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Pelas metades
Encontro da crítica, diretor e público - "Batismo de Sangue", 10a Mostra de Tiradentes, 27/01

por Rodrigo Campanella

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O encontro da equipe de “Batismo de Sangue” com os jornalistas e o público, em conjunto, aconteceu na tarde que antecedeu a exibição do filme na 10a Mostra de Tiradentes. Não foi uma entrevista ou uma apresentação, mas um espetáculo. Ao contrário das outras mesas organizadas para discutir os filmes do festival, essa teve palco iluminado com penumbra na platéia, convidados-surpresa entrando aos poucos para compor a mesa e ovações desmesuradas da equipe envolvida na produção. No todo, não houve debate ou encontro: foi a comemoração antecipada de um gol de placa a ser feito dali algumas horas. Que acabou virando memória antes de se tornar realidade.


1. AS PALAVRAS


Helvécio Ratton, diretor

O meio maior que o fim – 5 questões sobre o processo de “Batismo de Sangue”, o filme

“A intenção foi contar o que foram os porões da ditadura de uma forma mais profunda. Nos filmes brasileiros sempre tem aquela cena clássica do cara com a cabeça enfiada na água e depois com sangue, filmado de longe. Nós quisemos ir além. E não se torturava porque eles (os torturadores) eram maus ou doentes, mas porque é uma forma do Estado de arrumar informações. Eram funcionários públicos que torturavam, e batiam ponto antes de fazer isso”. (Helvécio Ratton, diretor)

“Eu lamento que o Brasil seja o único país da América do Sul onde os crimes da ditadura jamais foram castigados. Foi criada uma aberração jurídica chamada Anistia Recíproca. Mas só pode existir anistia para quem sofreu com isso – e os torturadores nunca foram condenados. E o mérito é que o filme (baseado no livro de Frei Betto), faz a síntese dos paradoxos. Quando você pensa em frade, mosteiro, a última coisa que associa é luta armada.” (Frei Betto)

“Quando eu vejo filmes de outros diretores com meus amigos, nós comentamos sobre os aspectos formais e técnicos do filme. Mas ‘Batismo’ é um filme que toca mais profundamente porque ele tem uma função. Fico com a sensação de que apenas a oportunidade de ter conhecido eles (os frades), de ter tido contato com esses bastidores da história brasileira, já fez valer a pena”. (Odilon Esteves, ator, visível e sinceramente emocionado)

“Em um dos ensaios da tortura, quando ninguém agüentava mais, o poder estava apenas do lado dos torturadores, os torturados se deram as mãos e começaram a entoar um Pai Nosso. Aquela oração batida, comum, ganhou uma dimensão tão grande que os torturadores não conseguiam fazer mais nada, isso acabou barrando eles completamente”. (Sérgio Penna, preparador de elenco)

“Apesar do filme se passar quase todo em São Paulo, filmamos em BH, uma cidade que eu acredito reproduz o que era o crescimento de SP décadas atrás. Por ironia, filmamos o presídio em uma faculdade abandonada da cidade. Também a USP foi filmada assim, na antiga Faculdade de Farmácia (da UFMG). O importante era criar a atmosfera”. (Helvécio Ratton)


Os cinco elogios mais rasgados


Cordão de isolamento

Também em “Antônia”, o encontro da equipe com a crítica e o público aconteceu antes da exibição do filme, no último dia do Festival de Tiradentes. Mas apenas no filme de Helvécio Ratton esse fato converteu o debate em uma lapidada peça publicitária, lançando as declarações abaixo, que carregam muito de sinceridade, numa desconfortável embalagem de espetáculo.

“É até difícil falar algo, porque eu aprendi muito sobre o trabalho de ser ator nesse filme”. (Odilon Esteves, ator)

“É impossível sair ileso de um processo como o de ‘Batismo de Sangue’” (Guilherme Fiúza, produtor)

“E o filme trabalha muito bem aquilo que o Camus dizia ser o único problema realmente filosófico: o suicídio. Será a primeira vez que o público brasileiro verá um suicídio a favor da vida”. (Frei Betto)

“Eu tenho a intenção de fazer filmes para o público e tem gente que parece ter vergonha de dizer isso. Parece que fazem filmes feitos para participar de festivais e dão uma espécie de piscada para quem escreve sobre filmes. Eu não faço isso. Coloco sim certos cacoetes no filme, que eu acho importantes para estabelecer uma comunicação com público”. (Helvécio Ratton)

“É muito bonita a história deles, o que eles passaram, sofreram. Acho que talvez depois de fazer o ‘Batismo’ eu seja um ser humano melhor” (Léo Quintão, ator)


2. O DEBATE NA SOCIEDADE DO ESPETÁCULO

IN THE FLESH?

(Waters, in Pink Floyd The Wall 1979)

“So ya

Thought ya

Might like to go to the show.

To feel the warm thrill of confusion

That space cadet glow.

Tell me is something eluding you, sunshine?

Is this not what you expected to see?

If you wanna find out what's behind these cold eyes

You'll just have to claw your way through this disguise.”


(Adaptado da matéria originalmente publicada no Diário da 10a Mostra de Tiradentes)

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