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Amimurga Letra
Camilla Felicori
A quem a letra não urge? Considerando essa necessidade da escrita inerente a muitos, cá estão algumas letras que buscam cores como tratamento para dores diversas.

Aparente

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Maria gostava de dias de céu azul. Seu quarto, na pequena cidade onde morava, tinha uma varanda. Deitada na cama ela via os pássaros, as montanhas, as nuvens, o céu. De clima ameno ela gostava. Tudo tranqüilo.

“Vento, mar, ondas indo e vindo... Sinto meu coração bater mais forte. O movimento faz com que eu me sinta assim” – ela pensava.

Assim como o clima, sua vida também era amena. Sem grandes variações, sem muito movimento. Os pássaros lá fora lhe pareciam mais ativos do que ela própria. Mas faltavam parâmetros que pudessem preencher este seu estado.

Ela estava pensando em si própria quando um passarinho azul entrou em seu quarto. “Azul marinho, combina com o céu de hoje” – ela pensou. O passarinho parecia perdido, batia nas paredes, parecia querer sair do quarto. Quando ela se levantou para ajudá-lo, ele se foi. Ela então aproveitou a oportunidade de ter saido do estado de inércia no qual se encontrava e concluiu que sua amenidade poderia ser diminuída caso ela seguisse o exemplo do pássaro e saísse também. Saísse e tomasse uma atitude qualquer.

Vestiu uma jaqueta amarela, já que ventava, e saiu. Algumas pessoas na rua. Um senhor lendo jornal em um banco em frente à sua casa, um menino correndo - não inutilmente, mas atrás da bola que quase caira no mar. Voltando-se para o menino, ela viu os dois times no campo improvisado, ambos esperando a bola. Muitos olharam para ela, mas ela sequer os percebeu.

Continuou caminhando pela sua própria cidade. O que a espantava era que ela parecia não conhecê-la. Parecia que, pela primeira vez, ela depositava um outro olhar em sua própria cidade. Não era seu olhar usual, sempre desatento, mas o olhar do viajante, daquele que quer descobrir em cada esquina algo de novo.

Esse novo olhar causou em Maria uma grande felicidade, tudo lhe parecia mais belo, principalmente as pessoas. Esplendorosamente bela por este sentimento, ela sentou-se em um banco em frente ao mar. Olhava as pessoas que passavam, as cores, os cheiros. Um menino se aproximou. Ruivo, tinha sardas na bochecha.

“Que bonitinhas as sardas! Que vontade de apertar essas bochechas como fazem as tias!” – ela pensava sempre sorrindo.

Ele então olhou nos olhos dela e perguntou:
- Por que seus olhos brilham, moça?
O que ela responderia ao belo menino de sardas? Ela não sabia que olhos podiam brilhar. Talvez não soubesse porque nunca olhara diretamente para os olhos de ninguém. Olhou, então, para os olhinhos do menino, castanhos. Brilhavam ou era impressão?
- É impressão sua, moça, meus olhos não brilham como os seus brilham agora. E olhe que já fiz um teste.
- Mas como você pode dizer isso?
- Não brilham, oras! Nunca brilharam. Mas já superei isso. Algumas pessoas têm mais luz nos olhos. Como você, moça.
- Isso é possível?
- Eu pensava que bastava ser humano para que os olhos brilhassem. Mas não é verdade, moça. Já vi o brilho dos olhos de muita gente deixar de existir. Inclusive por escolha dessas próprias pessoas.
Ela voltou-se para ele e viu que não era mais um menino ruivo, mas um senhor idoso, de cabelos grisalhos. Por um segundo assustou-se, mas não deixou de dizer o que pensava:
- Nossa... Eu nunca havia pensado dessa maneira sobre olhares.
- Por falar em olhares, você já viu um crepúsculo mais bonito do que o de hoje?

Ela então olhou para cima, o azul alaranjado com um vestígio verde, belas nuvens! O belo fim de mais um dia. Suspiro. Quando ela voltou-se para o menino, ou senhor, ou quem quer que fosse, não estava mais lá. Desaparecera junto com o Sol.

“Mas seus olhos ainda brilham”, disse uma voz de dentro de si.
Brilhavam mesmo? Correu para casa e olhou-se no espelho: brilhavam como purpurina.

(Ilustração: Carol Mattos)

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Camilla Felicori gosta muito de cores.
camilla.felicori@gmail.com

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