Busca

»»

Cadastro



»» enviar

Angu, Feijão, Couve e Alfaces

por Nara Mourão

receite essa matéria para um amigo

Ouro Preto era uma lembrança de infância. Dessas que a gente finge recordar, mas volatilizam em momento desconhecido. Dez minutos na cidade, o destino era lugar com nome de menina. E lá fui eu conhecer Mariana e provar o “tempero mineiro na música brasileira”, da banda Angu, Feijão e Couve. Não havia melhor hora para chegar, que não o almoço. Entre garfadas e muitas folhas de alface, o vocalista Xisto Siman contou a história do grupo. Mais tambores que gastronomia, garanto.

Xisto, Paulinho Santana, Robson Militão e Tico Doido são os ingredientes principais. O colaborador Carlão (que se chama Guilherme) atua como liga na mistura, como bom ex-integrante e amigo. Mais da metade dessa panela fez História. Foram se juntar para escrever a deles há mais ou menos três anos e meio. Inicialmente, um grupo de amigos reunido para tocar música de raiz, mas num ritmo pequeno de shows. Xisto ainda não estava, foi dizer sim - como no seu mineiríssimo e-mail: xistosim@uai.com.br – um ano depois.

Produzem música de raiz que vem “do Brasil inteiro”, como as cirandas do Nordeste, congadas e reisado. Os mineiros Milton Nascimento e Maurício Tizumba também alimentam esse pessoal. Uma ressalva é feita constantemente: “Não é uma música mineira, mas sim brasileira”. Não resistem à música e por mais atribulada que a outra carreira possa estar, se encontram ao menos uma vez por semana para fazer um som.


Xisto e Tico em ação

Viçosa, Belo Horizonte, Mariana e Ouro Preto já foram palco para Angu, Feijão e Couve. Universitários ávidos por comparações usaram a banda Cordel do Fogo Encantado depois do verbo “parecer” Angu, Feijão e Couve. Xisto rebate: “Isso vem da necessidade de enquadrar das pessoas. Nossa estética não é parecida, talvez a forma de interpretar as músicas e algumas composições sejam. Isso é devido à formação similar (sobretudo a força na percussão)”

Nos shows, o repertório é quase todo deles (uma lambada, dois forrós, samba rock, catira, e um “quase blues”), mais canções de Nação Zumbi, Milton Nascimento e Karnak Quando perguntado sobre a escolha da arte como caminho, Xisto responde em primeira pessoa o que garante ser um sentimento coletivo no Angu. “Você entra na parada achando que é menos, mas a partir de um momento a arte te pega, é a arte que te laça. Você passa por vários perrengues, mas não quer abandonar aquilo”.

Recomeçaram a preparar o CD agora, após as gravações nem tão saborosas feitas no ano passado. Optaram por deixar o CD encorpar, “tomar cara”, já que não querem fazer algo mecânico e nem precisam cumprir uma obrigação mercadológica. Ao optar pela serenidade na produção do CD, Xisto afirma: “A pressa acaba levando a opções piores, já que não existe erro em arte. Na arte, o máximo que pode acontecer é uma obra clichê.”


Mexido de angu, feijão e couve

Ao final, mudamos o rumo da prosa. O carnaval de cidadezinhas do interior de Minas, reprodutoras do festejo de uma maneira que “não é nossa”, foi motivo de protesto. Palavras finais de quem viu muita gente rolar Rua Direita abaixo em Ouro Preto. “As prefeituras e os governos devem incentivar um carnaval da região, para ter verdade. Não adianta reproduzir aquela comoção baiana por aqui. Não é nossa verdade. Não significa que aqui tem de ser só música de tambor. Tem espaço para tudo, não só o pagode e axé”, Xisto afirma convicto, já sem alfaces.

» leia/escreva comentários (13)