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Duas Armadas

por Rodrigo Campanella e Igor Costoli
Fotos: Igor Costoli

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Havia duas Armadas Brancaleone, uma diante da outra, na coletiva de lançamento de “Sonhos e Desejos” no restaurante O Dádiva, em Belo Horizonte. Entre ambas, um corredor que ninguém se atreveu a cruzar fisicamente durante o ritual de perguntar e responder, mas por onde passaram, em lembrança, Glauber Rocha, Cacá Diegues e Francis Ford Coppola. Se estivessem efetivamente presentes, teriam arrepiado.

Na armada organizada em formação de mesa junto da parede lateral do restaurante, perfilavam-se Mel Lisboa, a protagonista, Marcelo Santiago, diretor, Lucy e Fábio Barreto, mãe e filho, produtores do filme. Sérgio Marone era presença confirmada até o dia anterior (“Teve gravação de novela no Rio”) bem como Luiz Carlos Barreto – que, comentava-se não viu porque viajar para responder a mais uma batelada de críticas negativas contra a produção. Pois era exatamente esse o objetivo dessa primeira armada: apresentar e defender o filme contra a malhação da imprensa, justificada mas algo sádica, na qual ele vinha tropeçando desde as primeiras exibições em festivais.

Os pontos da defesa eram três: jornalistas não entenderam o filme; a crítica é moralista e conservadora e teve faniquitos com a mistura dos guerrilheiros da ditadura e sexo; e, por fim, o argumento de que “a resposta do público ao filme foi muito boa”, repetido nas mais diversas variações: “o público se envolveu muito”, “o público teve uma ótima resposta”, “a resposta do público foi contrária à da crítica”. Ninguém teve o estalo de perguntar o que afinal o público tinha respondido, mas reportagem d’ “O Globo” relatava risos da platéia durante uma exibição.


As duas armadas se encaram

Antes de ir à próxima armada, é bom dar o valor devido: a defesa do diretor ao seu filme foi digna de atenção, tanto na mesa quanto em conversa individual com o Pílula Pop. Relatou que foi sua a opção de fazer um recorte muito específico dentro da obra em que o filme se baseia (o romance “Balé da Utopia”) e centrar as câmeras no triângulo amoroso que se formava acompanhando o olhar da protagonista, Mel/Cristiana. Também comentou sobre sua formação inicial no teatro, há muito tempo – quando saiu de Belo Horizonte, sua terra natal, foi em busca dos palcos.

Quanto à outra armada, ela era composta por um apinhado de jornalistas espalhado por três fileiras de cadeiras, alguns armados de blocos com perguntas-padrão (nem tinham visto o filme) e outros sem saber como perguntar algo que não fosse uma crítica direta ao longa, para tentar gerar uma conversa e não uma sucessão de posições de batalha. Às vezes, tornava-se impossível.

O belo lustre de madeira arrematado por contas de vidro ou de cristal, que fica acima da mesa à direita de quem entra no restaurante, serviu como descanso para os olhos e a atenção quando respostas e algumas perguntas tornavam-se muito constrangedoras. A não utilização de “Balé da Utopia” como título, apesar do nome ter sido usado durante boa parte das filmagens, teve a explicação “nós fizemos pesquisas e boa parte do público não entendia o nome do livro, nem sabia o que significava utopia”. Belo lustre, não? “Daí mudamos para ‘Sonhos e Desejos’, que abrange o que o filme é, o que ele possui”.

De um comentário parecido, mais adiante, surgiu a pergunta desse jornalista sobre o que havia acontecido com a utopia, o sonho (com o selo de produção Barreto) de décadas atrás, de que o cinema popular brasileiro fosse aquele feito por senhores como Glauber Rocha, Cacá Diegues e Ruy Guerra. Nenhum dos Barreto gaguejou para explicar, apesar das respostas se chocarem. Para Lucy, “a utopia se realizou e continua se realizando e é importante não ficar preso à nostalgia – até Cacá Diegues tem buscado um cinema cada vez mais popular”. Para Fábio, o homem por trás de “Paixão de Jacobina” e “Bela Donna”, aquilo foi uma utopia e a linguagem ‘hermética e alegórica’ do Cinema Novo era uma necessidade “de se escapar à opressão da ditadura”.


Marcelo Santiago dá sua versão de "Sonhos e Desejos"

A resposta do que houve com a utopia do Cinema Novo ganhou mais sentido na conversa posterior com Santiago, numa pergunta sobre a divisão do cinema em ‘cinema de linguagem’ (difícil) e ‘narrativo’ (mainstream), argumento defendido por Fábio Barreto como o que fulminou a popularização aquele cinema. Nas palavras de Santiago, “A questão é o capitalismo mesmo, que aprendeu que rende mais o que é fácil para ser consumido, engolido. Interesse imediatista, retorno diário da bilheteria. E você depende do capital para mostrar o seu filme, daí, fica encurralado”. E o que seria cinema popular de qualidade? “É trabalhar em cima da linguagem narrativa para agradar ao grande público mas com questões que vão tornar aquilo um incômodo para a pessoa, de modo quase inconsciente para quem assiste”.

Aquele mesmo lustre também sofreu de carência crônica de atenção quando Lucy Barreto iniciou um comentário sobre o próximo projeto da família: a implantação de uma série de salas de cinema na periferia das grandes cidades (Cinema para Todos), com preços bem mais modestos que os exigidos pelos multiplex de shopping, “salas com boa imagem e som mas sem muito luxo”, apoiadas por dinheiro federal. A sorte é que alguém tenha resolvido enfim tirar o projeto da cabeça e colocá-lo, ao menos, no papel. Resta só saber ao certo o que significará ‘sem luxo’ e quem será o responsável pela programação – afinal, serão salas com verba pública.

Quando a pressão dos jornalistas voltou ao filme, apareceu a pergunta sobre o tratamento pano-de-fundo dado à ditadura em “Sonhos...” em comparação com o tratamento ganho pelo Vietnã por boa parte do cinema hollywoodiano. Fábio Barreto tomou para responder e optou por uma comparação com... “Apocalypse Now”. Depois de duvidar dos jornalistas (“Vocês já viram esse filme do Coppola?”), começou seu ponto de vista: “‘Apocalypse Now’ não é sobre a Guerra do Vietnã, o protagonista vai lá para matar o cara. No meio disso, passa pela guerra e a missão vira um pretexto para mostrar e fazer uma reflexão sobre o conflito”. É uma comparação com “Sonhos e Desejos”. Que, segundo Lucy, é um filme sobre se-xu-a-li-da-de, isso dito com entonação de professora, voltando ao embate contra a suposta crítica moralista.

O que não dá para entender, somando as falas, é como um filme que supostamente chocou e se fez em cima da sensualidade recebeu do diretor, nas próprias palavras dele, um tratamento estetizado em cima exatamente da questão ‘sexo’, por opção própria. Esposas fazendo strip-tease completo na novela das oito para todos os lares brasileiros fariam ruborizar qualquer cena do filme.

Na visão de Santiago, a chave de “Sonhos...” é o trabalho dos atores: “criar a tensão dramática sem a interferência da câmera, buscar a mis-en-scène”. E uma dúvida nossa - ao longo das cenas há alguma mudança na maquiagem ou luz que vá tornando mais nítidos os traços do mascarado de Sérgio Marone? “Não, e se isso acontece é um mérito do filme. A máscara apenas fica menor e mais apertada, e aquele rosto vai se construindo na cabeça do espectador”.

No livro, a história não se passa em Belo Horizonte e o próprio diretor admite que essa transposição trouxe outras mudanças, como reduzir o foco ao que o interessava: o caso de amor que afivela Cristiana, o professor e amante Saulo (Felipe Camargo) e o guerrilheiro mascarado Nijinski (Marone). Então, a pergunta: se o público fosse plenamente receptível a qualquer filme e o sucesso fosse garantido já de saída, esse filme seria diferente? Sim e não, responde o diretor. “Essa história acho que eu não filmaria de outra maneira, tive muita liberdade. Mas se não houvesse preocupação alguma, o filme seria mais longo, com todas as externas gravadas em Belo Horizonte que eu cortei. Mas, no modelo comercial, ele tem que se encaixar em certos padrões para ser bem distribuído, entrar no mercado”.


Lucy anota, Santiago comenta e Mel Lisboa se camufla no cartaz

Tempos antes, ainda postado em seu luar na mesa, Fábio Barreto já havia se adiantado a possíveis críticas, oferecendo uma resposta ríspida à questão-padrão em coletivas de cinema: “qual a relação hoje entre as linguagens do cinema e da televisão?”. Resposta: “Televisão não é linguagem. A linguagem da TV é a do comercial, que muda a cada momento. Não se pode falar em linguagem na TV. A novela é algo que é sempre a mesma coisa. Só a minissérie que muda um pouco”. Ninguém ainda havia comentando que o longa tinha qualquer ar de televisão.

A conversa rumo ao fim foi tomando aquele caminho ameno de despedida com hora marcada, já que havia a pré-estréia à noite. Comentou-se algo sobre o novo projeto de Lucy (um documentário sobre o Grupo Corpo que, tomara, pode chegar aos cinemas) e a possibilidade de se fazer cinema em BH que, segundo o grupo na mesa, não deixa nada a dever para São Paulo ou Rio. A capacidade de produção levou Fábio Barreto a até defender a centralização das verbas de cinema para o Sudeste: “Tem aquela conversinha do governo Lula de que tem que diversificar (a produção pelo país). Mas olha os Estados Unidos, lá tudo é feito em um só lugar”. Mas a impressão, até aqui, é que a melhor coisa que o Cine Br faz é respirar novos e cada vez mais variados ares geográficos.

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