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Fim de tarde no QG do Falcatrua

por Braulio Lorentz (texto e fotos)

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Falcatrua faz pose, veste terno e mostra a mão (foto: divulgação)

Ao chegar no quartel general da banda Falcatrua, a primeira coisa que se escuta depois do “Boa Tarde” é um “Não repara, não”. A casa onde a banda ensaia, grava, vê televisão e come pão de queijo com Coca-cola fica no bairro Grajaú, em Belo Horizonte, perto de uma padaria com um ponto de ônibus em frente. O ambiente (da casa, não da padaria) é decorado por quadros de autoria do músico Arnaldo Baptista.

A primeira conversa entre o Pílula Pop e o quarteto mineiro não é sobre o recém-lançado primeiro DVD da banda ou sobre as gravações do segundo disco. Naturalmente, tentei explicar o porquê de meu atraso: “Nossa, não sei o que houve mas parei no ponto de ônibus errado”, e continuei falando sobre minhas andanças pela vizinhança, “acho até que fiz um passeio pelo bairro todo”. O vocalista André Miglio conta um caso parecido, que acontecera naquele mesmo dia: “Ontem nós dormimos tarde e a gente tinha marcado de vir aqui para ensaiar. Acabou que eu dormi no ônibus e o trocador teve que me cutucar. Desci no ponto final e também andei pelo bairro”. O papo acabou em risadas.


A banda no estúdio caseiro com quadro de Arnaldo ao fundo

Antes de falar sobre o DVD, olho para cima, e reparo nos tais quadros feitos por Arnaldo. Pergunto o que pensam a respeito da volta do Mutantes. André coça a sobrancelha e responde: “Era tudo que estavam todos esperando: ter a oportunidade de ver a turma junta, enquanto ainda está todo mundo aí”. Mesmo com Zélia Duncan no lugar de Rita Lee? Dando a impressão de que havia levantado a bola para ele chutar, André vai lá e... chuta: “Eu acho que isso não importa muito não. O próprio nome da banda já ajuda muito nisso. Pode ser que foi essa coisa... Mutante”.

Não satisfeito, levanto a bola de novo: Não teria um pouco de oportunismo? André balança a cabeça negativamente e arremata: “Cara, a vida é uma oportunidade que você tem de chegar e sair gritando. Acho que tem uma série de conflitos, uns momentos que é melhor cada um ficar no seu canto mesmo pras coisas não travarem”. “Eu particularmente estava querendo ver o Arnaldo lá em cima, então... Isso já vale o ingresso”, finaliza o baixista Danilo Magalhães.


Falcatrua é uma banda de garagem

As telas de Arnaldo espalhadas pelas paredes da casa continuam tomando conta da conversa: “Quando a gente estava lançando o primeiro disco pensamos se de repente a gente poderia ter um desenho do Arnaldo na capa. A gente ligou pra Lucinha [Barbosa, esposa de Arnaldo] e esse contato acabou se transformando em amizade”, conta Danilo. A amizade rendeu uma viagem para conhecer o cara. “A Lucinha chamou a gente pra ir até a casa deles. Juntamos nós quatro no carro e fomos baixar lá em Juiz de Fora para visitar Arnaldo Baptista. Foi uma tarde superdescontraída. Ele é uma figura muito dada e tem uma inocência cativante”, descreve André. E ele continua falando sobre o autor dos quadros que decoram a casa do Falcatrua: “A última vez que encontrei o Arnaldo foi na casa do Danilo. O Arnaldo pegou um trompete que estava num canto e mandou um som. Sem aquecer, sem nada. O cara é foda”.

Depois de falar de erros na descida do ônibus e erros ou acertos da volta do Mutantes, o rumo da prosa vai na direção esperada. Começamos pelas apresentações do Falcatrua no Conexão Telemig Celular. “Fizemos shows com artistas mais conhecidos e assim a gente pôde mostrar a nossa estética e proposta de linguagem para um público maior”, resume André. Então, o vocalista faz uma rápida conexão entre o projeto que leva o nome da empresa de telefonia móvel e o mais novo rebento do grupo: “A gente usou o dinheiro da premiação do Conexão Telemig Celular para captar imagens e som em dois shows para fazermos o DVD – Falcatrua e o Pau de Arara Espacial”.


De dentro do carro, eles são assim

Mesmo patrocinados, é preciso uma mãozinha daqui: “a gente teve a facilidade de ter um cara com uma produtora de vídeo na banda, o nosso guitarrista”. E uma ajudinha dali: “Um DVD é uma superprodução artesanal, que foi o nosso caso. É legal que todo mundo se envolve, todo mundo pega emprestado, chama amigo”.

“Sossego”, de Tim Maia, “Fliperama”, de Tom Zé, “Velha Roupa Colorida”, de Belchior, e “New York, New York”, conhecida na voz de Frank Sinatra, são as quatro versões contidas no DVD. “Todo mundo acha que Fliperama é nossa. Até a gente de vez em quando chega a achar”, conta André, antes de gargalhar. “Musicão de um discaço, The Hips of Tradition, disco gravado pelo David Byrne que tirou Tom Zé do ostracismo. Tem uma linguagem bem pop, mais pop do que a nossa”, emenda, antes de gargalhar outra vez.

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