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A “Princesa” virou esposa

por Braulio Lorentz

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Em seu segundo trabalho, Disco Paralelo, o Ludov mudou. A banda trocou de gravadora e de cidade. A mudança de São Paulo para o Rio durou apenas o tempo de gravação do novo rebento, produzido pelo tarimbado Chico Neves (Los Hermanos, Paralamas e grande elenco).

Há quem diga que, nas novas canções, os ecos do Maybees - banda embrião do Ludov - estão mais acentuados. “Adoro que as pessoas tenham suas teorias e interpretações, mas absolutamente me recuso a entrar nesse tipo de análise”, esquivou-se o guitarrista Mauro Motoki.

As outras respostas, porém, foram sem escapulidas tanto de Motoki, quanto do baixista Habacuque Lima. Eles falaram da saída da Deckdisc para a Mondo 77, das faixas que não entraram em Disco Paralelo ("Sintonia" e "O que eu procurava”, gravada para o adolescente "High School Musical") e do fim da lua de mel com seu maior sucesso, “Princesa”. “Ela ainda é uma boa esposa”, definiu Mauro.


O baterista Chapolin, a vocalista Vanessa e os entrevistados Mauro e Habacuque

Pílula Pop: Como foi o contato com Chico Neves? Quais os discos que ele produziu que vocês mais gostam e que fizeram o Ludov querer ser produzido por ele?

Ludov: Mauro: Ligamos para o Chico para perguntar se ele estava afim. Combinamos que quem ligaria seria a Vanessa, com aquela voz linda dela, pra ajudar na persuasão. Funcionou. Eu adoro o Hey Na Na dos Paralamas. É um dos poucos discos cuja produção, em termos de sonoridade, me chamou a atenção logo de cara. Claro, também tem o Bloco do Eu Sozinho dos Hermanos.

Pílula Pop: A mudança de rotina e de cidade (viajar de São Paulo pro Rio) influenciou no som? E o fato de vocês terem completado 30 anos?

Ludov: Mauro: Gravar no Rio foi determinante para o clima nas gravações. O som certamente foi alterado em função disso. Completar 30 anos, não sei. Nunca mais fazer 20 e poucos é que é dureza.
Habacuque: Acho que eu vinha me preparando há tanto tempo para esses 30 anos que quando chegaram nem notei. Não sinto um peso extra por conta disso. O mundo está sempre mudando e muitas vezes me deparo com coisas completamente novas, ficando aturdido como se eu ainda tivesse uns sete anos.

Pílula Pop: Vocês falam que, neste novo CD, livros influenciaram mais do que discos. Quais livros?

Ludov: Mauro: Quando disse isso não quis dizer que histórias específicas tenham influenciado músicas específicas. Mas sim que tentei mimetizar muitas vezes a maneira de absorver o mundo que os livros trazem, só que em canções. Até lembro quais livros estava lendo à época das gravações, ou das composições, mas não quero destacá-los. Desculpem.
Habacuque: Andei lendo também alguns livros, mas minha memória não me permite lembrar os títulos ou autores a não ser que eu pare em frente à estante com uma caneta e papel. Quisemos dizer que a música muitas vezes é influenciada por outras artes. Todo o nosso consumo diário (de cultura, televisão, comida) acaba invadindo nossa produção musical. E nesse disco isso foi algo que aconteceu intensamente.

Pílula Pop: Já ouvi várias versões, mas gostaria de saber a de vocês. Por que o Ludov saiu da Deckdisc?

Ludov: Mauro: Porque a relação estava ruim. Não houve desavenças, nem brigas com eles, mas sentimos o clima morno demais, sem perspectiva para novos trabalhos. E nós simplesmente não éramos mais interessantes para eles também, financeira ou artisticamente.

Pílula Pop: E como surgiu o interesse da Mondo 77? O que mudou com a troca de gravadoras?

Ludov: Mauro: Já conhecíamos o Gustavo, da Mondo 77, há algum tempo. Mudou justamente o tesão, sentimos que os olhos deles brilham quando trabalhamos juntos.
Habacuque: Agora conseguimos acompanhar de perto tudo o que está acontecendo em relação ao nosso projeto musical. E vendo os resultados positivos cresce também a nossa empolgação. Por sermos amigos antes de parceiros de trabalho, a comunicação é muito mais direta e clara.


"Habacuque, onde você comprou essa camisa?"

Pílula Pop: Ficaram sabendo do fim do Gram e do Som da Rua (ex-companheiros de gravadora)? É ruim ver o fim de bandas que fazem um som de certa forma parecido com o do Ludov e que despontaram na mesma época?

Ludov: Mauro: Não desejo fazer paralelos e comparações com essas duas outras queridas bandas. Não os acho musicalmente parecidos conosco, mas são amigos queridos. O caso do Som da Rua é singular, de uma maneira muito triste, desde a partida do Liô. Sobre o Gram, encontramos o Pagoto e conversamos brevemente, delicadamente, com ele. Ainda não falei com o Sérgio, não sei ao certo o que aconteceu. Pra resumir, sim, é ruim quando bandas boas param.
Habacuque: É ruim, mas acredito que quem faz música boa não pára de fazer música. Banda, conjunto musical, é algo difícil de se manter mesmo. São várias cabeças e corações dependendo de sorte e muita dedicação de todos. Mas torço para que os bons músicos continuem na música.

Pílula Pop: Como na estréia, Disco Paralelo tem uma música cantada pelo Mauro. Sentir esse gostinho de ser vocalista não deixa com vontade de se arriscar mais vezes? Existe algum projeto paralelo com o Mauro como vocalista principal?

Ludov: Mauro: Tudo me deixa com vontade de arriscar sempre. Adoro cantar também, mas não tenho a menor pretensão de tomar a dianteira nos vocais do Ludov, tendo a Vanessa disponível. Sei da importância da voz dela para o Ludov, de seu enorme talento. Apenas gostamos de variar de
vez em quando. Eu, Habacuque e Fabio Piczowski temos a Liga Leve. Os três são vocalistas principais, e já está bom demais.
Habacuque: Liga Leve! Buena Onda!

Pílula Pop: Por que dessa vez o Habacuque não é vocal principal em nenhuma das faixas? Como foi o processo de concepção do encarte (é um dos meus preferidos nos últimos anos)? Por que optaram por não colocar fotos da banda neste disco?

Ludov: Habacuque: Duas perguntas diferentes assim juntas... Dá até pra responder que eu não cantei porque estava pensando no encarte (risos). A gente ficou pensando no que seria a capa um tempão até chegarmos a essa idéia de transformá-la numa possibilidade de capa paralela. As linhas paralelas foram uma maneira simples de encaixar as capas e manter o sentido do nome do disco. Sobre eu não ter cantado, não houve necessidade. Eu estava já bastante entretido com os baixos, e as vozes da Vanessa e do Mauro estavam ótimas nas músicas. Quem sabe num próximo disco? A gente nunca define isso com planos e tal. Acontece de alguém sair cantando e ficar bom. Normalmente a Vanessa (risos).

Pílula Pop: "Sintonia" e "O que eu procurava" não foram incluídas no CD. Por quê? Não seria comercialmente interessante a inclusão, sobretudo da segunda?

Ludov: Mauro: Um grande mérito do Chico Neves, logo que chegamos ao estúdio foi definir que colocaríamos no disco apenas as músicas que queríamos muito que estivessem ali, pelo critério artístico e pelo sentimental, exclusivamente.
Habacuque: No momento da escolha do repertório ficou bem claro que algumas músicas (essas duas inclusive) não fariam sentido dentro do disco. Comercialmente, o bom é se sentir satisfeito com o que apresentamos, e foi o que aconteceu.

Pílula Pop: Há quem aponte que Disco Paralelo é um trabalho muito mais Maybees [banda embrião do Ludov] do que o EP e o primeiro CD? Vocês concordam? Por quê?

Ludov: Mauro: Não concordo, nem discordo. Adoro que as pessoas tenham suas teorias e interpretações, mas absolutamente me recuso a entrar nesse tipo de análise.
Habacuque: Maybees? (risos) Eu estava lá, mas realmente não consigo nem lembrar direito como era. O que eu sei é que naqueles discos eu tocava umas músicas que me pareciam bastante complicadas na guitarra. Neste disco eu toquei um bocado de baixo, e tudo bastante simples, então pra mim como participante não tem nada de Maybees. Agora, se querem ouvir assim, não vou dizer que não é, não é?

Pílula Pop: Já rolou um certo cansaço de "Princesa" ou a banda ainda está de lua de mel com o maior sucesso?

Ludov: Mauro: A lua de mel já passou faz um tempo. Mas ela ainda é uma boa esposa, daquelas que te surpreendem ainda, num dia especial.
Habacuque: É assim mesmo. De repente a música pega a gente de surpresa mais uma vez e faz a alegria de todos. Assim é que é bom.

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