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O desenho das curvas

por Rodrigo Ortega

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Eu já comi pão de forma com catchup na casa do Lucas. Bêbado e com fome, sem dinheiro e sem vergonha de acabar com a comida da casa alheia, junto com uma outra pessoa na mesma situação, consumi em meia hora uma quantidade do pão macio e do tempero vermelho que dariam para um mês de lanches na casa dele.

A prosaica introdução é só para explicar porque não vou falar aqui de “Lucas do Anjos” fingindo que ele é uma pessoa que eu não conheço. Lucas é um cara que eu conheci na faculdade, que tocava músicas no violão e tinha uma voz bonita que transmitia paz. Ainda toca, e ainda tem.

Costumo me lembrar de coisas que não aconteceram, enquanto de coisas que realmente aconteceram, eu não me lembro. Mas acontece que eu me lembro de Lucas tocando pedaços de músicas compostas por ele. Nessa hora ele cantava mais baixo e passava o dedo com menos força nas cordas para elas fazerem blom.

Por isso a surpresa em colocar o disco Continua pra tocar, e ele fazer BLOM. O álbum é independente, tem nove faixas e produção caprichada. Para as pessoas que chegaram até aqui e ainda não sabem quem diabos é Lucas dos Anjos, sugiro que vão ao myspace.com/lucasdosanjos, especialmente as que gostam de BLOMS e tindondons de violões, entre outras onomatopéias de baixos, teclados e vozes de meninos e meninas.


O CD tem a opção "recorte aqui e estrague seu encarte", tipo o dos Mamonas

Outra parte das pessoas que vão ler isto aqui já conhecem o Lucas e o disco. Acho que essas pessoas, como eu, vão achar legal a parte em que ele fala que os sons desenham as curvas que se quer na música. Porque quando você está tentando ficar bêbado num bar em BH (ou na casa de um amigo), às quatro da manhã, tudo o que você quer é desenhar uma curva para a sua própria vida, como se você mesmo fosse uma música, e quisesse ser uma boa. Então, Continua pode ser uma grande curva. Ele diz que é “um grito”, e com certeza ele pode falar bem melhor do que eu. Então, este texto continua na voz do Lucas.

Pílula Pop: Como foi a gravação do disco? Que outros músicos tocaram com você?

Lucas dos Anjos: O CD foi todo gravado em um home studio do Felipe Fantoni. A gravação se arrastou de outubro de 2006 a janeiro de 2007. Sentamos e fizemos primeiro os arranjos, a estrutura das músicas. Em seguida gravamos as guias de voz e violão. Em um outro momento chamamos o Luis Paulo pra gravar bateria em algumas faixas. Em seguida Felipe Fantoni colocou os baixos e guitarras e André Lima colocou os teclados nas músicas.

Com o esqueleto pronto, colocamos mais alguns efeitos, texturas, instrumentos e vozes definitivas. Participaram do CD a Sara Svat com acordeom na faixa “Meu vício é você”, a minha irmã Clarisse Raposo com vocais e Christina Rosa também com vocais legais. Sempre muito rapidamente, em um processo de quase improviso.

O processo mais cuidadoso e que levou mais tempo foi o de mixagem e masterização, executados por Felipe com muito brilhantismo. No sentido da experiência foi interessante pra mim. Um processo novo, me senti meio ET perto de tanta parafernália e equipamentos. Ansiedade, nervosismo, horas a fio tentando gravar uma coisa só. Mas no final, o reconhecimento do produto acabado faz valer tudo. E se sentir autor de uma coisa legal é igualmente legal.

Pílula Pop: Se você tivesse que escolher uma faixa do disco para mostrar para alguém que ainda não o ouviu, qual escolheria?

Lucas dos Anjos: Ah, que difícil...Tenho minhas preferências em categorias diferentes, mas uma música que, na minha opinião, ficou bem legal, estruturada em todos os sentidos sem ficar parecendo música de nerd aficionado foi “Pelo ar”. É, certamente, a música mais simples em questão harmônica e essa simplicidade levou a gente a fazer um arranjo mais de texturas. Soou bem, ficou moderninha e tal. Gosto da letra e depois de lapidada ela ficou melhor ainda.


Além de assaltar a geladeira, eu roubei uma 3x4 dele

Pílula Pop: Quando e por que você começou a compor?

Lucas dos Anjos: Comecei a compor no início do ano passado. Tinha alguns trabalhos autorais em outras áreas e me apliquei um desafio. Lembro que a minha primeira música ficou uma grande merda. Queria trazer a experiência que tinha em escrever textos literários para a estrutura da música sem adaptações. A letra soava mal e a melodia não se sustentava. Depois que vi que esse caminho não adiantava resolvi começar do zero e mudar a lógica da coisa. No final acho que funcionou.

Comecei a tocar em um bar fazendo um repertório grande de coveres e decidi que estava na hora de tentar escrever pra fazer um sentido maior pra mim e pra minha incipiente carreira. Eu gosto de escrever e isso ajudou de certa forma a ter esse primeiro impulso.

Pílula Pop: Por que você decidiu gravar o disco?

Lucas dos Anjos: A idéia, encabeçada por Felipe Fantoni, era gravar um CD com o repertório cover pra tocar em bares e casas noturnas. No meio do processo acabei mostrando algumas gravações que havia feito precariamente em casa com composições próprias. O retorno do Felipe, interessado então, foi que gravássemos um CD demo com poucas musicas próprias. Quando reunimos pra escutar as músicas vimos que tínhamos material pra realizarmos um projeto maior, mas que ao mesmo tempo fosse despretensioso. Ao final foi o que aconteceu. Gravamos um CD com mais musicas autorais e apenas uma cover. Mas ainda experimental no sentido da vivência musical. Tudo muita rápido e tudo muito novo.

Pílula Pop: Como uma música surge na sua cabeça?

Lucas dos Anjos: Na maior parte das vezes vem um tema junto com um trecho de letra que fico maturando durante um tempo. Em seguida testo umas linhas de voz e construo um pedacinho da melodia. É quase um lalalala com um pinguinho de letra. Depois construo o resto com o violão e acabo a letra. Mas isso é a forma geral, já veio a música pronta, já veio letra inteira na cabeça.

Pílula Pop: Você costuma criar histórias ou fala sobre coisas que realmente aconteceram?

Lucas dos Anjos: Esses temas que aparecem são recortes de experiências. Nunca são uma história só ou uma pessoa só. As vezes nunca foram histórias de verdade e tampouco foram experiências minhas e sim de outros. Você cria um tema e nele você viaja mesmo, esbarra nos limites da música, lê, retoma um caminho que não era o que tinha planejado antes. Acho que tem muita verdade de sensações, o resto fica ali, meio que querendo ser verdade e querendo ser mentira só pra contar uma história.

Pílula Pop: Qual é a diferença entre escrever contos ou poesias (no seu blog, por exemplo) e escrever letras de música?

Lucas dos Anjos: São coisas parecidas e ao mesmo tempo bem diferentes. As duas lógicas, apesar de inseridas no contexto da linguagem escrita ou falada, esbarram na forma e na maneira do “como dizer”. Os textos, poesias, contos e tudo mais são mais soltos na forma e na linguagem. O sentido é desejável que não esteja na cara e sim nos cantos da leitura. A música tem uma pitada disso, mas o sentido, na minha forma de pensar, deve estar mais claro. As sensações estão mais no raso e você usa outro recurso, o apelo sonoro, pra dar o clima, pra esconder mais, pra desenhar as curvas que você imagina querer nas músicas.

Outra questão é que para letras a métrica soa mais certinha, tem rima e tem que ter ritmo. Até hoje consegui transportar um texto meu pra uma música sem retoque. Esse texto tinha isso tudo que precisava pra ser música. Ele já era música e eu não sabia que faltava era só um violãozinho fazendo um tindondon.


Lucas e o violão

Pílula Pop: Das coisas que você gosta ouvir, quais você acha que te influenciam na hora de compor e tocar?

Lucas dos Anjos: Tem um monte de gente boa que a gente vai ouvindo e sabe que vai ter, fatalmente um traço deles na sua música, como Vinicius de Morais, Toquinho, Caetano, Tom Jobim, Chico Buarque, Elis Regina, Cartola, Strokes, Gilberto Gil, Maria Bethânia, Gal Costa, Lenine, Paulinho Moska, Roberto Carlos, Sinatra, Radiohead, Portishead, Nelson Gonçalves, Cássia Eller, Zeca Baleiro, Wado, Los Hermanos, Mombojó, Arnaldo Antunes. Tem outras que você escuta e fica maravilhado e não sabe se vai existir como influência clara, talvez por questão de estilo, mas certamente tem um dedinho de tanta coisa que a gente fuça na internet.

Pílula Pop: E das coisas que gosta de ler?

Lucas dos Anjos: em um monte de gente que é brilhante e que sempre procuro visitar como Camus, Fante, Machado de Assis, Leminski, Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, Clarice Lispector, Hilda Hilst, Carlos Drummond de Andrade, de novo Arnaldo Antunes e Chico Buarque e mais uns outros que devo ter esquecido.

Pílula Pop: E para divulgar o disco, você vai fazer shows agora?

Lucas dos Anjos: Eu penso da seguinte forma : o CD Continua é 100% independente. O que deu pra fazer de dívida foram 500 CDs nessa primeira leva. Então o que pretendo é divulgar o máximo em rádios e internet e vender em shows que devem acontecer assim que os discos chegarem de Manaus, em abril. A minha equipe, que sou eu mesmo e uma meia dúzia de gente que já gostou do trabalho e está apostando nesse projeto, está voltada pra isso, pro projeto de lançamento que inclui muitos shows, ainda por marcar, pra formar um público legal e dar seqüência nessa aposta meio louca de gravar esse álbum

A idéia é fazer música profissionalmente. É uma aposta minha e do Felipe Fantoni. É um currículo sonoro que me servirá como um registro de qualidade (ou não). Mas entenda “profissionalmente” como algo despretensioso, quero é tocar e continuar o processo, por isso Continua é um grito pra mim mesmo. E tomara que dê certo.

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