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Sobre um filme bossa nova

por Igor Vieira

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Com quase uma hora de atraso, como de costume, o último dia de coletivas do 18º Cine Ceara (na quinta-feira, 17) trouxe o diretor Walter Lima Jr. e sua equipe para uma conversa sobre o longa “Os Desafinados”. O cineasta chegou brincando e pediu desculpas por ainda estar sob o impacto da despedida do filme, lançado em premiére nacional na noite anterior, por tê-lo entregue após tanto tempo de convivência.

Ditadura/Música


Da esq. para a dir.: Jair Oliveira, André Moraes, Angelo Paes Leme, Flávio Tambelinni e Walter Lima Jr na coletiva do Cine Ceará.

Com estréia marcada para agosto em circuito comercial, “Desafinados” conta a história de jovens músicos dos anos dourados da bossa nova que partiram para Nova Iorque em busca do sucesso. No presente, após receber a notícia de que a voz feminina da banda faleceu, eles se reúnem para homenageá-la.

Mesmo tocando em aspectos delicados, como as conseqüências da ditadura na vida dos brasileiros, o longa não tem cunho político. É um filme de memórias afetivas de alguém que viveu aquele tempo. Não é à toa que os cinco protagonistas, com exceção do personagem de Jair Oliveira que foi batizado em homenagem ao compositor Geraldo Pereira, receberam nomes de amigos do diretor. “Queria impregnar o filme com a minha afetividade”, afirmou o diretor.

A história do personagem de Rodrigo Santoro, inspirada no músico Tenório Jr., seqüestrado na Argentina, aparece como mais um efeito da repressão das ditaduras na América Latina. “Eu já tinha tratado da censura [quando o filme do personagem do Selton Mello é cortado pela ditadura] e agora achei que era um bom momento para relatar esse episódio, terrível não só pra gente como para os argentinos”, considerou. “Quis construir uma referência de como a repressão nos atingiu lá dentro. Não é uma citação: isso aconteceu com muita gente, inclusive eu mesmo. Fiquei 50 dias preso no quartel do exército. São histórias que cada um de nós tem como referência de um fato acontecido. Quis colocá-la no ambiente da música e usei a história do Tenório”, explicou Walter.

Atores/Música

Os dois atores/músicos presentes falaram sobre como receberam o convite do diretor para o projeto. André Moraes e Jair Oliveira tiveram reações parecidas, sem acreditar muito na sua validade, até um encontro com o diretor meses depois para a leitura do texto. Junto aos atores Ângelo Paes Leme e Rodrigo Santoro, eles tiveram a preparação de Camilo Beviláqua, tanto na parte musical como na interpretação, por cinco a seis horas diárias durante dois meses.


Da esq. para a dir.: os atores Jair Oliveira, Angelo Paes Leme, Luis Carlos Vasconcelos e André Moraes na premiére do filme em Fortaleza.

A dublagem dos atores em cena também foi comentada pelos jornalistas presentes. A filha de Walter, que já havia cantado em “A Ostra e o Vento” (1997), é a voz de Cláudia Abreu nas seqüências musicais. E o próprio Selton Mello dubla Arthur Kohl, que interpreta seu personagem no presente. Segundo a equipe, essa foi a solução encontrada para que o público comprasse que se tratava da mesma pessoa, dada as vozes marcantes de cada ator - e por ser ele justamente o personagem-elo entre o passado e presente da trama.

Cinema/Música

Walter comentou também a importância do trabalho de pesquisa de imagens de Beth Formaggini e lamentou a ausência de um número maior de sucessos da bossa nova na trilha pelo alto preço dos direitos autorais, muitas vezes nas mãos de norte-americanos. Disse ainda que a trilha reflete o surgimento do movimento e suas influências; e que não queria fazer um filme sobre a bossa nova, mas um filme bossa nova.

A última pergunta do dia ficou para o Pílula Pop: já que no início do filme rola um conflito entre os personagens de Selton Mello e André Moraes sobre o que a bossa nova cantava, qual, na opinião do Walter, é o papel social da música, do cinema e da arte em geral.

“Quando a bossa nova saiu, ela conviveu por um tempo com esse comentário jocoso, uma crítica comum, de que era uma música feita por gente egressa da classe média alta, o que não era muito freqüente no histórico da musica brasileira. Houve uma imediata busca de raízes e isso atingiu alguns dos nomes mais representativos da bossa nova”, Walter lembrou. “A resposta que ele [André] dá, ‘eu não sou crítico, eu sou músico’, resgata isso também. E a postura dele [Selton] é típica de quem, naquele momento, tava batalhando por um cinema no Brasil, voltado pra realidade, questionador. Nosso papel no filme, então, é apresentar esse choque de idéias que existia e ir tangendo a questão...não sei se te respondi a pergunta”.

- Olha Walter, assim na lata não. Mas posso arriscar que você está mais para o personagem do André.

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