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American boy

por Rodrigo Campanella

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A barba, baixa e cerrada, se move muito menos do que as mãos gorduchas gesticulando na frente do tronco corpulento. A camiseta preta faz a divulgação do filme, razão dessa conversa, e empresta um tom de seriedade à coisa. Afundado na cadeira, Luc Besson está bem à minha frente, lançando sombras sobre sua afirmação de que podia se aposentar da cadeira de diretor após “Arthur e os Minimoys”. “Nunca disse que ia abandonar o cinema, mas que estava cansado depois de 30 anos fazendo cinema. Sempre me disseram que se eu não tenho algo a dizer, melhor ficar de boca fechada. Não tenho a pretensão de fazer um filme ou dizer algo quando eu não tenho nada a dizer de novo. Não quero ouvir que o meu próximo filme já não tem a mesma força dos anteriores”.

Então o close de Besson é cortado para um plano mais aberto que engloba o diretor e o intérprete sentado à sua esquerda, que também faz as vezes de um acabrunhado entrevistador. Antes de cada pergunta, é citado o nome do jornalista que a enviou por email e o veículo para o qual escreve. Luc Besson está à minha frente e eu estou à frente do computador, benditamente de chinelo num abafado fim de tarde em Belo Horizonte.

Vindo ao Brasil para divulgar sua animação “Arthur e os Minimoys”, armou-se essa coletiva online. Besson fez a cama como diretor francês de arrasa-quarteirões entupidamente americanos (O Profissional, Joana D’arc, O Quinto Elemento) e hoje se espalha confortavelmente nela, com uma prateleira de filmes medianos e algumas idéias interessantes no currículo. Usa o gabarito conquistado com isso para atuar como um variado produtor (mais de 80 filmes).

Mas nem a barba ou a expressão de calma cansada disfarçam o fato de que Besson ainda lembra muito um menino que cresceu demais para a pouca idade. Ironicamente, não costuma admitir algumas das interpretações mais, digamos, maduras dirigidas a seus filmes, como aquela que vê em “O Profissional” um relato sobre a relação amorosa entre um homem e uma menina, no fundo duas crianças: o matador León (Jean Reno) e sua protegida (Natalie Portman). E é no campo dos argumentos que esse Besson-menino aparece.

Ok, ele reage bem e sabe se virar recebendo elogios deslavados de jornalistas, contando como foi dirigir sua primeira animação infantil, já com duas continuações agendadas (possivelmente sob sua condução), comentando sobre os desenhos de que gosta ou sua admiração pelos Estados Unidos. São respostas ideais para um jornalista com espaço minguado no caderno de cultura: algumas informações, poucas idéias. Mas quando imprensado diante de uma pergunta incômoda, a reação é uma só: a melhor defesa é partir para o ataque e nunca prestar atenção no próprio calcanhar.

Pílula Pop: Hoje em dia se fala do fim da película, substituída pelo digital. Você acha que o cinema em película é coisa do passado?

Luc Besson: Não, absolutamente. Há ferramentas diferentes e trata-se de saber usar melhor cada uma delas. No cinema podemos usar as grandes gruas, quase telescópicas, para filmar de grandes alturas, mas dentro de um quarto nós não as utilizamos. O digital é melhor para alguns casos, mas em outros o melhor é usar a película. Por exemplo, o advento do cinema não fez com que outras artes pictóricas, como a pintura, chegassem ao fim.

Pílula Pop: Porque Arthur, apesar de ser uma produção francesa, se passa nos Estados Unidos?

Luc Besson: O filme se passa nos anos 50 e nessa época o interior da França tinha seqüelas do pós-Guerra, muita coisa ainda estava destruída, e eles estavam um pouco atrasados em relação à modernidade tomada pelo mundo. Nos Estados Unidos, por não ter acontecido a guerra lá dentro, tudo havia florescido. Eu queria aquele colorido característico dos anos 50 e 60: os vestidos e lenços coloridos, os óculos de gatinho, os refrigeradores, os Cadillacs. Aquilo me fascinava e eu acho que isso combinava bem com a história dos Minimoys.

Por outro lado, eu procurei bastante para encontrar um protagonista e encontrei um garoto inglês (Freddie Highmore), e tive que adaptar o roteiro para isso, tendo o pai inglês e a mãe americana, para ficar coerente. Se tivesse encontrado um garoto francês valeria a pena mudar o roteiro para outro cenário.

Pílula Pop: O que você pensa da Academia ter eliminado Arthur e os Minimoys da disputa pelo Oscar por não ter no mínimo 75% do filme em animação?

Luc Besson: É uma regra, que é válida para todo mundo.


No meio dos Minimoys, (quase) de frente para os jornalistas

Pílula Pop: Você também está envolvido em uma série de projetos, entre eles o longa “Federal”, filmado em Brasília. Qual sua expectativa para o lançamento do filme?

Luc Besson: Para nós o que interessa são os criadores, um diretor com uma idéia ou um roteiro. Nos reunimos, vemos se há vontade de trabalhar juntos e só no final da conversa perguntamos ‘de que país você é?’ (risos). Ao mesmo tempo estou muito contente em poder ajudar o cinema brasileiro. Ainda não vi o filme, as filmagens terminaram apenas há algumas semanas.

Pílula Pop: O cinema francês alcançou 45% do mercado no ano passado. Ao mesmo tempo há uma grande polêmica na França em torno do número de filmes produzidos. Você acredita que há filmes franceses demais sendo produzidos?

Luc Besson: (silêncio) Na verdade o que eu quero dizer é que o que há demais no mundo são guerras, desmatamento, violência. Se há filmes demais não estou preocupado com isso, mas sim com o resto.

Pílula Pop: O filme recebeu a classificação PG nos Estados Unidos, para filmes que podem ter conteúdo inapropriado para crianças. Você diria que Arthur é um filme para crianças?

Luc Besson: Vou responder como respondi para o Oscar: cada país tem leis próprias. As regras são deles e eu as respeito. Seria mais fácil fazer comentários políticos diretos (sobre os Estados Unidos) do que comentar isso.

Pílula Pop: Você já comentou que não tem o hábito de freqüentar cinematecas e que não teve televisão até os 16 anos. Como foi construída sua experiência como espectador de cinema?

Luc Besson: (silêncio) Modigliani, Picasso, Rafael, eles também não viam televisão. Então não tenho tanta certeza de que isso ajude muito. Acredito que a expressão artística tem mais a ver com o que conseguimos capturar pelos nossos sentidos – tato, visão, audição. Captamos essa emoção e o artista é aquele que consegue transcrevê-las, repassá-las. Seja em música, pintura ou no cinema.


A foto muda, o tempo passa, mas o rosto é esse mesmo

Pílula Pop: Você disse recentemente que está trabalhando em algo mais político e sombrio...

Luc Besson: É um projeto que estou produzindo junto com Mick Jagger, com um diretor chamado Paul Brizzi e que vai se chamar “Ruby Tuesday”. É uma animação com 14 canções dos Rolling Stones.

Pílula Pop: Qual é a grande diferença em dirigir personagens de computador? É mais fácil lidar com personagens de animação?

Luc Besson: Trabalhei com atores para fazer a animação, então não mudou muito. Os atores vieram e deram toda a base de emoções e movimentos para o trabalho dos animadores, então o meu trabalho foi basicamente o de direção de atores.

Pílula Pop: Em uma entrevista ao The Guardian, em 2000, você comentava que os filmes seriam feitos para o público e que os críticos não teriam grande utilidade. Qual o papel que você enxerga na crítica de cinema?

Luc Besson: Na crítica? Nenhum. Ninguém pediu pra eles criticarem. As pessoas (o público) criticam elas próprias. A diferença é que o público tem o direito de criticar porque pagou. As pessoas em geral quando vêem que o filme não é tão bom, que não tem algo a dizer para elas, simplesmente não vão ao cinema.


O estranho mundo de Besson

Pílula Pop: Qual você acha que será o impacto do seu projeto no cinema europeu de construir uma cidade do cinema, como a Cinecittà italiana ?

Luc Besson: Há um problema na Europa porque a França é o país que mais produz filmes, de 180 a 200 por ano. Há a Cinecittà em Roma, Bavaria na Alemanha, Alicante na Espanha, Pinewood na Inglaterra, sete estúdios enormes em Los Angeles, mas na França não há nada parecido. Não é normal um país que produz quase 200 filmes por ano não ter grandes estúdios. Como o estado francês não está fazendo nada para isso, é preciso que alguém faça.

Pílula Pop: “Arthur e os Minimoys” fez mais de 6 milhões de espectadores na França mas não funcionou bem nos Estados Unidos. Por quê?

Luc Besson: O distribuidor americano foi o pior com que eu trabalhei em toda minha vida. No Canadá o filme saiu ao mesmo tempo em que nos Estados Unidos, distribuído por outra companhia. Logo no primeiro fim de semana era o primeiro colocado.


A carinha da nova cria

Pílula Pop: É verdade que “Arthur e os Minimoys” foi cortado nos Estados Unidos, pelos irmãos Weinstein, para se adaptar ‘ao gosto americano’?

Luc Besson: Infelizmente sim. Talvez por isso não tenha funcionado tão bem. “O Quinto Elemento” também foi distribuído em mais de 60 países e o lugar onde ele menos funcionou, proporcionalmente, foi nos Estados Unidos.

Pílula Pop: Quais são suas considerações finais para os jornalistas brasileiros?

Luc Besson: É difícil. Primeiramente é preciso dizer que os jornalistas devem ter bem claro para eles se eles gostam de cinema ou não. Se eles gostam, tem um papel a desempenhar: transmitir o amor que eles tem pelo cinema, por um filme para as pessoas. Mas destruir um filme é fácil, é fácil demais.

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