.


Otto, a produtora Marta Machado e Cristiano Scherer, editor de dublagens

Pílula Pop: E com a correria dos últimos cinco anos, você tem tido tempo de ir ao cinema? O que você gosta de assistir em animação - quais seus estilos e desenhos favoritos?

Otto Guerra: Para mim, Bob Esponja é o melhor atualmente. O longa dele está a altura da série. Aprecio muito Os Simpsons e continuo gostando dos álbuns que fizeram parte da minha formação - a série de HQ Tintin, do Hergé. Minha vida mudou em 1970, quando estava na praia de Torres e me deparei com uma revista que tinha na capa um desenho do Tintin, aos 13 anos.

Pílula Pop: Por fim, fale do seu próximo projeto de longa. Do que se trata "Fuga em Ré Menor para Kraunus e Pletskaya"?

Otto Guerra: O prêmio RGE viabilizou 50 % do orçamento total do filme, o que é um bom começo, pelo menos comercialmente. Estamos no quarto tratamento do roteiro. Tivemos uma experiência grandona com o Wood e Stock e desta vez será menos dolorido, acho.

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