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Mel para perguntas ácidas

por Igor Costoli e Rodrigo Campanella
Fotos: Campanella

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Nascida em Porto Alegre, a jovem Mel Lisboa Alves nem é mais tão menina assim. Aos 25 anos e casada, a atriz entra em cartaz na próxima semana com "Sonhos e Desejos". Pela primeira vez protagonista de um longa-metragem, Mel esteve em Belo Horizonte para uma coletiva de imprensa. Cabelo curtinho, cachecol no pescoço, parou pra conversar com o Pílula. Quando começamos a apertar nas perguntas, mostrou que não é só mais um rostinho bonito. Mas calma gente, também falamos de amenidades.


"Alguém traz um babador presse menino..."

Pílula Pop: Você já fez pontas em filmes, como o Casamento de Romeu e Julieta, mas é a sua primeira vez como protagonista. Como foi esse début no cinema?

Mel Lisboa: Foi um grande desafio, porque apesar de estudar cinema na faculdade, era uma coisa voltada pra teoria e direção. Fiz a televisão, que foi o que me lançou, mas cinema era uma coisa nova pra mim. O filme tem basicamente três personagens e eu tô em praticamente todas as cenas. Eu tava sempre lá, de 8h às 20h todos os dias, com uma folga na semana. Então aprendi muito sobre como é cinema.

Pílula Pop: No filme, reparamos uma coisa que pareceu mistura de linguagens. Como se em alguns momentos o filme tivesse a cara de teatro-filmado. Você acha que isso aconteceu?

Mel Lisboa: Sinceramente? Achei não. Cinema, mesmo que não se veja é tudo muito marcado. Se você sair do “T” de fita-crepe que tá no chão você sai do foco.

Pílula Pop: Mas por exemplo, gesticulação. Não imaginava que você gesticulava tanto. Seu braço não se move no filme. Nossa dúvida é por aí: será que uma marcação muito dura, do diretor ter trabalhado pouco com o corte, será que não vem daí essa impressão de teatro? Houve também alguma orientação com relação à fala? Porque em muitos momentos ela parece recitada.

Mel Lisboa: É uma leitura, com a qual eu não concordo. Cada um tem a sua leitura, eu considero a de vocês, mas não tinha pensado nisso. A coisa do gesto: foi algo que tive que trabalhar porque eu sou de gesticular o tempo inteiro. E nessa personagem não cabia. Ela é muito introspectiva, não se exalta em momento algum. E as falas é que são assim, porque o filme é poético. Algumas vezes eu me perguntava como o Felipe (Camargo) e o Sérgio (Marone) fariam. A minha personagem é a que menos faz isso, apesar deles discutirem todas as relações com metáforas.


"Não foca porque a mão não pára, capicce?"

Pílula Pop: Não seria, então, um problema de roteiro, que limita os atores a uma linguagem que acaba soando artificial?

Mel Lisboa: Pode ser. Mas eu tô aqui defendendo também porque no filme nacional nós temos mais artifícios pra criticar. Se você não tem que ler uma legenda porque a língua não é problema, você vê melhor os pequenos defeitos. Difícil você avaliar a naturalidade na fala de um filme russo, japonês. Eu não sei analisar. Nesses casos, e até em línguas que eu conheço (inglês, espanhol, francês) não dá pra ter esse tipo de avaliação tão precisa. Dá pra ver outras coisas – olhar, expressividade, intensidade- mas não a fala.

Pílula Pop: Sobre a construção da personagem. É um filme lírico, mas existe um lirismo próprio da Cristiana, de sua relação com Saulo, da relação com o Nijinsky. Há, inclusive, o momento em que ela debocha do lirismo dos outros dois. Como foi a criação dessas ambigüidades?

Mel Lisboa: A Cristiana se apaixona por Saulo naquele momento, na paixão com que ele fala da Revolução. E durante o processo deles no apartamento ele vai perdendo isso. Ela começa a enxergar isso no outro, um bailarino, uma personagem que o autor criou pra isso. E essa cena do deboche é boa, porque a Cristiana também não é uma boba que acha tudo lindo e maravilhoso. Eu, Mel, olhava essa cena dos dois e pensava “não dá, né?”. Eu vi a sessão em Gramado, e nessa hora o pessoal adora. Todo mundo, no fundo, querendo rir. E eu venho e faço isso por eles.


"E essas perguntas, ó..."

Pílula Pop: Como você lida com as críticas? Pelo seguinte: você teve um sucesso enorme na minissérie, teve passagens depois na novela e no teatro, foi elogiada. Da mesma maneira, já começam a surgir comparações e críticas com os papéis que você fez depois, que guardam semelhanças com o de Anita.

Mel Lisboa: Bem, uma coisa de cada vez. Meu caminho foi bem diferente e muito duro. Eu tinha feito teatro quando adolescente e tava parada há muito tempo. Por ter sido muito bem dirigida, as pessoas me tomaram como uma excelente atriz. Mas como eu posso ser uma excelente atriz se eu nem tenho chão pra isso? O trabalho foi um sucesso, mas tenho muito a aprender ainda.

Lidar com a crítica é muito difícil. Ser ator mexe muito com o ego, com a vaidade. Crítica ruim não é fácil. Fico chateada, lógico, mas é assim. Todo mundo passou por isso e eu tenho que passar por isso também. Até pra manter os pés no chão.

Até entendo a semelhança, pela coisa da sensualidade, fisicamente também. Tem o lance da relação com o professor... pode até ser parecida sim, mas são personagens de essências bem diferentes. A Cristiana é introvertida, minimalista, enquanto a Anita é totalmente impulsiva, fazia o que dava na telha e dane-se o outro. A Cristiana não, ela vai pisando em ovos, se contém. A situação parece sim, tem o sexo, a sensualidade, e todo mundo vai comparar mesmo. Mas o jornalista que escreveu “Anita dando uma de guerrilheira” foi de extrema grosseria, além de não entender nada de interpretação. Você pode comparar, pode, mas com que embasamento?


Oui, ela fala francês...

Pílula Pop: Cinema e música. Tem acompanhado?

Mel Lisboa: Sempre fui cinéfila, mas com a faculdade comecei a querer preencher as lacunas, ver todos os grandes filmes, então alugava pilhas pra assistir. Nos últimos meses não consegui por causa do programa “Oi pelo Mundo”, tava viajando, e agora quero curtir casa, amigos, família. To meio desatualizada, mas quando os aviões tinham filmes eu pude matar saudades. Vi até alguns que estavam em cartaz, como Obrigado por Fumar e O Diabo Veste Prada. Pra música, eu sou uma pessoa de fases. Tem fase que estou viciada em determinados artistas e é só o que escuto. Aí tem hora que eu enjôo e não consigo ouvir mais.

Pílula Pop: No que está viciada agora? Ou de quem você acabou de enjoar?

Mel Lisboa: Tô vidrada em Madeleine Peyroux. Descobri numa aula de Pilates, achei linda, linda e pedi um cd pra mim. Também adoro o Gohtan Project, uns argentinos que tocam um tango-lounge-moderno na França. Enjoei do La Revancha Del Tango aí comprei o Lunático, último deles. Tinha uma época em que eu só ouvia nacional. Tanto ouvi, tanto ouvi... enjoei. Mas ouço de tudo, e as coisas sempre voltam.

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