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Skank manda tudo à porra nenhuma

por Braulio Lorentz

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“O Skank não representa porra nenhuma”, disse o vocalista Samuel Rosa, em entrevista à TV Terra. Com apelo semelhante, “Skank manda tudo à merda” é a frase de capa que apresenta a entrevista da banda mineira à revista Bizz. Depois de 15 anos, nove discos e pelo menos duas dezenas de sucessos, o grupo resolveu mudar de postura. Em outras palavras, os quatro pacatos cidadãos decidiram partir pro jogo.

Na entrevista coletiva do show de lançamento do disco Carrossel, realizada em Belo Horizonte, pude constatar ao vivo o novo discurso da banda. “Deixaram o Skank jogado no cantinho. Chegou a hora da gente se posicionar, ninguém vai fazer isso por nós”, explica Samuel. Esse foi o momento em que o cara ficou mais inquieto – não que ele tenha levantado da cadeira (como o fez no Terra) ou erguido a voz (no caso da Bizz).


Caras fechadas, jogo de sombras, fundo vermelho: os outros são a esquerda?

A posição do Skank é clara: a linha de frente do pop rock. A bronca de Samuel, no entanto, tem a ver com “a direita e a esquerda do rock nacional”. “O Skank foi colocado mais à direita”, reclama Samuel. “Mas quem é a esquerda?”, eu perguntei. Ele não respondeu.

A moral das entrevistas é a seguinte: deixaram o quarteto no canto (direito, esquerdo, seja qual for) e grudaram o rótulo de pop na testa dele. Mas a etiqueta se tratava de uma na qual se lia “pop por comodismo”, segundo definição do vocalista. Algo do tipo “pop concessivo, de banda que beberia Fanta numa boa se alguém oferecesse”, de acordo com definição minha.

O Skank é hoje, de certa forma, o que Capital Inicial, Kid Abelha e Paralamas do Sucesso foram ontem. O raciocínio mais uma vez não é meu, é do entrevistado: “Não tem como competir com Pitty, Detonautas, CPM 22. É um caso de conexão de época. Eles falam muito mais diretamente para a molecada do que Skank, Cidade Negra ou Pato Fu. Mas isso não quer dizer que a gente tenha sido empurrado pra debaixo do tapete. No começo, a gente tocava com as bandas dos anos 80, e sempre levava uma certa vantagem”.


Cena do clipe “Uma canção é pra isso”

Outros tempos

Se eu achar que o cachorro do meu vizinho late bem, posso gravar um CD com os latidos dele, no meu quarto mesmo. São outros tempos, colega. “Dizer que é um período de transição na indústria fonográfica é chover no molhado. O circuito alternativo está tomando um corpo que nunca teve. O Henrique quase não teve tempo pra gravar o disco, de tanta banda nova que ele ficava ouvindo”, diz Samuel, fazendo referência ao programa Frente, apresentado e produzido pelo tecladista do Skank, na rádio Oi FM.

Com exceção de programas como esses, bandas novas pouco reavivam as programações radiofônicas e os lançamentos de majors como nos anos 80 e 90. “Existia um investimento e comprometimento maior. Hoje parece um pau de sebo”, compara. Samuel amarra as pontas com uma frase de efeito: “As bandas que morreram, por favor, tirem o defunto da porta, que a galera quer passar”.

O Skank foi um dos primeiros grupos independentes a gravar um CD, nos idos de 92. “E agora faz o mesmo, lançando o disco [Carrossel] pelo celular. A expectativa é vender 50 mil”, conta Samuel. A gravadora do Skank, SonyBMG, fechou parceria com a TIM e vende o nono disco da banda em aparelhos celulares. Para os mais afobados, isso soa como uma concessão do mesmo quilate do clipe-propaganda para uma famosa marca de chinelos.

“Existe uma incongruência entre o que se faz e o que se fala. Muita gente se diz alternativo, mas faz tantas concessões quanto o Skank. Alternativo é fazer som há 20 anos e não ser chamado pro VMB [Vídeo Music Brasil, da MTV] nem pra tomar um guaraná”, resume, terminando a frase com uma risadinha.


Cena do clipe “Vou deixar”

Deixa Duvidar

Samuel continua com o papo dos alternativos de araque: “Tem gente que aparece na Caras e em outdoor, e é apontado como alternativo”. Ele também faz questão de explicar o papo de que o Skank não representa porra nenhuma: “O rock brasileiro hoje é um rock de legenda. Há uma necessidade dos grupos de dizer que representam este ou aquele gênero, que pertencem a esta ou àquela tendência. Outro dia vi um show em que o cara, a cada intervalo, sistematicamente dizia que era do hardcore”.

No meio de bandas-panfleto que cantam que representam isso e aquilo, Samuel acha que isso representa hesitação: “Parece que os grupos fazem isso para não deixar margem de dúvidas quanto ao que eles estão fazendo. Mas qual o problema? A dúvida pode ser boa. Não sinto a necessidade de bandeira. Se existe necessidade de confirmação, existe insegurança. Tem mais é que deixar duvidar”.

Já que Samuel não deu nome aos bois, ou melhor, aos esquerdistas, ou melhor de novo, aos alternativos de araque, apontemos: hip hop = D2 (show na Daslu, propaganda da TIM, páginas de Caras), hardcore = CPM 22 (garotos-propaganda da Gillete), atitude + skate na veia = Charlie Brown (garrafinhas da Coca-cola).

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