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Massari e Zappa entre aspas

por Braulio Lorentz e Isabel Furtado
Fotos: Mariana Marques

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“Detritos Cósmicos”, terceiro e mais recente livro do jornalista Fábio Massari, reúne 38 pessoas em torno de uma só: Frank Zappa. Skylab, Pitty, Wado e os escritores José Fernando Bonassi e Ademir Assunção, entre outros colaboradores, buscaram em seus textos uma forma de sintetizar quem, para eles, é Zappa. Entre 1966 e 93, ano de sua morte, o bigodudo norte-americano lançou mais de 60 discos e preencheu aspas como nenhum outro jamais o fez.

Foi impossível encontrar um modo melhor de concatenar as idéias que surgiram no papo que tivemos com Massari, idealizador e organizador do projeto que homenageia este músico e frasista de primeira. As frases do homenageado pontuam as aspas do cara que nas ondas do rádio, na tela da TV e nas páginas de livro sempre mirou no mesmo alvo: fazer jornalismo de rock.

Aquele mesmo jornalismo que, segundo Zappa, é feito por “pessoas que não sabem escrever entrevistando pessoas que não sabem falar para pessoas que não sabem ler”. É, caro leitor, sobrou pro Massari, pra nós. E até pra você.


Essa é a capa

Zappa disse: “Eu acho bom que livros existam, mas eles me deixam sonolento”.

Massari diz: “Nunca pensei em fazer biografia ou algo parecido, não teria nem capacidade jornalística pra fazer isso. Se for pra fazer mais livros de música que seja mais na linha de “Estação Islândia” [primeiro livro de Massari], um misto de viagem e diário. Eu fui pra Islândia sem muito planejamento. Eu ia atrás dos discos pra minha coleção, atrás de personagens, atrás de historinhas... Aí virou um relato autoral. Dá pra ter umas coisas não necessariamente musicais no meio. Eu gosto de livros, filmes, coisas esquisitas em geral. Eu gosto bastante de livro. Tem a ver com minha formação. Eu sempre gostei de consumir livro e escrever. Tem mais um elemento: livro ainda é um produto que sobrevive a essa onda da Internet. Não é um produto tão ‘pirateável’ assim. Ninguém mexe em livro. Ele tem uma aura. Ainda é um produtinho que tem uma aura especial”.

Zappa disse: “Arte é fazer algo do nada e vendê-lo”.

Massari diz: “Os colaboradores são na maioria amigos, conhecidos, camaradas. E na maioria dos casos eu sabia que tinham essa inclinação ‘zappiana’. A metodologia, se é que teve uma: eu cheguei junto dessas pessoas com o mesmo pedido. Queria que cada uma tirasse uma página do diário pessoal. Página essa que revelasse algo da relação com a música do Zappa. Poderia ser uma lembrança, uma esquisitice, uma viagem, um disco... A idéia é que fosse uma coisa plural. Com o Rogério Skylab, eu me surpreendi... Eu me surpreendi médio, porque eu sabia que vinha coisa louca pela frente. Em quatro ou cinco dias chegou um dos textos mais incríveis da coletânea. São 18 mini-capítulos de uma ficção meio autobiográfica. A graça é que os relatos são diferentes mesmo”.


Esse é o entrevistado enforcando o ar

Zappa disse: “Ser entrevistado é uma das coisas mais anormais que você pode fazer com alguém. Está a dois passos da inquisição”.

Massari diz: “Ele tem algumas famosas frases sobre críticos e jornalistas. Mas eu não lembro agora, não sei reproduzi-las. O Zappa gostava do embate, da discussão no bom sentido. E não é que ele detestasse os críticos. Ele não gostava era de burrice. E gostava de provocar. Era um pouco a onda dele. Ele teve ótima relação com jornalistas, ótimas entrevistas. Ele gostava disso... Me recebeu na casa dele. O que ele não gostava era de mesmice. Eu lembro que na entrevista [incluída em “Detritos cósmicos”] eu dei uma forçada pra ver se ele reproduzia uma frase, e ele completou um pedaço. Eu precisava ouvir ele falando. Ele tinha problema com imprensa, gravadora, músico... Muitos músicos o taxavam de tirano. Mas na verdade era um tirano que proporcionava uma possibilidade de fazer coisas que com outros eles não iriam conseguir fazer”.

Zappa disse: “A maioria das pessoas não reconheceria uma boa música nem se ela viesse e as mordesse na bunda”.

Massari diz: “O Zappa teve uma função didática pra mim. Por causa de Zappa eu fui ouvir muita coisa diferente. Desde moleque eu descobri que gostava de rock e derivados. Mas descobri que tinha esse tipo de som sendo feito em vários lugares que não de língua inglesa. No México, na Itália, no Japão tinham sons sendo feitos. A minha praia é a da pesquisa. Hoje em dia eu gosto de ouvir banda cantando na sua língua. Mesmo que eu não entenda nada".

"Italiano, por exemplo, funciona muito bem para os sons alternativos. O fascinante desse universo é que você não pára de descobrir coisas. A Itália é por causa da questão familiar, eu fui muito pra lá desde moleque. Eu lembro que no meio dos anos 80, anos antes da galera falar em grunge, os primeiros compactos da Sub Pop chegavam lá direto. Tem uma supertradição: programas de rádio, revistas... E a cena local cantando em italiano é muito boa. A partir dos anos 90 teve um crescimento qualitativo. Tem uma banda chamada Marlene Kuntz. Recentemente eles fizeram Especial pra MTV italiana. É genial. No começo eles eram comparados ao Sonic Youth, mas não é por aí. Tem outra que faz sucesso no underground. É o pessoal do Larsen. É uma coisa meio folk moderno esquisitão”.


Essa é a foto pra te deixar com torcicolo

Zappa disse: “Estou pouco me fudendo se eles se lembrarão de mim”.

Massari diz: “O Zappa sofre um pouco deste mal... As pessoas não ouviram e não gostaram, ou não ouviram e já tem uma opinião a respeito. Isso diz muito a respeito do artista, e diz muito a respeito das pessoas também. Ele era um frasista, tem uma série de polêmicas. Umas coisas a gente não sabe se são reais ou não. Comer cocô no palco... Esse tipo de coisa, que não é verdade. Mas eu acho que o legado musical fala mais alto. Como guitarrista e como compositor, que era como ele gostava de se apresentar. Ele falava que era um compositor norte-americano. Nada além disso. Músicos como ele estão em extinção. Ele está na galeria dos superlativos. Ele ensaiava oito meses antes de cair na estrada. Não tem mais gente que faça isso. Um pouco porque o mercado funciona de um jeito diferente e um pouco porque as pessoas se relacionam de um jeito diferente com a música".

"Zappa, Bob Dylan, Neil Young, Van Morrison, David Bowie, Tom Waits são caras que têm uma visão autoral da obra. Vão atrás dessa música que eles ouvem na cabeça deles. E o resultado dessa busca são discos e mais discos. Hoje as bandas gravam um ou dois discos e já querem tirar férias. Estão cansadas. Vão pro analista. Antes, a vida dos caras era um comprometimento quase existencial. Isso está em extinção. Tem pouca gente hoje assim”.

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