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Eu tenho uma camiseta escrita punk brega
(Mas eu não sou punk brega)

por Suellen Dias e Lígia Souza
(texto e fotos)

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Wander Wildner passou por Belo Horizonte para lançar Dez Anos Bebendo Vinho, coletânea que traz 14 músicas de sua carreira solo. Para quem não sabe, o cara é ex-integrante do Replicantes, banda ícone do punk verde-amarelo, que continua fazendo músicas e shows há mais de 20 anos.

O autor de “Eu não consigo ser alegre o tempo inteiro” conversou com o Pílula enquanto conhecia um dos pontos turísticos mais tradicionais de BH: o Mercado Central. Depois de várias voltas no labirinto de lojas, bares e mini-zoológicos do Mercado, finalmente encontramos Wildner.

Mesmo sem conseguir ser alegre o tempo inteiro, o roqueiro gaúcho nos recebeu com bom humor, apesar do nosso pequeno atraso. A gente logo reparou que, talvez cansado por estar há dez anos bebendo vinho, naquele dia ele estava com uma lata de cerveja na mão. E em vez de uma camiseta escrita eu te amo, ele tinha uma camiseta escrita punk brega. Punk brega? Foi a partir daí que o papo começou de verdade:

“Punk brega surgiu quando eu fiz o meu primeiro disco e eu fiz o release pra imprensa. Aí no release eu disse que o disco era punk brega, porque reunia duas influências que eu tive. A música brega da jovem guarda, que eu ouvi quando eu era criança e adolescente, e depois o punk rock, que eu ouvi quando eu era dos Replicantes. E as minhas músicas, naquele disco, juntavam as duas características. Aí eu disse que o disco era punk brega.”


Pose de “Não, eu não sou punk brega. Humphf!”

Ele explica que a expressão se referia mais especialmente a Baladas Sangrentas, seu primeiro trabalho, mas acabou virando também seu endereço de e-mail, que ainda é o mesmo. Hoje, ele rejeita a definição. Se ainda veste a camisa punk brega, é só ao pé da letra:

“Eu não sou um punk-brega, de jeito nenhum. Eu sou o Wanderley Luiz Wildner, na verdade. Eu faço um monte de coisas no meu dia-a-dia. Eu não sou um punk de jeito nenhum. Por isso que é ruim dizer que a pessoa é uma coisa, porque a pessoa se limita. Ninguém é uma coisa só. A pessoa pode querer ser uma coisa só, mas é muito pobre isso. A vida não é fazer um tipo de coisa, a vida não é gostar de um tipo de música. Eu gosto... Eu ouço todos os tipos de música. Eu adoro reggae, música clássica, música popular brasileira, samba. Tudo que é música eu gosto. Eu gosto de música boa, então por isso que não tem essa história de punk”.

Pelo que parece, o preconceito musical realmente não tem vez com Wander Wildner. O cantor fez até uma parceria com Sidney Magal e Hyldon, no projeto “Romântico ou Cafona”. A iniciativa reuniu no palco do Sesc Ipiranga, em São Paulo, artistas como Wanderléa, Nando Reis, Rosana e Wando. A idéia do projeto era questionar os limites entre a música dita de “bom gosto” e a música brega.


O enquadramento é de vanguarda, mas a camiseta é punk brega

Aproveitando por termos caído no assunto romantismo, tentamos puxar a conversa para o lado das melosas e cômicas canções de Wander. Mas o compositor de pérolas como “Uste” lava as mãos e diz que nem pensa no que vai compor. Sobre a possibilidade de cantar “iê-iê-iê’s” para superar dores-de-cotovelo e ser um loser feliz, ele protesta:

“Loser é perdedor, o perdedor nunca é feliz! O que acontece é que na minha geração o Roberto Carlos difundia um tipo de romantismo que é cantado até hoje por aquelas duplas sertanejas que morrem de amor. Mas acontece que essas pessoas são... idiotas. Presas a uma só coisa. Por exemplo, eu nunca sei que música eu vou compor. Eu não sento e digo: ‘ah, eu vou fazer uma música sobre eu tenho uma camiseta escrita eu te amo’. A música saiu, não sei como. Tinha uma caneta e um papel e ela saiu. Eu não pensei nela. É psicografado, é Chico Xavier total”.

Se na hora de compor, ele conta com colaborações especiais não-identificadas, na hora de gravar seus discos o gaúcho prefere escolher a dedo com quem está trabalhando. No momento, ele tem uma parceria com a Unimar Music para a prensagem e venda de seus discos. Wander diz que as experiências com as gravadoras Trama e Sony não foram satisfatórias e que, depois delas, preferiu lidar com gente “do seu tamanho”. Após criticar a postura de conivência entre rádios, governo e gravadoras, ele fala até de revolução pessoal e aponta solução para tantos problemas:

“Cada um vai ter que fazer uma revolução na sua vida. Não vai vir um presidente que vai salvar, não vai ser uma guerrilha que vai mudar. Não é isso. É acordar e mudar sua vida. Todo dia de manhã quando acorda dizer: ‘quer saber, eu não gosto daquele trabalho, eu não vou trabalhar hoje. Mas eu vou fazer alguma coisa’. Então, a grande solução é fazer coisas junto com os amigos, que é o que a gente faz. O circuito alternativo do rock é isso na verdade”.

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