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Alô: Harmonia, poesia e melodia
(Goodbye: Shout, depression and dreads)

por Braulio Lorentz

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Da esq: Leonardo, Gustavo, PH e Daniel Debarry

“Goodbye Alô”, faixa que dá nome ao segundo disco do Udora, é uma música desgarrada do repertório de outra banda, a Diesel. Trata-se do embrião do Udora, já que dois integrantes que tocavam no Diesel continuam no mesmo barco. “A música foi refeita: só eu na guitarra, de um jeito mais melodioso e em português”, descreve o vocalista e guitarrista Gustavo Drummond.

Completam a banda o outro remanescente Leonardo Marques (guitarrista), o baixista Daniel Debarry e o baterista PH. Dentre as “40 e alguma coisa composições”, foram escolhidas as onze faixas que compõem o novo disco do Udora. “A gente tentava colocar mais música e ficava meio redundante”, explica Leonardo.

Todas as decisões foram tomadas com a aprovação dos quatro membros, algo inédito na história do Udora. E do Diesel. “Nos outros discos eu pedia que eles confiassem em mim. E eu dizia que com o passar do tempo eles iriam entender e aprovar. Desta vez não”, entrega Gustavo.

A banda mudou não apenas a forma de tomar decisões, mas também o modo de escrever canções e as influências para tal. “Eu me tornei um Beatlemaníaco de dois anos pra cá. Não dava muito crédito nas outras fases da minha vida”, diz Gustavo. Além de Beatles, o vocalista conta que ele e seus comparas reaprenderam a escutar rock brasileiro.

Eles gostam de ouvir principalmente Paralamas do Sucesso, Titãs e Plebe Rude, mas quem eles andaram ouvindo mais nesses últimos meses foi o Skank. Ou ao menos um dos caras do Skank, já que o tecladista da banda, Henrique Portugal, é um dos produtores de Goodbye Alô.


Henrique e Leonardo durante as gravações de Goodbye, Alô

Os conselhos de Henrique foram importantes para a nova empreitada do Udora. Certa vez, o tecladista disse que a banda estava com a cabeça californiana demais. Apontou também que o Udora estava com a distorção no dez, quando poderia muito bem passar pro sete – para que as cordas das guitarras soassem com um pouco mais de clareza. “Ele já era um cara bem versado no jeito brasileiro de fazer rock. A coisa começou a fluir”, resume Gustavo, que nunca tinha escrito letras em português e teve até que perder um pouco do sotaque americano na forma de cantar.

Com o Diesel, a idéia era “fazer só doideira, botar tudo dissonante”, segundo palavras do vocalista. “Guitarra no talo, gritar contra tudo e contra todos. A gente tinha 19 anos. No Liberty Square [primeiro CD do Udora] a gente já mudou. Fomos pros Estados Unidos com o desejo de aprender a escrever canções”, conta com empolgação. O plano do Udora no novo álbum é bem claro: “Fazer canções em português com um som mais leve e de menos trucagens musicais. Músicas com mais harmonia, poesia e melodia”.

Lá do alto do palco nos shows da nova turnê, Gustavo enxerga que a mudança nas canções faz com que ocorra uma mudança na platéia. “Existe uma nova geração de fãs que está suplantando a anterior. Diesel e Liberty Square são fases muito legais, mas com um nível restritivo enorme”, arrisca. As guitarras de Goodbye Alô estão mais domesticadas do que as de Liberty Square e mais ainda do que as do Diesel. “O leque que mais abriu foi com o Goodbye Alô”, conclui. Gustavo conta que dá risada dos fãs que gritam “Toca Diesel”. Mas não que ele ache isso ruim. “Vamos sempre tocar essas músicas e lembrar com carinho delas”, afirma.

O carinho é tanto que a volta da pegada de outrora não é descartada: “Se daqui a pouco der uma febre de revival na gente, vamos fazer o ‘Diesel dois’. Os dieselmaníacos vão amar e a galera nova vai xingar”. Ele define seu antigo grupo como “o mais controverso do underground de Belo Horizonte”. Gustavo conta que eram até comparados com os Mamonas Assassinas por causa das semelhantes tonalidades de cabelos entre as bandas. “Grunge requentado” também era um rótulo recorrente.

"A gente não quer fazer mais ‘panpanpanpanpan’ [imita um riff simples] pro resto da vida”, confessa. “Não queremos mais afinação bizarra, música depressiva e eu gritando em inglês com dois dreads vermelhos na cabeça. Pelo amor de Deus... (risos) Vamos partir pra outra”, emenda. E qual a melhor forma de ouvir o Gustavo de cabelo curto castanho? “Tem que ouvir com a cabeça limpa e sem esperar um ‘Diesel 2’ ou um ‘Liberty Square 2’”, ensina.

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