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A Conversação
A coletiva de “É Proibido Proibir”

por Rodrigo Campanella
Fotos: Leonardo Lara

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Às vezes o papo está tão bom que você se esquece de falar e só quer ficar ali, ouvindo. Na Mostra de Tiradentes 2007, a equipe de “Proibido Proibir” (leia a crítica aqui) teve seu encontro com o público (na platéia) e um crítico de cinema (na mesa, apresentando o filme). Transcrevendo as melhores partes daquela longa conversa descobrimos que um diálogo se formava no papel – exatamente este que está aí embaixo. Para saber mais sobre cada personagem, é só conferir o fim do texto. Para entender como uma idéia pescada pleno ar pode se condensar em um belo filme, é só continuar lendo.

Proibido Proibir é a história de Leon, estudante de ciências sociais e sua namorada Letícia, que faz Arquitetura. Numa terceira ponta está Paulo, futuro médico, melhor amigo de Leon, que vai fazer surgir ali um triângulo de amores. A profissão de cada um alinha seu modo de descobrir a vida. E é a união dessas experiências que vai garantir a sobrevivência quando, na busca por um conhecido jurado de morte em uma favela, eles próprios entram na alça de mira da polícia corrupta.

Butcher: O que me emociona nesse filme, porque ele realmente me emociona, é a angústia do jovem de não saber como agir politicamente nessa que é uma época da vida povoada por sonhos, de querer modificar o mundo e tentar tocar a vida um pouco. Existe alguma semelhança com “O Céu de Suely” onde as emoções transbordam e não se sabe o que fazer com isso.

Durán: Olhar para esses jovens, como eles sentem, como eles se expressam, me ajuda a entender qual o futuro do país, o que está por vir. Filmar adultos talvez sirva mais para entender o tempo presente.

Flor: O que eu mais gosto no filme é essa visão nem um pouco óbvia da juventude carioca. E a relação com a faculdade e depois o contato do aluno com a realidade da profissão, que modifica o modo de ver o mundo.


Durán e Flor dizem não. Eles dizem não ao não. Eles dizem.

Durán: O filme foi construído para mim em três movimentos: o entorno, que é a banalidade do cotidiano, mas que se você analisa...; o segundo movimento seria a relação deles com a universidade, que eu acho esse lugar tão bonito; e o terceiro, como essa universidade deixa eles preparados para se encontrarem com a vida, o confronto desse conhecimento com a realidade

Francisco César Filho: No debate sobre os curtas, foi questionado onde ficou aquela militância dos anos 70. Eu acho que “Proibido Proibir” retoma isso atualmente.

Butcher: É um filme muito de sentimento, a câmera tem movimentos lindos, é como se ela acariciasse eles, ela está totalmente interessada neles. E o interessante é como ela mostra que nem todo mundo quer ser Bill Gates nesse mundo, nem o jogador de futebol mais famoso – mas que existe gente que gasta a mesada em livros, em discos....

Durán: Meu primeiro filme é sobre jovens que ainda não saíram da escola, esse é sobre jovens adultos, o próximo é sobre adultos. Assim eu vou avançando.

Butcher: Acho bonito não ser um filme sobre os personagens, mas sobre as relações que se estabelecem entre eles, com os parceiros, com os entrevistados. E eu acho que o filme inclusive resolve isso formalmente ao não fazer um filme com velhos com cara de jovens, no modo como ele filma a arquitetura, filma lindamente o Rio da Zona Norte que quase nunca é visto: a Penha, o Fundão...


Butcher diz que é proibido proibir, é proibido proibir,
é proibido proibir...

Durán: Uma das formas que eu encontrei de inserir os jovens no filme e não apenas olhar de fora foi inserir gestos dos atores no filme, olhar muito tempo para eles fora das filmagens, deixar que eles se apropriassem dos personagens e construíssem junto algo que não seguisse estritamente o roteiro mas que alcançasse o sentido da cena - para que não se perdesse o sentido do filme, o fio da história.

Raquel: Verdade, o Durán explicava o sentido da cena e deixava a gente livre para improvisar. Ele é muito generoso em termos de ações ou de textos e diálogos. E para mim foi um pânico, primeira vez que eu fazia cinema, mas quando funciona o improviso vem a segurança, o alívio...

Durán: Na escolha do elenco me deixo levar mais pelo vínculo com a pessoa do que pelo currículo, o que ele fez antes. Porque esse vínculo com o ator é essencial nas filmagens. Cada filme tem uma forma de ser feito e depende muito do elenco. E se você não consegue algo em uma cena, em um plano, tem que conseguir em outro. E o que me interessa é isso, o dia-a-dia das filmagens.

Porque inventar histórias vem do éter. E eu tenho certa antipatia com filmes que tratam da juventude como uma coisa desviada, brutal, que é uma freqüente no cinema americano. Toda vez que vou ver um filme sobre isso estão lá matando, estuprando alguém e não vejo isso no mundo em que convivo, que é a universidade em que eu dou aula.

Campanella: E o que é realidade na trama do filme?


Pedras se anima a derrubar as prateleiras, as estantes, as estátuas,
as vidraças, louças, livros, sim....

Durán: Três adolescentes pobres são mortos. O que eu não inventei foi isso, que está todos os dias nos jornais, nas pesquisas que se fazem sobre como o jovem é maltratado no Brasil. O Leon, por ser negro, parece que conhece as regras daquele mundo, mas não conhece e por não saber as regras daquele lugar é que tudo dá errado.

A gente tinha até outro final pensado para o filme, a diferença era que acontecia dentro do apartamento onde eles estão, mas era sufocante, não era expressivo. Eu gosto que o 007 tenha um final fechado, exato, mas que também haja a possibilidade de um final aberto onde se possa pensar e até gerar uma discussão com a pessoa na saída do cinema.

Butcher: É um filme muito sutil. E inclusive a questão racial é tratada como se estivesse e não estivesse ali ao mesmo tempo - que é o modo estranho com que isso é lidado no Brasil.


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Jorge Durán é diretor e autor do argumento de “Proibido Proibir”. Foi roteirista nesse filme e também em “Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia” (1977), “Pixote, a Lei do Mais Fraco” (81) e “O Beijo da Mulher-Aranha” (84).

Pedro Butcher é crítico de cinema da Folha de S.Paulo e editor do boletim online Filme B.

Maria Flor é atriz. Participou de “O Diabo a Quatro” e “Quase Dois Irmãos”. É Letícia, uma das protagonistas de “Proibido Proibir”.

Raquel Pedras é atriz belo-horizontina. Interpreta Rita em “Proibido Proibir”

Francisco César Filho é cineasta. Dirigiu, entre outros trabalhos o curta “Rota ABC” (91) e o doc “Vinte/dez” (01), com Tata Amaral.

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