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O (des)encantado

por Daniel Oliveira

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Da última vez, eu disse que Jorge Furtado colaborava em nove de cada dez roteiros brasileiros; que fazia coisas bacanas na TV; e era uma fonte inesgotável de cultura pop. O lançamento de “Saneamento Básico, O Filme” e uma nova conversa dão mais algumas dicas de como ser um cineasta legal no Brasil, que você não encontra nem nos melhores manuais de direção:

1- Preocupar-se com a fossa do cinema nacional. “O ano inteiro tem blockbuster, não é uma questão de época. É que as pessoas não têm saído de casa para ver filme brasileiro”.

2- Rastrear diariamente os blogs atrás de comentários sobre seu filme no Google.

3- Tenha sempre dicionários à mão. Muitos. Eles ajudam.

4- Seja um cara família e não descuide de seus filhos...

5-...nem quando um jornalista chato ocupa sua hora do almoço com uma entrevista semi-interminável.


“Criador e criatura” ou “dirigindo o diretor”.

Pílula Pop: O cinema brasileiro hoje tem quantidade, mas a qualidade e o público têm sido inconstantes, especialmente em 2007. Ele está na fossa?

Jorge Furtado: Ele não está encontrando o espectador. Ou vice-versa. Por 10 anos, o cinema nacional cresceu sem parar – 0,1% de público em 1993 a quase 23% em 2003. Só que desde então, só está caindo e, em 2007, vai cair ainda mais. No ano passado, foram 70 filmes; neste, vai aumentar. Só que quando, desses 70, 60 fizeram menos de 100 mil espectadores, temos um problema. É muito pouco.
Cinema brasileiro continua um gênero. Há um público que vai ver “cinema brasileiro”. Eu rastreio blogs diariamente no Google e vejo que as pessoas não gostam de cinema nacional. Elas dizem “Gostei de Saneamento, apesar de ser brasileiro”. Não acho que se trate de qualidade. “2 filhos de Francisco” tinha defeitos e ainda assim fez sucesso, devido às suas qualidades técnicas. Precisamos de uma diversidade maior, acho.

Pílula Pop: “Saneamento” é um filme diferente dos seus trabalhos anteriores, com uma gama maior de personagens. Como foi dirigir o grande elenco?

Jorge Furtado: Foi muito diferente, é um filme feito para atores. Já tinha o elenco em mente quando escrevi o roteiro e convidei todos em 2005 para conseguir agendar o grupo. Não consigo pensar em mais ninguém naqueles papéis. Ensaiamos bastante e construímos cenas e personagens juntos. Já tinha trabalhado com todos antes. Isso me possibilitou filmar com quadros abertos e me apoiar na marcação dos atores. Era difícil. Às vezes, tínhamos três, quatro, até cinco deles em cena – e falando! Mas valeu a pena. Uma senhora me disse que gostou do filme porque “a gente pode olhar para quem escuta” (risos). E ela está certa – na comédia, às vezes é mais importante a reação ao que é falado do que a própria fala.

Pílula Pop: O filme...

Interrupção 1
Jorge Furtado: - Daniel, tu tá me escutando? A bateria do telefone tá piscando...se a ligação cair, tu liga para o número...ok?
Daniel: - Beleza. O filme...[tu, tu, tu...]
Ligação 2
Daniel: - Jorge?
Jorge Furtado: - Opa, Daniel. Esse agora não é sem fio. Vamos continuar.


O diretor faz uma proposta à grande estrela Cilene Seagal. De trabalho.

Pílula Pop: O filme é metalingüístico, mas brinca com isso de forma bastante didática. Você usou sua experiência como professor em cursos de roteiro e direção na criação das cenas?

Jorge Furtado: Muito, nas frases como “o aroma das corticeiras em flor”...Giba [Assis Brasil, montador do longa] e eu colecionamos frases infilmáveis dos roteiros que a gente recebe. Peraí que eu vou abrir o arquivo aqui no computador...olha só: “desesperada, Fernanda faz um enorme esforço para não perder a cabeça”. Ou melhor: “Eles não percebem, mas estão se envolvendo emocionalmente”. Se nem eles percebem, como o público vai perceber?! (risos).
Fora isso, tem as discussões absurdas, quando eles ficam três horas decidindo o nome do cientista. Ou aquela do “assusta-se ou se assusta”. A Fernanda e o Wagner dizem isso 17 vezes. Eu contei. Teve uma sessão em Caxias que eu quase pedi para o povo parar de rir dessa cena porque eles estavam perdendo o resto do filme!

Pílula Pop: Sobre isso, como foram as filmagens? Para o público, é quase impossível parar de rir durante o filme. A equipe e o elenco conseguiam se concentrar?

Jorge Furtado: O Jacob [Solitrenick, diretor de fotografia} ficava roxo para rir, só que não podia – ele estava operando a câmera. O resto da equipe buscava um canto, se escondia atrás dos equipamentos. O elenco riu nos ensaios, então durante as filmagens, já tinha passado essa fase. Eu tinha que me segurar em alguns momentos para não comprometer o áudio, como na cena do “esgoto a céu aberto na Noruega”. Aquela história do cocô viajando no rio para a Suécia não estava no roteiro, o Paulo [José] inventou na hora. Eu não consegui e disparei a rir.

Pílula Pop: A Marina, o Joaquim e o Zico parecem ser pedaços de um alter ego seu. É tudo ficção ou esse é um filme mais pessoal?

Jorge Furtado: Todo personagem é misto de memória, observação e invenção - no fim, nem eu sei mais o que é o quê. A venda da moto é emblemática – já rifei torradeira para fazer filme, tem gente que vendeu casa, terreno. Meu maior sacrifício foi no Ilha [das Flores]. Eu tive que recortar meus livros, minha coleção Nosso século. Até hoje, olho para os buracos nela e penso “meu Deus, cortei um Davi do Michelangelo aqui”. Dói.
Aquela cena em que o Joaquim sai no começo da exibição é totalmente eu – não consigo ficar no início da sessão de meus filmes. E o menino com o isqueiro lendo “Odisséia em HQ” também. Quando eu tinha 12 anos, vivia com um isqueiro. Não fumava, mas achava importante ter um. Podia ser útil, né? Vai saber. Mas no final, vira tudo mentira.

Pílula Pop: O elenco...

Interrupção 2
Jorge Furtado: - Peraê...(troca de telefone, a voz fica longe) Alô? Ah, já? Tudo ok? Ótimo, me liga à noite, então. Beijo, tchau. (volta para a minha ligação). Oi, Daniel? Era meu filho. Acabou de chegar em São Paulo. Foi de TAM. A gente fica...já viu, né?
Daniel: - Claro, nossa...


Pai que é pai esconde a cabeça no chapéu e deixa o filhão aparecer no fundo...

Pílula Pop: O elenco todo está muito bem, mas Paulo José parece estar um degrau acima dos meros mortais...

Jorge Furtado: É que ele está...

Pílula Pop: ...Como se dirige Paulo José?

Jorge Furtado: Primeiro você o convida. Antes de escrever o papel, queria saber se ele podia. E o Paulo é o mais menino de todos: dirige o [Grupo de teatro] Galpão em BH, faz mostras dos filmes dele em Paris, comprou uns raladores aí em Minas e tá fazendo umas luminárias agora; tem um estúdio de som e dois pianos em casa... Se ele topar, vocês conversam sobre os personagens – ele sugere muito, também é diretor. E é isso. Daí, você tenta não atrapalhar.

Pílula Pop: Vi um pouco de Woody Allen e “Noite americana” no “Saneamento”. Quais foram suas referências cinematográficas para esse filme?

Jorge Furtado: Groucho Marx, [Ernst] Lubitsch, Billy Wilder – grandes diretores de comédia falada, dialoguistas. Escutei todos os programas de rádio do Chico e do Groucho [Marx] – a quantidade de piadas por centímetro naqueles roteiros é impressionante. Considero “Saneamento” uma comédia humanista – o Domingos Oliveira chama de comédia ibseniana. Os personagens são ridículos, mas têm desejos reais - você gosta deles. E há também um tom político - então para os atores, sugeri o cinema cubano, o Tomás Gutiérrez Alea e seu “Guantanamera”. E cinema italiano, claro: Mario Monicelli, “Bons companheiros”; [Ettore] Scola, “Feios, sujos e malvados”, “Nós que nos amávamos tanto”, que talvez seja meu filme favorito, uma crônica da sociedade com poesia e tristeza. Gosto da mistura de drama e comédia, em que você chora e ri.

Pílula Pop: Você tem uma certa fixação com dicionários, né?

Jorge Furtado: Tenho. A cena do “Quimera” era um limite do filme, para saber se aquele objetivo estranho ia funcionar ou não. E o dicionário ajudou bastante. Mas eu gosto muito, sim. Tenho sempre o Houaiss no computador e eu tô olhando, agora, logo aqui na minha frente, para três prateleiras só de dicionário...

Pílula Pop: Algum...

Interrupção 3
Jorge Furtado: - Só um minuto, Daniel...(a voz fica longe)...tá, um beijo...de noite, eu tô de volta, viu?...(volta à ligação)...Pronto. Era minha filha, tava saindo...
Daniel: - Eu tô te atrasando, né? Juro que já tô acabando...


Jorge, ao lado de Fernanda Torres e Deus, ou Paulo José.

Pílula Pop: Algum filme nacional ou internacional cujo dinheiro deveria ter sido usado em obras de saneamento básico?

Jorge Furtado: (risos). Metade do cinema americano...imagina se o Brasil é invadido por marcianos no dia sete de setembro e o Lula resolve pegar uma aeronave e lutar contra eles? “Independence day” é isso! (risos) Futebol é mais complexo que esse lance “Transformers”: robô do bem, robô do mal... No futebol, pelo menos você não sabe o que vai acontecer. Hollywood virou uma coisa inútil, infantil. Então, só o que presta é o infantil mesmo: os filmes da Pixar, por exemplo. Há exceções, como o Scorsese, o Woody Allen, a Miranda July (Eu, você e todos nós). Os únicos que eu estou com expectativa para ver agora é o filme do [Sombras de] Goya do Milos Forman, com roteiro do Jean Claude Carrière...e “Os Simpsons”, claro, vou ver sem dúvida.

Pílula Pop: Um livro que você indica, um filme bom que você viu recentemente, o disco no seu CD player.

Jorge Furtado: O livro é “Os desencantados”, do Budd Schulberg. Ele está vivo, com 90 anos, é um grande roteirista – escreveu “Sindicato de ladrões” - que foi indicado por um estúdio para escrever um roteiro com o F. Scott Fitzgerald em fim de carreira. Ficou alguns dias trancafiados com ele e, apesar dos nomes dos personagens serem diferentes, o romance é baseado nessa experiência. O filme é “A noite do iguana”, dirigido pelo John Huston em 1964, com a Ava Gardner. É baseado em uma peça do Tennesse Williams. Vi três vezes, fui atrás da peça, li a biografia da Ava Gardner e reli a do Huston para ver o que eles falam do filme. E o CD que eu estou ouvindo é Recuerdos de Asunción 443, do Jorge Ben Jor. Tem uma música chamada “Duas mulheres” que é maravilhosa.

Pílula Pop: Logo no início de “Ilha das flores”, você diz que “Deus não existe”. É algo bastante pessimista e, agora, no fim de “Saneamento”, o texto já é ”A natureza é bela”, num tom bem diferente. Esses quase 20 anos te deixaram mais otimista?

Jorge Furtado: A frase do “Ilha” tem vários sentidos. A primeira coisa que eu digo no curta é “Esse não é um filme de ficção”. E o público acredita porque ele sempre crê na primeira coisa que você diz em um filme. Depois, vem “Existe um lugar chamado Ilha das Flores”, que é uma afirmação verificável – portanto, verdade também. A terceira é “Deus não existe”, que é uma frase de outro gênero e torna tudo questionável. É para dizer que aquela é uma história humana e não adianta esperar por ajuda externa. Já no “Saneamento”, a frase é do Dostoiévisky e, se o filme tem uma legenda, uma moral, é ela. O mundo está um lugar terrível e só o que pode nos salvar é a beleza – da natureza, da arte. Aquilo que você apreende de uma pintura, uma fotografia. É a cena em que a Marina vê o vídeo com a trilha da Billie Holiday. A função do cinema, se é que ele tem uma, é essa: levar Billie Holiday para a galera (risos).

Pílula Pop: Para finalizar, quais são os planos futuros?

Jorge Furtado: Agora, eu tenho o ensaio de um peça infantil que eu escrevi e eles tão me esperando...

Pílula Pop: Tô te atrasando, né? Foi mal...

Jorge Furtado: Beleza. Tem um episódio da nova temporada da série “Antônia” – já tinha escrito um no ano passado. E eu fiz um curta depois do “Saneamento”, chamado “Rummikub”, aquele jogo de tabuleiro. O Pedro [Furtado], meu filho, e a Alice Braga estão no elenco com mais três atores. Já tá pronto, só falta mixar o áudio. Só que é um curta americano, vai estrear e passar lá primeiro antes de vir pro Brasil. Longas...só em 2009, provavelmente.

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