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Um bate papo com Breno Silveira direto da Terra dos sonhos

por Daniel Oliveira

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“É o público do seu site que me interessa mais que assista ao filme”. Sinta-se lisonjeado, leitor pilulino. É o que o diretor de “2 filhos de Francisco” me disse após conceder a entrevista que você confere abaixo. E depois de me contar que uma das melhores sessões que o filme teve até agora foi dentro do marketing da Columbia, quando quatro caras chegaram para assistir, cheios de piercings, roupas pretas e tênis All Star. “Saíram da sala chorando, os quatro, e dizendo que tinham que fazer o site do filme e que ele era muito bonito”, ri Breno. Não sei se ele me associou a essa imagem. Você tem muitos piercings, leitor?

Primeiros filmes têm um significado especial para o diretor. Ele fez direção de fotografia na estréia de vários cineastas brazucas – Carla Camurati (Carlota Joaquina), Andrucha Waddington (Gêmeas), Flávio Tambellini (Bufo & Spallanzani) e José Henrique Fonseca (O Homem do Ano). Com os olhos fundos e aparentemente cansado do exaustivo processo de divulgação, Breno esbanjou simpatia na conversa e confessou: “me apaixonei por direção. Não acho que volte mais a ser fotógrafo”.


Cena de "2 filhos de Francisco", primeiro longa de Breno

Pílula Pop: Como foi a sua primeira experiência na direção de um longa metragem?

Breno Silveira: Breno Silveira: Trabalhar com atores tão apaixonados, com um coração enorme, como o Ângelo e a Dira, mordeu minha alma. Minha única experiência de direção de atores era o que eu tinha visto nos sets dos filmes que trabalhei. Já tinha pensado muito em como seria isso e tinha muito medo. Mas me apaixonei por direção. Acho que não vou conseguir mais ser só fotógrafo.

Pílula Pop: Qual e como era seu contato com a dupla Zezé Di Camargo e Luciano?

Breno Silveira: Eles me deram total distanciamento e uma grande liberdade para fazer o filme. Os contatos eram poucos e mais com o Luciano, que era a ponte entre a história e a família. Eu ligava para ele e perguntava como algumas histórias tinham começado, para entender melhor. O Zezé e o Francisco visitavam as filmagens às vezes e davam indicações, falavam quando algo não estava bem como eles se lembravam. Dessas visitas, surgiram alterações no roteiro e até novas cenas.

Pílula Pop: O fato do filme ser uma história, de certa forma, musical influenciou na sua decisão de dirigi-lo, já que você tem uma vasta experiência com videoclipe [Amor, I love you; A minha alma, O que sobrou do céu, etc.]?

Breno Silveira: Pelo contrário. Queria fazer desse o filme mais sincero possível. Nunca imaginei quanta música ele teria, não era essa a intenção, apesar de quase todos os clipes que eu fiz terem ganho vários prêmios (risos). Entrei no projeto com a alma fechada, com seriedade. Mas depois que eu entrei, fui me apaixonando por aquela história, aquele universo que eu não conhecia. Fui filmar em Pirenópolis com cinco discos sertanejos: História da música sertaneja I, II, III, IV e V (risos). E foi quando eu comecei a remar contra a maré, perceber que eu teria de fazer tudo do jeito que eu não costumava, olhar diferente para as coisas, pensar o inesperado. É muito bom remar contra a maré, às vezes, fazer o que é estranho, não é espelho, abrir-se a novas visões. Como o Caetano canta naquela música: “é que Narciso acha feio o que não é espelho”.

Pílula Pop: Você assistiu a alguma cinebiografia ou buscou alguma referência antes de iniciar o filme?

Breno Silveira: Assisti a alguns, mas poucos filmes eram o que eu realmente queria contar. “Filhos do paraíso” [que o diretor havia citado na coletiva horas antes] apareceu durante o roteiro e me marcou. Vi ontem no Telecine um filme que eu tinha assistido às vésperas do trabalho com o roteiro, como é que ele chama mesmo em português... “In America”

Pílula Pop: Terra de sonhos, do Jim Sheridan

Breno Silveira: Isso! É um filme emocionante, singelo, a história de uma família. Dá vontade de levar aquelas duas menininhas pra casa. Acho que meu filme tem um pouco disso, dessa emoção inocente, a coisa dos nossos atores mirins também. São muito bons. Ontem, na pré-estréia em São Paulo teve um diretor nacional, um cineasta, esqueci qual, que chegou para mim e perguntou: “Escuta, eu não posso adotar os dois meninos da sua dupla, não?” (risos)

Pílula Pop: Qual foi a cena mais difícil do filme e por que?

Breno Silveira: A cena da rodoviária, com certeza. Eram muitos figurantes, em um espaço muito grande. E o Zezé ainda chegou e você imagina o que aconteceu com meus figurantes e ainda com as outras pessoas, todo mundo gritando, porque a rodoviária não podia parar de funcionar no dia. Então, eu tinha que lidar com a minha equipe e a Administração do terminal, não foi fácil. E era uma seqüência muito importante no filme, uma cena de virada na história. E eu queria que fosse uma das mais emocionantes, também.

Pílula Pop: Você vem da direção de fotografia. Como foi trabalhar com direção de atores?

Breno Silveira: Como eu já disse, foi algo apaixonante. Teve o Domingos de Oliveira [diretor de cinema e teatro, dos filmes “Feminices” e “Separações”] que leu o roteiro e me chamou num canto e disse: “vem cá, que eu quero te dar uns conselhos”. E o legal é que os conselhos dele eram diferentes, vinham de uma experiência forte de vida e ser humano. Foi só com o exercício de dirigir o filme, que aprendi realmente o que ele me disse naquele dia.

Pílula Pop: Qual a sua cena preferida do filme?

Breno Silveira: A da rodoviária, também. (risos)

Pílula Pop: O cinema nacional tem tido um ano de público mais “magro” que o ano passado. Isso te deixou apreensivo?

Breno Silveira: Sim, claro. Parece que já foi uma queda de 43%, em relação ao primeiro semestre do ano passado. E mesmo que o Zezé e o Luciano tenham uma ampla base de fãs, só eles não garantem o sucesso do filme. Sei disso porque filmes como “Acquaria”, com a Sandy e o Júnior, não fizeram sucesso. E tem gente dizendo que nosso filme é a salvação do ano, o resgate do público do cinema em 2005, mas eu já disse que não concordo e nem quero esse peso nas minhas costas. Quero que as pessoas assistam ao filme, mas sem nenhuma responsabilidade maior.

Pílula Pop: Qual foi sua relação com a família deles? Como eles lidavam com o filme?

Breno Silveira: Foi uma parceria inesperada e um depósito de confiança deles em mim. Eles são loucos! Eu sou louco! (risos). E eles só viram o filme anteontem e foi a sessão mais difícil da minha vida, nem quis ficar na sala. Foi como a maior meta da minha vida, eu ficava perguntando: “e aí, o que eles estão achando? Estão gostando? Rindo?”. Graças a Deus, eles gostaram, senão eu nem sei como ia me sentir, cara...

Pílula Pop: O que você viu no cinema recentemente que recomendaria?

Breno Silveira: Terra de sonhos (risos). E eu não queria falar filme da casa [referindo-se à Conspiração filmes], mas o nacional que eu vi esse ano foi “Casa de Areia”. É uma forma mais dura e mais pura de fazer cinema. As pessoas estão acostumadas com filmes envelopados, mastigados, mas esse não, ele mexe com você. É um filme muito delicado, muito sensível.

Pílula Pop: E quais são os seus diretores favoritos?

Breno Silveira: Ah, eu não costumo falar isso, não. Ah, diretores? Vamos ver: [Stanley] Kubrick, [François] Truffaut, Glauber [Rocha], [Leon] Hirzsman. Pus uma referência ao Hirzsman no filme, no plano em que a Helena cata feijão. E tem o Fernando Meirelles, gosto muito do “Cidade de Deus”, do trabalho que ele fez com aqueles atores e o filme.

Pílula Pop: Por fim, e seus próximos projetos, quais são?

Breno Silveira: Tem dois. Um que talvez se chame “Amor Bandido”, sobre uma menina da Vieira Souto que se apaixona por um rapaz da favela. E outro que é um livro do Amyr Klink, que eu comprei os direitos. Uma ficção em cima do “100 dias no Atlântico”, que narra a travessia do Atlântico que ele fez a remo.

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