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A velha escola

por Braulio Lorentz e Rodrigo Ortega

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Adriano Falabella é "aquele cabeludo do programa 'Alto-Falante' da Rede Minas/ TV Cultura". Também conhecido pelo emblemático rótulo de "Enciclopédia do Rock", o sujeito lembra datas, nomes completos e detalhes de cada artista, da mesma maneira trôpega com a qual apresenta o quadro sobre bandas do “verdadeiro rock”.

No melhor estilo gonzo, antes de entrevistá-lo, bebemos no gargalo uma garrafa de Vinho Chapinha Espumante quente (?!). Dose suficiente para entrar no clima dos monólogos do Enciclopédia, mas segurar a onda do cara quando, por exemplo, ele se levantou querendo brigar com um sujeito da mesa ao lado.

Durante mais de duas horas, entre cervejas e interrupções dos vendedores ambulantes, dos devaneios do entrevistado e da parada pra ir ao banheiro de um dos entrevistadores, conversamos sobre a carreira e as opiniões de Falabella. Ouvimos, principalmente, as idéias dele de que nas décadas áureas do rock’n roll tudo era bem melhor do que hoje.

Pílula Pop: Como e quando foi seu primeiro contato com a música?

Enciclopédia do Rock: Comecei a ouvir música nos anos 60. Foi o tempo das maiores bandas, os clássicos do rock: Beatles, Rolling Stones, The Hollies, Swing Blue Jeans, Jerry and the Peacemakers, The Four Mosts. Tudo calcado na beatlemania. Os ingleses eram feras mesmo, mas o rock teve inicio nos EUA, vindo do blues dos negros. O Muddy Waters (músico norte-americano) disse um dia: "O blues teve um filho, puseram o nome dele de Rock n' Roll".

Pílula Pop: E o intercâmbio das bandas inglesas com os Estados Unidos?

Enciclopédia do Rock: Os negros americanos não tinham chance de tocar no rádio, a coisa teve que atravessar o Atlântico através dos marinheiros, que levavam dos portos americanos para os ingleses os discos de blues. Daí vieram os Animals e aquelas bandas de blues britânico como Graham Bonne Organization, Chris Farloui. Os americanos não conheciam o rock n' roll, e sim Elvis Presley, um cara branco, lindo e maravilhoso. Os crioulos não tinham chance, então, foi preciso que os Beatles e Rolling Stones regravassem as músicas dos caras. Mas vamos falar de mim, acho que o que vocês querem ouvir é isso... (risos)

Pílula Pop: Como surgiu a oportunidade de trabalhar com música? Você antes trabalhava com animais, não é mesmo?

Enciclopédia do Rock: Eu comecei trabalhando com cães, eu tinha uma Pet Shop. Adoro animais... Sou todo animal! (risos) Mas a música falou mais alto, em 78 um amigo meu, Cacá Duarte, da Rádio Del Rey - 98 FM, me disse: "Você tem tantos discos cara, você e seu irmão deveriam ser programadores da rádio". A gente resolveu tocar só raridades, uma gama de bandas que vinha surgindo na época e ninguém conhecia aqui em BH. O programa durou oito meses e não deu ibope. Continuei então com minha Pet Shop. Até que, em 1984, foi fundada a Rádio Terra - 99,9 FM. Ela fez história em Belo Horizonte. Fui convidado pra participar dessa rádio que era de propriedade do Roberto Carlos. Ele mesmo, o cantor. O cara veio aqui em BH, depois de conseguir uma concessão de FM, fundando a rádio em sociedade com os donos da Del Rey.

Pílula Pop: E como foi topar com o Rei Roberto Carlos?

Enciclopédia do Rock: (Risos) Ele chegou e falou o seguinte, eu me lembro muito bem: "Olha, aqui podem tocar tudo de Rock n' Roll, mas não me toquem, por favor".

Pílula Pop: Como era a programação musical de rádio naquela época?

Enciclopédia do Rock: Em 83 e 84 só existia o Barão Vermelho. O governo mantinha uma onda de 50% música nacional e 50% internacional. Olha que coisa babaca... Eles ficavam de olho. Como não tinham bandas de rock e ninguém tinha os vinis da época, começaram a tocar os discos das bandas do começo dos 80, os Smiths, Duran Duran com "Save a Prayer", e eu amo essa música. Todos pensam que eu sou só rock n' roll, mas eu gosto de musica clássica, jazz, blues, bossa nova... e de Duran Duran.

Pílula Pop: E o seu trabalho de programador da rádio Terra?

Enciclopédia do Rock: A radio Terra fluiu e foi um ícone da juventude de Belo Horizonte na década de 80. Entrei por acaso na locução do rádio, eu ficava lá batendo minha máquina, não tinha nem computador na época. E em um belo dia o diretor, meu querido José Augusto França Queiroz, olhou pra mim e falou: "E esse cabeludo aí?". "Aqui, você tem disco na sua casa?", e eu respondi: "Eu tenho três mil, quatro mil discos". “Mas você pode programar e também entrar pro ar.”. "Aaaaah, sei não... vão arranhar meus discos". Levei uma pilha com uns 50 vinis e ele não conhecia nenhum. Na verdade o diretor não conhecia nada. Daí eu comecei a colocar Lynyrd Skynard, Jane's Gang, só bandas inusitadas. O programa cresceu.

Pílula Pop: Quando você saiu da Terra?

Enciclopédia do Rock: De 85 a 87 apresentei um dos maiores programas do Brasil, “O rock que a terra não esqueceu”. Mas a rádio Terra começou a entrar em decadência. Surgiram algumas dissidências. Eu caí fora e fui pra 107 FM, que foi comprada pelo Colégio Promove. A estréia foi em janeiro de 1989, com o programa “Rock N' Roll Crazy”. Era uma miscelânea de sons, fazíamos os chamados blocos musicais, sempre dando o toque da data de nascimento, do nome dos caras, datas. Mas ainda não tinha o apelido de enciclopédia do rock. Tinha também o Tunderbox, que era na quarta-feira à meia noite, contando a história de uma banda.

Pílula Pop: E o Enciclopédia do Rock?

Enciclopédia do Rock: Em 94 a direção da radio mudou, e me sugeriram o seguinte: “Você tem tantas datas que mais parece um livro. Por que não um programa chamado Enciclopédia do Rock?” Não foi idéia minha, foi de um cara lá da 107 FM, de quem eu nem lembro o nome. Denominaram assim, não estou aqui tirando onda, eu particularmente não gostei no começo, não sou enciclopédia de nada. Sou um cara humilde, fico sempre na minha. Enciclopédia era demais pra mim... Comecei, então, na 107 FM, um mini-programa de duas em duas horas, das oito à meia noite, falando detalhes sobre uma banda, uma música. Começou e não parou mais. O início foi assim...

Pílula Pop: Como o Enciclopédia foi parar no Alto-Falante?

Enciclopédia do Rock: A coisa cresceu tanto que em 1996 o Terence Machado me convidou mui espetacularmente (risos): "Você quer fazer na televisão?" Já vivo isso há tanto tempo, vou te contar uma coisa: foi muito fácil fazer televisão, porque o grande lance é o rádio. A grande escola de qualquer comunicador é o radio. Chico Anysio, Jô Soares, Sílvio Santos, muitos deles começaram no rádio. Quando você aprende a falar naquela latinha, que é como a gente chama o microfone... Quando você fala pra alguém e ninguém te vê e apaixonam pela sua voz, é uma coisa mágica. A televisão hoje é uma merda, um lixo! A televisão hoje é uma babaquice, o Brasil virou uma babaquice. Graças a Deus eu tive a minha escola no rádio.

Pílula Pop: Como é sua relação com os novos artistas?

Enciclopédia do Rock: Se é rock, eu sempre dou força pra todo mundo: tenho o orgulho de ter sido o primeiro a tocar Pato Fu no rádio, Sepultura, Jota Quest, Virna Lisi, Overdose e uma gama de bandas que passaram na minha mão. Eu dava chances para um cara que gravada uma fita demo de death metal ou black metal. Eu sempre dei força, pois o rádio é o meio de comunicação que se move. Você tá no carro dirigindo e pode ouvir o rádio. Pode estar pintando a parede e ouvindo o rádio. Tá ouvindo a música? É áudio, não é visual, a TV veio pra avacalhar tudo. Gente que não tem nada a ver, sem talento sabe? Qualquer um entra na televisão... "Eu quero ser artista". Ridículo, pastoso, enlatado. Estou aqui brigando pelo talento, não pelo dinheiro, dinheiro todo mundo tem vontade de ganhar.

Pílula Pop: E a música atual?

Enciclopédia do Rock: No Brasil qualquer um toca... Eles se olham no espelho e dizem: "mamãe eu quero uma guitarra, eu quero ser artista." Letras ridículas, bandas sem raiz de nada e se acham rock. Estão estrupiando a palavra rock. Eu sou um roqueiro e amo a música, desde a música clássica, medieval, renascentista. Eu também sou uma Enciclopédia da Bossa Nova... Aprendi a tocar bossa nova nos anos 60 e gosto muito de Nara leão, Roberto Menescal. O dia em que João Gilberto, o papa da bossa, nasceu foi dia 10 de Junho de 33, em Juazeiro - BA. Mas, como estava falando, hoje virou uma bagunça. Estão misturando jiló assado com morango e chantilly. Não pode...

Pílula Pop: Não gosta dessa mistura de estilos?

Enciclopédia do Rock: Hoje o cara fala assim "Porra, minha influência é hip hop, Led Zepelin, Beatles e Los Hermanos! Cara, eu amo." Eu acho isso uma chacoalhadeira que é um terror, ninguém sabe mais de música. Vai escutar Beethoven, vai escutar Bach. Neguinho chamando de dinossauros do rock o Led Zepelin, Beatles. Eles não têm milhões de anos... Vamos chamar de dinossauro da música o trovador medieval, o Beethoven, o Joan Sebastian Bach, que nasceu em 1685, e morreu em 1750. Cego, escrevendo altas coisas. Beethoven nasceu em 1770 e morreu em 1826, surdo e compondo. Hoje está terrível qualquer letrinha deste pseudo-pop rock nacional! São letras ridículas que a galera engole. É algo como "toma aí o que eu vou vomitar agora", é como no caso da TV. Só que eu não engulo. Não sou crítico musical, não sou nada.

Pílula Pop: Você nunca quis ser crítico?

Enciclopédia do Rock: Eu sou radialista, músico e apresentador de televisão. Jamais serei crítico de música. Eu sempre falei e vou falar de novo: vou fazer um programa pra criticar os críticos. Eles nunca foram criticados. Os caras se acham no pedaço pra falar que tal disco é um lixo, mas eles são ridículos. Noventa e nove porcento deles nem sabem onde é um dó maior. Crítico teatral que nunca foi ator, ou seja, é um frustrado. O crítico de cinema nunca foi um ator de cinema, ele é simplesmente um frustrado. Claro que existem exceções. Mas crítico musical que não foi músico? Me mostre um, pelo menos um que saiba onde é um dó maior no piano e um ré maior no violão. Não sabe tocar nada. Crítico é aquela pessoa que quero criticar. Sou apenas um simples apresentador discófilo, beatlemaníaco, rock’n rollmaníaco e amante da boa música.

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