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“Se o Cão vier, que venha com a mala cheia”

por Gabriel Gurman
(Entrevista e fotos)

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Renatinho fecha os olhos e canta

Chega de Falsas Promessas é nome do segundo CD do Canastra. Misturando rockabilly, birita, Dixieland, cartas, Western Swing e o que mais vier, a banda carioca formada por Renato Martins (guitarra e voz), Marcelo Callado (bateria), Edu Vilamaior (contrabaixo acústico e voz), Fernando Oliveira (guitarra e trompete), Marcelo Magdaleno (sax alto/tenor e gaita) e Marcelo Serra Grande (trombone) também faz um dos shows mais legais e dançantes da paróquia.

Além de passar pelas canções de seus dois álbuns – o primeiro é Traz a Pessoa Amada em 3 Dias, de 2004 – os cariocas tocam inusitadas e inspiradas covers como “Besame Mucho” e “Back in Black”.

Renato Martins, o Renatinho, nos conta sobre a “escola” Acabou La Tequila, a cena independente, buraco (!) e outras cositas más. É o Canastra contra todas as falsas promessas.

Pílula Pop: As músicas do Canastra remetem ao Dixieland, Bluegrass, Orchestras, MPB, ska, música havaiana, rockabilly, só para citar algumas influências. Há algum tipo de música que não influencie o som de vocês?

Canastra: Basicamente a gente procura como referência música antiga. A gente não costuma ser influenciado por tendências mais recente tipo “rock indie com guitarras” ou música eletrônica. Enfim, a banda se inspira numa estética “vintage”, mas sem purismos. Sempre existiu música bem feita ou mal feita em qualquer época. Nós como ouvintes tentamos não ter preconceito e ouvir de tudo, embora seja duro ouvir certas coisas!

Pílula Pop: A Petrobrás abriu um edital para festivais de música, vocês lançaram o CD pela revista Outracoisa, o CSS e o Bonde do Rolê já se tornaram figuras internacionais e o Autoramas foi citado em uma grande matéria da RollingStone. A cena musical independente deixou de ser uma falsa promessa?

Canastra: Essa tal cena é cada vez mais sólida, mas ainda é cedo pra comemorar. Ainda há muito o que melhorar. Só gostaria de fazer uma distinção: cena musical independente pra mim diz respeito a qualquer artista que tenha uma atitude “independente” em relação a sua carreira e a quem o patrocina. Isto é, gente que corre atrás pra fazer a sua música do seu jeito e sem necessariamente depender do financiamento de uma grande gravadora ou de uma multinacional ou de verba pública ou da ajuda de grandes meios de comunicação. Não gosto quando as pessoas associam cena independente a um tipo de som: bandas de guitarra inspiradas em rock inglês. Pior ainda quando neguinho começa a “criar” uma moda indie do tipo: indie é quem veste All Star e roupa Adidas. Isso é ridículo demais! Com o perigo de virar modinha, tipo grunge. Você conhece alguém que ainda se diz grunge?

Pílula Pop: O Marcello Callado (baterista do Canastra) tocou com Caetano Veloso e ajudou a torná-lo um rocker. O que vocês achariam se o Caetano convidasse a banda toda para colocar o público para dançar? Aliás, ele teria energia para cantar?

Canastra: Um rocker? (risos) Essa foi boa! Não vejo vínculos entre a música do Canastra e a música do Caetano. Mas se um dia fôssemos convidados pra tocar numa mesma noite, não teria problema. Já abrimos shows pro Mr.Catra (funk) e pro Dead Fish (hardcore).

Pílula Pop: Se lhes oferecessem uma boa grana para abaixar os topetes e virar, em vez de uma big band uma boy band, vocês aceitariam?

Canastra: Em primeiro lugar nem todo mundo na banda tem topete. Tem gente no Canastra que nem cabelo tem! Se você está falando em vender a alma ao Diabo, não tenho nada contra. Pelo contrário, se ele estiver nos ouvindo agora pode me procurar com uma boa proposta. Mas tem que ser boa mesmo! Não me vendo por qualquer mixaria não! Então, Cão, se vier, vem com a mala cheia. Chega de falsas promessas!

Pílula Pop: Para quem não sabe, o nome Canastra vem de um jogo de cartas. Vocês realmente gostam de buraco?

Canastra: Gosto muito de um buraco... Já fui bom nisso! Mas um dia a idade chega e você adquire outras prioridades.


A banda ao vivo em São Paulo

Pílula Pop: Vocês não têm novos clipes e o site está meio parado. O que têm a dizer àquelas pessoas que dizem que o Canastra gasta toda a energia no palco e, fora dele, é preguiçoso?

Canastra: Eu diria: “Vão à merda!”. O clipe da gente (“Olhos pra mim”) demorou um ano e meio pra ficar pronto. Foi feito pelo diretor Marcelo Brandão, totalmente na brodagem. É todo de animação e, sem falsa modéstia, é um vídeo do caralho! Quanto ao site, a gente deu mole mesmo, mas ser independente não é moleza! E não rima com preguiça. Estamos finalizando um outro clipe dirigido pelo Leandro Neri. Fizemos um esquema mutirão: chamamos várias pessoas que toparam trabalhar de graça.

Pílula Pop: Em entrevista, o Nervoso disse que o Acabou La Tequila só se tornou “importante” depois de Marcelo Camelo ter reconhecido a importância da banda para a formação do Los Hermanos. Você concorda com isso?

Canastra: Não concordo. Acho que tivemos a nossa importância independente do reconhecimento dele. O Tequila foi importante por que foi uma espécie de escola pra mim, pro Nervoso e pro Marcelo Camelo. E pra outros artistas da cena carioca. Escola é importante. Não é o que dizem?

Pílula Pop: Esse troca-troca entre bandas cariocas como Autoramas, Nervoso, Canastra, Orquestra Imperial e o Kassin, entre todas elas, não pode transmitir a idéia de que vocês estão fechados para os “gringos”?

Canastra: Bicho, esse lance de troca-troca eu não me amarro, não! Não me ligo nessa parada de grupo, galera, movimento, patota, panela... Às vezes, somos incluídos em algum grupinho por algum jornalista e isso é normal. As pessoas vêem você de um jeito que nem sempre corresponde à verdade, a minha verdade pelo menos. Conheço pessoas e me relaciono com elas. Às vezes essa relação musical se transforma em amizade, às vezes não. Acho tudo isso normal! Você não tem um grupo de pessoas com quem você tem mais afinidade? É como no tempo do colégio, todo mundo tem isso.

Pílula Pop: É verdade que, nas turnês, o Edu Vilamaior precisa de uma van só para o contra-baixo dele?

Canastra: O Edu precisa de dois lugares numa van só pro baixo dele. O Marco precisa de dois lugares por causa do cheiro! O Fernando precisa de mais dois lugares na van pra colocar a quantidade enorme de brilhantina e remédios que ele carrega consigo. Eu preciso de seis lugares nessa van pra caber o meu ego e a minha modéstia incrivéis! O Callado quando vai não vai de van, vai de avião. E o Madá chegou atrasado e perdeu a porra da van!

Pílula Pop: E quais são os próximos passos? DVDs? Acústicos? Turnê internacional? O fim da banda e o surgimento de outras seis novas?

Canastra: O próximo passo é tocar mais e mais, principalmente fora do Rio. Divulgar cada vez mais a banda e o nosso segundo CD, Chega de falsas promessas.

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