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Cacá e seus amores

por Lívia Bergo

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Sessenta e seis anos de idade – 45 deles dedicados ao cinema –, 16 filmes e várias participações em festivais internacionais. Após esse sintético, mas não breve, currículo, o diretor Cacá Diegues lança sua mais nova produção, “O Maior Amor do Mundo” (recém-premiado no Festival de Montreal), e fala sobre o filme, amores e a vida. Mas nunca sobre o futuro...


Cacá Diegues faz a linha de frente de seu filme

Pílula Pop: Por que o nome “O Maior Amor do Mundo”?

Cacá Diegues: Ele apareceu quando eu estava escrevendo o roteiro e não sabia qual era o maior amor do mundo. Quando terminei, pensei: “vai continuar chamando-se assim e que cada espectador escolha o seu maior amor”. Esse filme é uma espécie de catálogo de sentimentos. Durante uma leitura do roteiro, por exemplo, Sérgio Malheiros [que, no filme, interpreta o Mosca] disse: “mas, afinal de contas, qual é o maior amor do mundo?”. A minha filha mais nova, que estava ao lado, disse: “é o amor à vida”. E eu achei sensacional.
No site do filme, tem essa pergunta: “qual é o maior amor do mundo para você?” Ganhou disparado o “amor pela mãe”, com 38% dos votos. Em segundo lugar: “eu mesmo” (risos). E em terceiro, “os filhos”.

Pílula Pop: Este é o seu filme mais inflexivo desde “Um Trem Para as Estrelas”?

Cacá Diegues: É o que eu costumo chamar de otimismo trágico. Ele fala de uma coisa que vai acontecer a todos nós: a morte. A vida não é uma obra completa e você tem que aproveitar seus instantes. Então, a má notícia é que a gente vai morrer mesmo e a boa é que você pode ser feliz antes que isso aconteça.

Pílula Pop: Você fez o roteiro muito rápido, né?

Cacá Diegues: Foi. Não sou muito de escrever roteiro sozinho, gosto de confrontar minhas idéias com as dos outros. Esse é apenas o terceiro ou quarto filme que escrevo totalmente sozinho, mas não foi porque eu quis, foi uma necessidade: comecei a construir os personagens na minha cabeça. Tanto que eu costumo brincar que escrevi o personagem e ele escreveu o roteiro. Então, escrevia sem nem saber o que ia acontecer. E como não sabia, eu não poderia explicar aquela história para uma terceira pessoa.

Pílula Pop: A história do filme é inspirada em alguém específico?

Cacá Diegues: Bem...eu tinha dez anos quando vi meu pai chorar pela primeira vez, com a perda da Copa do Mundo de 1950. Também a ditadura foi um evento histórico importante que minha geração viveu com muita intensidade. Mas não é a biografia de ninguém. São experiências “geracionais”, mas que não necessariamente aconteceram comigo ou com alguém que eu conheça.


Cacá troca de lugar e vai para a frente das câmeras

Pílula Pop: Em que medida este é um “road movie” (filme de estrada)?

Cacá Diegues: Eu adoro essa estrutura. Quando o filme se passa em uma estrada, o que está à margem dela é tão importante quanto o que está acontecendo no leito. O importante não é para onde você vai, mas por onde você vai. Isso te dá uma liberdade de criar personagens que ajudem a entender o protagonista.

Fiz filmes de estrada óbvios, como “Bye Bye Brasil” e “Deus é Brasileiro”. Mas “O Maior Amor do Mundo” também é um, em todos os sentidos. Primeiro porque atravessa o Rio de Janeiro: vai desde as praias turísticas até os confins mais miseráveis da Baixada Fluminense. Ao mesmo tempo, é uma travessia social, do personagem que está vendo coisas até então invisíveis pra ele. E a terceira estrada é através do coração de uma pessoa, visitando sentimentos que ela evitou durante anos.

Pílula Pop: O momento atual te influencia na concepção de seus filmes?

Cacá Diegues: Essa é uma boa pergunta que eu não sei responder direito. Outro dia teve um jornalista que me perguntou qual é o futuro do cinema. Eu não sei e nem quero saber. O meu programa é o presente da humanidade. Não quero fazer filmes nostálgicos, nem mensagens para o futuro. Quero fazer um filme presente, pro outro de hoje. Estou sempre escancarado às coisas que acontecem a minha volta e evidentemente isso deve ter uma importância incrível em cada filme meu. Mas não planejo, acontece naturalmente.

Pílula Pop: Seus dois últimos filmes abordam a questão existencial. Isso é uma preocupação sua hoje?

Cacá Diegues: Essa espécie de balanço é inevitável. Com o tempo, o mundo começa a despertar em você algumas idéias. E o estado do mundo não é o que você esperava. Quando eu era jovem, a história era como um trem no trilho caminhando inexoravelmente para uma direção. O nosso papel era apenas fazer com que ele andasse mais rápido. Hoje sei que a história é uma senhora bêbada tropeçando por aí, ziguezagueando pelas ruas, e que nem tudo que a gente sonhou aconteceu.

Por outro lado, essa certa decepção com o mundo nos leva a transferir a discussão política para um espaço muito mais íntimo. Por exemplo, “A Criança”, dos irmãos Dardenne, é um filme político radicalíssimo, muito diferente do que se pensava ser o cinema político nos anos 60, 70 e 80. O espaço da discussão política deixou de ser o tradicional e foi pra um mundo muito mais humano, pessoal.

Pílula Pop: Você disse não gostar de rever seus filmes. Você é muito auto-crítico?

Cacá Diegues: Sim. Mas a auto-crítica só é boa quando há auto-estima também. Porque se não há, vira auto-flagelação. Há várias maneiras de se fazer um filme e se deve escolher uma delas. Então é muito difícil você pensar no que já fez, porque sempre poderia ter sido feito de outro modo.


Cacá na clássica foto de coletiva. O P/B é para deixar mais clássica ainda.

Pílula Pop: E durante as filmagens, você costuma seguir os roteiros na íntegra?

Cacá Diegues: Tem uma frase do Fellini que eu adoro. Ao ser perguntado se improvisava muito quando filmava, ele respondeu: “o tempo todo, mas antes eu ensaio bastante.” Eu acredito nisso. Você forma um conceito, mas o que vai acontecer no filme não se controla. Muitas vezes, surgem elementos inconscientes, que o espectador descobre até antes de você. Portanto, só considero um filme meu acabado, quando ele é visto pelos outros.

Pílula Pop: Você já disse que faz filmes para ser amado. Isso reflete um pouco essa expectativa por um retorno?

Cacá Diegues: É. A gente pode até esconder isso por educação, mas no fundo todos queremos ser amados. Mas quando filmo, não penso no público, se vamos atrair 1 milhão de espectadores ou não. Porque o público não tem rosto e não sei mandar recado para uma pessoa sem um. Mas eu faço o filme pro outro e quero que ele seja útil, mesmo que para uma única pessoa.

Também acho muito perigosa essa coisificação que está se fazendo do cinema brasileiro hoje. Se o filme teve 50 mil espectadores, é um fracasso. Se teve 1 milhão, é um sucesso. Nenhum artista pode ser condenado a ter 1 milhão de espectadores sempre. Em primeiro lugar, você tem que ser sincero e fazer o filme que seu coração está te mandando. Depois tem que buscar qualidade.

Pílula Pop: É mais prazeroso ter um filme amado pelo público ou pela crítica?

Cacá Diegues: A pior coisa do mundo é você acordar de manhã, abrir o jornal e ver um cara te esculhambando. Eu não desejo isso para ninguém. Mas é um direito que os outros têm. E não existe prática cinematográfica sem pensamento cinematográfico. Muitos críticos já me ajudaram a compreender o que eu faço. Então, considero a crítica indispensável, mas não a acho detentora da verdade absoluta.

Já ao público, você não pode reagir. Por exemplo, o meu filme “Joanna Francesa”, de 1972, que eu adoro e considero fundamental na minha vida, foi até sucesso de crítica, mas de público não foi nada bem. E eu fiquei revoltado. Mas não pude fazer nada. Não posso mudar de público.

Dizem que para certos políticos é mais fácil mudar de povo do que de política. É a mesma coisa: há cineastas que talvez gostassem de mudar de público, mas não tem jeito.

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