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Amimurga Letra
Camilla Felicori
A quem a letra não urge? Considerando essa necessidade da escrita inerente a muitos, cá estão algumas letras que buscam cores como tratamento para dores diversas.

Aninha

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Na floresta encantada, dois homens, fisicamente falando. Na realidade eram dois meninos jogando peão mascarado de pôquer. E o sol se esquecera de visitar o céu; azul sem descrição possível. Somente grilos e os meninos com o peão, o tapão: “Droga, você roubou o meu sete!” A figurinha de Bebeto agora pertencia ao moreninho de olhos que brilhavam de negros. Pôquer: a grana preta: vinte centavos o pingo. E a chuva só não atrapalhava menos que a dor “Maldita abelha!” que o picara; o moreno com esforço para prender a lágrima e o loirinho, incapaz de conter o riso, apagado com barro. Guerra de lama por rir [da dor]. Blusas tingidas de marrom e muitos músculos em serviço. A bola, a lama, gol a gol, água salgada descia do corpo, cheiro não muito agradável, grama, buraco e perna vestida de médico, com cheiro também, mas de outra coisa [de hospital]. Só não podia brincar de médico. Se bem que passar Aninha para trás era uma idéia divertida. A chata de galocha, voz irritante e físico de assustar espelho, aquele espantalho de tão magra com cabelos tão insossos bem que merecia. O único problema é que ela não era nada burra. “Brincar de médico, sim senhor, mas em anestesia eu sou especialista.”. Anestesia. Tapas na cara de ambos para o olhar superior [e insuportável] dela não doer muito. Pôquer e o loirinho tem sorte no amor. Lembrar disso é que ele não iria. Saída mais viável: a revanche. Guerra para Aninha também. Só podia ser mulher, vingar o roxo era o mínimo exigido pelos garotos. Aguardavam apenas um meio. O tempo é que preferiu deixá-los esperando. E o futebol parecia algo de menor importância. Também, com essa nova descoberta o peão nem tinha mais vez: Mulher. Que descoberta incrível! Aninha, a da anestesia natural, parecia-lhes agora de mesa para árvore: curvas, muitas, uma linda copa iluminava o delicado rosto e a voz não mais taquara. Para o loiro, o moreno, uma sina somente: perder para a Aninha, sempre.

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Camilla Felicori gosta muito de cores.
camilla.felicori@gmail.com

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