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Se Kurt Cobain não era grunge...

por Braulio Lorentz

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Diego Ferrero, o vocalista do NX Zero, não é emo. Ele empresta sua voz para duas das canções mais tocadas do ano, “Razões e Emoções” e “Além de Mim”. Di, como é conhecido, detem a maior franja do pop brasileiro e respostas articuladas para nossas perguntas. Ele conta que não está nem aí se baixam as músicas de sua banda. Para ele, a Internet deixa de ser aliada apenas em casos como os dos fakes “que falam um monte de merda no Orkut”.

Elogios ao Calypso, Babado Novo e Armandinho não são, segundo ele, gratuitos. Tudo tem um destinatário bem definido: a galera que é fã do NX Zero e é “cabeçuda de vez em quando”. As parcerias com Rick Bonadio, Nelly Furtado, e as bandas Fresno, Forfun, Hateen e Moptop também são comentadas. Esses quatro grupos, com o NX, participam do “MTV Ao vivo – Cinco bandas de rock”.

Mesmo sendo tão ampla (ou justamente por isso), essa é a definição preferida. “Nós somos uma banda de rock”, resume Di. “Kurt Cobain nunca se considerou um grunge, e é o maior de todos os tempos”, compara. Negar é o primeiro passo antes de não se incomodar com um rótulo. De acordo com o vocalista, emo nada mais é do que “o jeito mais fácil de chamar essa galera que está vindo”. Galera da qual o NX Zero faz parte.


Nx Zero depois do bronzeamento artificial

Plula Pop: Vamos começar falando do clipe “Apenas um olhar”, que foi quando tive o primeiro contato com a banda. Foi com esse vídeo que houve o contato com o Bonadio [produtor musical] ou ele tinha visto algum show? Houve uma mobilização com os fãs para colocá-lo no Disk MTV? E você fala que o videoclipe é muito ruim, você acha mesmo?

NX Zero: A qualidade, a câmera, o tratamento, não são dos melhores não. Foi o melhor que deu pra fazer, mas é um clipe tosco. Mas a expressão e o significado que ele teve pro NX Zero, e pra outras bandas... Esse clipe abriu porta pra muita banda. Ele foi um clipe independente que ficou em primeiro na MTV “mó cara”. Segundo os caras da MTV, isso só aconteceu com Raimundos. O Rick Bonadio já conhecia a banda, mas esse foi um grande passo. Ele viu o clipe lá, curtiu pra caramba. Mas já conhecia, as bandas já falavam da gente pra ele. Os caras do CPM 22, do Hateen trocavam uma idéia com ele disso. Esse clipe ajudou muito. A banda já tinha quatro anos e pouco de estrada. Foi a grande parada. Foi meio surreal.

Plula Pop: Vocês já tinham a mesma formação de hoje?

NX Zero: O NX teve várias formações...

Plula Pop: Foi publicada uma matéria na revista Bizz [com declarações do fundador da banda, Yuri Nishida]. Eu queria saber então de você como é que foi esse começo contado na reportagem.

NX Zero: Na verdade isso é tudo marketing. O NX já teve várias formações. No primeiro CD, Diálogo, o único cara que não estava é o baixista, Caco. Era outro cara, esse daí que saiu [Yuri Nishida] e montou uma banda que se chama Granada. Tinha outro também, que montou uma chamada Dossiê [Philip, o primeiro vocalista do NX Zero]. Cada um seguiu seu caminho. Eu tinha outra banda e os caras me chamaram pra entrar faltando uma semana pra gravar o Diálogo, que era independente. Eu gravei o disco inteiro. Umas quatro músicas são minhas e eu ajudei com as letras. Depois que a gente lançou esse CD que começou a rolar mesmo.

Plula Pop: Foi pela Urubuz né?

NX Zero: Sim, pela Urubuz Records, que é um selo que tem pouca expressão. Na verdade as bandas independentes não sabiam como gravar CD e o cara ia dar uma força pra elas. E aí a gente lançou o disco em 2004 e as coisas começaram a rolar devagarinho.

Plula Pop: O mais novo projeto de vocês é o “MTV Ao vivo – Cinco bandas de rock”. De fora a gente vê que não tem liga entre as bandas. O Moptop tem um estilo muito diferente e o Hateen está na estrada há mais tempo... Parece que fica uma turma do ForFun, Fresno e vocês, e as outras duas bandas meio de fora. Dentro do projeto você percebe isso?

NX Zero: Você sabe que não tem? [pergunta afirmando] Os caras do Hateen parecem que tem a nossa idade, são uns moleques. O Moptop, apesar da música ser um pouco diferente, ser um rock mais moderno, mais na pegada dos Strokes... A gente ficou muito amigo. Mas foi no DVD, a gente não se conhecia antes. Mas o Fresno, ForFun e Hateen, apesar do Hateen já ter mais estrada, a gente já tocou muito em pico muito tosco, em lugar muito zoado. Isso que foi louco... A gente gravou um DVD pra MTV um dia... Como as bandas têm expressão, cada uma na sua pegada, a MTV quis registrar isso. Não é uma coisa de divulgação. Tem um single só, que é o do Fresno, mas eles vão lançar CD daqui a pouco. É mais pra dar uma registrada nessa cena que está começando.

Plula Pop: Você disse que “Calypso é uma puta banda”. Você também falou que “Jeito Moleque tem um som bom”. E vocês tocaram com o Armandinho, no Estúdio Coca-cola. São artistas muito diferentes. O público de vocês deve ficar meio assustado. Fica se perguntando: “Calypso é bom? Como assim?”

NX Zero: Eu falo bastante isso, é pra galera abrir a cabeça. Porque tem galera que eles não...

Plula Pop: Mas você ouve Calypso em casa?

NX Zero: Não escuto Calypso! O que eu falei foi o seguinte: Calypso é a maior banda do Brasil, é a que faz mais show e vende CD. Mais que Ivete Sangalo. E eu respeito muito eles por isso. Os caras têm uma correria. E se eles estão aí, é porque eles são bons mesmo. Não é o meu estilo de som, eu não escuto em casa. Mas eles são a melhor banda do Brasil nesse sentido. Eles fazem tudo sozinhos, não têm gravadora. Todo mundo procura eles na mídia. Eles têm a maior naturalidade. Eu sei que eles têm uma produtora lá e eu fui atrás pra saber como funciona. Porque quem sabe um dia o NX precise... Sei lá, uma hora vai acabar o CD... A gente tem que se virar. Eu gosto de saber como cada um está fazendo seu trampo. Foi isso que eu falei: eles fazem muito bem o trampo deles. Só falando do Armandinho: foi uma parada muito louca. Foi pra abrir a cabeça da galera também.

Plula Pop: Mas eu acho que “CPM 22 com Babado Novo” vai abrir a cabeça mais ainda...

NX Zero: Vixe... Mas ficou legal pra caralho! Eu estive na gravação. Babado Novo acaba sendo CPM, é a mesma coisa no fim das contas. Você pega as músicas do Babado Novo e coloca uma guitarra com distorção e... Beleza! Acaba dando uma liga. Eu não estou falando mal do CPM não, é bom isso. A galera é foda. É cabeçuda de vez em quando. Então, com o Armandinho é a mesma coisa... Ninguém esperava. O cara tem uma veia rock n’ roll legal. Ficou animal.


Babado Novo toca com CPM que toca com NX Zero que toca com Armandinho

Plula Pop: Vocês foram a “Banda revelação” do Prêmio Multishow. Vocês esperavam isso? Eu vi vocês no “Bem, Amigos” [programa do Sportv], quando o Arnaldo César Coelho elogiou o agradecimento de vocês ao receberem o prêmio...

NX Zero: (Risos) Ah é? Você viu? Era totalmente inesperado pra gente...

Plula Pop: Quem estava concorrendo mesmo?

NX Zero: Foi a gente, Papas da Língua, Maskavo... [Moptop e Céu completam a lista]

Plula Pop: Poxa, mas Papas da Língua tem tipo 15 anos de banda...

NX Zero: Mas estourou pro Brasil inteiro agora... Mas os caras estavam bombando muito, com aquela música lá da novela. Por isso a gente pensou: “Ah! Deve ser deles né”. Na hora que a gente ganhou, foi lindo. Vi todas as bandas lá. Os caras do Paralamas vieram falar comigo depois...

Plula Pop: Antes de assinar com a Universal, o que cada um da banda fazia ou pretendia fazer? Vocês se dedicavam 100% à banda? Vocês estudavam?

NX Zero: Todo mundo, menos o Gee [o guitarrista Gee Rocha] estudava. Ele só trabalhava. Só que mesmo antes de assinar, uns oito meses antes pra ser mais exato, todo mundo largou tudo pra ficar com a banda. Sem nenhuma certeza. Eu fazia faculdade de Publicidade, o Daniel [o baterista Dani Weksler] fazia Ciências Socias, o Caco [o baixista Caco Grandino] fazia Publicidade também, e o Fi [o também guitarrista Fi Ricardo] fazia Rádio e TV. Todo mundo trancou. Eu nem fazia direito também, porque não era o que eu queria fazer.

Plula Pop: E você usa na banda alguma coisa que você aprendeu na faculdade?

NX Zero: Nada!

Plula Pop: Mas mesmo depois de assinar vocês continuam com o esquema de Orkut, Fotolog e tal. É impressionante a resposta que vocês têm. Vale a pena manter isso mesmo depois de assinar, né?

NX Zero: Lógico que vale, ainda mais que a Internet é uma grande aliada. Na verdade é uma faca de dois gumes, porque é uma aliada e ao mesmo tempo te atrapalha em algumas coisas. Não no sentido de download, mas as coisas que inventam... Tem mil fakes no Orkut, que não são a gente. Que falam um monte de merda lá, mas beleza... Tem mais lado bom do que lado ruim. Porque você fica tão próximo do seu público, o feedback é tão rápido que você coloca lá e já sabe se gostaram ou não, entendeu? E isso daí é o futuro, não adianta fugir disso não.

Plula Pop: Mas tem um recado lá num pop-up quando abre o site de vocês que fala da “pesquisa e do uso legal de músicas”. Vocês também tiraram as músicas do tramavirtual. Mesmo assim, tudo bem as pessoas baixarem as músicas de vocês?

NX Zero: Lógico. Ela vai achar a música em vários lugares: tipo emule, essas coisas... A gente tirou do tramavirtual porque a galera tem que ir atrás. Eu baixo música em casa, escuto. Baixo umas três músicas do CD, mas gosto de ter o disco em casa, porque acaba sendo uma arte mesmo o negócio. É o seu modo de expressar. Como um cara pinta um quadro, a gente vai lá e faz o CD. Então, ainda mais se for nacional, eu acho muito louco se a galera puder e ir lá comprar. Se pesquisar tem lugar que é legal e é barato.Tem lugar que é caro pra caralho e não vale a pena. Pra quem quiser, e não conhece, a gente fala também do download legal. Mas cada um faz o que quiser. A gente só está falando ali do que a gente pensa.


"Cada um faz o que quiser", eles fazem sucesso

Plula Pop: Você gravou uma das novas versões da música “All Good Things” com a Nelly Furtado. Foi você que escreveu a letra? Como foi fazer?

NX Zero: Foi muito louco. Quando surgiu o convite eu falei: “Nooossa! Essa vai ser a mais diferente de todas”. Não sei se você sabe, mas foi um artista de cada língua: inglês, espanhol, português e as outras línguas lá da Europa: italiano...

Plula Pop: E um dos compositores da música é o Chris Martin, né?

NX Zero: É, e tem produção do Timbaland. A Nelly Furtado compôs também. Ela, Chris Martin e tem mais um compositor que eu não sei o nome [são mais dois: Nate Hills e Tim Mosley]. E aí eu tive que fazer a minha parte: melodia, refrão em português. E no final do ano parece que ela vem fazer um show... Eu falei com ela pelo telefone. Ela é supersimpática, superlegal...

Plula Pop: Falou em português, né?

NX Zero: Ela fala em português, mais com sotaque de Portugal, mas é fluente.

Plula Pop: Eu vi um vídeo de vocês tocando aquela música “Vai tomar no cu” com o ForFun... Como foi isso, foi do nada?

NX Zero: Um dia a gente tava “panguando” na MTV, fazendo nada. Aí o Rafa, que era VJ, falou: “Vamos gravar uns vídeos aí”. A gente começou a dar um role lá e começou a cantar o “Vai tomar no cu” [ele canta o refrão]. E daí colocou no MTV Overdrive e no Youtube.

Plula Pop: E está bem acessado.

NX Zero: Essas coisas rendem...

Plula Pop: Só pra fechar, você deu uma declaração que “Essa história de emo já passou do limite”. Mas é normal rotular o NX Zero assim... É natural, tem que por uma palavra pra ficar mais fácil de definir. Isso incomoda?

NX Zero: Não é que incomoda...

Plula Pop: Mas é que, quando li sua declaração, pensei que você estivesse puto...

NX Zero: Não, eu não estava puto. É que cada pessoa vê o emo de um jeito. Você [aponta pra mim] vê de um jeito e você [aponta pro assessor de imprensa] vê de outro, e eu vejo de outro. Não tem uma definição do negócio.

Plula Pop: Pra você o que é?

NX Zero: Eu vejo emo não como um movimento gay. Não é um monte de viadinho que só toca música de um jeito... Eu acho que o emo é o jeito mais fácil de chamar essa galera que está vindo. É pro público se identificar. Como tinham os grunges, punks, metaleiros... Os caras [do punk] falavam: “Esses filhas da puta, os grunges”. Sempre foi assim. O Kurt Cobain nunca se considerou um grunge e é o maior de todos os tempos. Tem gente que é muito alienado. Principalmente a mídia que está divulgando de um jeito muito errado. O cara fala: “essa banda é emo, então eu nem vou ouvir”. Você deixa de ouvir um som, antes de tirar sua conclusão. Esse é o único problema. O preconceito está na pessoa, não está na música. Por isso que esse negócio já deu. É mais fácil falar pra você que nós somos uma banda de rock. Agora a gente tem uma ascensão legal, está aparecendo na mídia. Queira ou não, os caras vão ouvir nosso som. E aí vão tirar a conclusão: se gostam ou não.

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