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Amimurga Letra
Camilla Felicori
A quem a letra não urge? Considerando essa necessidade da escrita inerente a muitos, cá estão algumas letras que buscam cores como tratamento para dores diversas.

Anami

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[Anami.
Saçi
durmi
cumi
come
pé zé mané]

As pernas dela balançavam. Astride, ansiosa, balançava as pernas. Sentia-se sempre assim, inquieta. Era tempo de entardecer. O sol ia-se embora, soprava o vento, seco. Astride inquieta moça torceu o pé de tanto...

Desconcertada.

[O que me incomoda, no mais profundo em mim ainda está aqui, preso.]

Escreveu essa frase em seu caderno de notas, não era diário pois diário era para meninas. E Astride já era uma mulher. Mulher até demais, pensava, mas sem algo que pudesse sustentar esta certeza.

Olhou para a frase escrita em letra ilegível. Riscou palavras.

[O que me incomoda ainda está aqui, preso.]

Estava preso ali, bem perto dela? Mas como algo preso poderia incomodá-la? Se está preso não tem liberdade de ação. Riscou novamente.

[O que me incomoda ainda está aqui.]

Olhou para todos os cantos do quarto. Não havia ninguém que pudesse incomodá-la. Mas dizia as suas próprias letras que ainda estava ali. Talvez não fosse alguém, mas algo. Tentava decifrar-se atraves da leitura de si mesma. Mas nunca havia tentado uma leitura tão literal. Sim. Havia pensado errado, ou melhor, interpretado errado. Não era alguém, se fosse seria “quem”, seria:

[Quem me incomoda ainda está aqui.]

Que mania boba te transferir humanidade para tudo que pudesse ser sujeito de ação de um verbo. O que estava escrito era o que a incomodava. Algo a incomodava. Mas se era algo que a incomodava não podia ser ela mesma, já que ela não era uma coisa, definitivamente, não, não era uma coisa, ainda que às vezes se sentisse um bloco. De pedra.

Olhou para o caderno e sua letra quase ilegível, disse acima ilegível e, por isso, completamente, mas depende do momento; entre o quase e o completo um limite difícil de diferenciar. Cada momento ela sentia-se uma, uma outra, Astride.

Olhou para o caderno cheio de rasuras. Difícil lidar com essa sensação que ultimamente a habitava, a incapacidade de se decifrar através de palavras. O caderno, rabiscado, marcava bem essa sensação de dúvida e incapacidade de seguir em frente. Pensou em riscar novamente, tentar uma última vez chegar a algum lugar – qualquer – que seja [ou fosse] sobrou:

[Ainda está aqui.]

Riscou o que a incomodava e deixou restar o ser. Ela, que ainda estava lá. Ela, Astride, estava lá, ainda.

Olhou novamente para o bloco de notas, ou caderno, como preferir.

[Anami.
Saçi
durmi
cumi
come
pé zé mané
Ainda está aqui.]

Não era um poema. Longe disso. Sem saída, quedou-se satisfeita com o que restara, e que estava lá, ainda. O ser. Ela própria.

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Camilla Felicori gosta muito de cores.
camilla.felicori@gmail.com

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