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Papel Picotado
Nian Pissolati
Escrevendo, quando em vez.

0.88 segundos

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Cena de filme:

Três horas da manhã. Ele, um pouco alto pelas doses a mais tomadas sozinhas, ao sabor de uma musica triste cantada ao fundo de um bar qualquer. Encostado na parede espera seu ônibus passar, sem muita disposição de olhar para frente. Prefere acompanhar as luzes refletidas no asfalto que há pouco se molhara de uma fina chuva. Observa o vermelho dos faróis no chão, e embaçando as vistas propositalmente, deixa que em sua frente só haja uma tela preta borrada de luzes vermelhas e amarelas pálidas. Fumaria um cigarro, mas a esta hora, já não tinha mais seu maço, fumado por inteiro no bar.

O frio e a solidão da rua são palpáveis. E quando pensa isso olha pro chão, e ao seu lado vê um par de tênis preto escondendo meias listradas e laranjas. A princípio prefere se ater apenas a essa cena, e sem levantar a cabeça vê que o par de tênis preto se dirige ao banco do ponto de ônibus. Ele então toma coragem, e aos poucos levanta os olhos, e vê uma saia grande, preta, de pano grosso. E com um pouco mais de medo olha sua blusa listrada e colorida, seus cabelos curtos, e um olhar bonito, mas que também, ali, naquela noite, só lhe trazia mais solidão.

E é inevitável esquecer todas as danças de borrões no chão, todas as músicas e histórias que a pouco pensava, e só pode a olhar, ver seus movimentos e tentar adivinhar em alguns minutos toda a historia daquele par de tênis pretos que oculta as meias listradas. É quando brota em sua boca, sem mesmo que ele perceba, um pequeno sussurro, quase imperceptível: “eu lhe daria a mão, não importa onde me levasseâ€. No mesmo instante ruboriza-se, e prefere desviar o olhar. Mas ela acende um cigarro, levanta-se, e por um ou dois segundos fita-o. Depois disso seria inevitável qualquer ação. Perdeu-se.

O ônibus chega, e por essas coincidências inimagináveis, os dois entram e sentam de modo que apenas o corredor os separe. Ele, olhando pelos cantos dos olhos. Ela, pra frente, junto de sua solidão. Ele, pensando que pularia no ponto dela, pegaria em sua mão, e falaria qualquer coisa que a fizesse perceber, que nada no mundo importaria tanto, se ela aceitasse dar-lhe as mãos e levá-lo a algum lugar bonito. Ela olha pra baixo e vê que seus tênis são iguais, só diferem pela cor. Ele vê nesse olhar um bom sinal, e tenta pela primeira vez lhe pescar os olhos, para que ela veja seus olhos a olhando. O instante infindo dura exatos 0,88 segundos. E ele se perde em mais alguns milhares de pensamentos.

Ela então levanta, fica em pé, na sua frente, olhando para a rua e para as manchas vermelhas e amarelas pálidas. Embaça por querer a vista, e o borrão escuro tingido das duas cores lhe cai bem. Ele olha para o par de tênis que esconde as meias e pensa que aquele é um desses momentos que podem definir muita coisa. Ela, de alguma forma, o vê mais uma vez. Ele, embaraçado, vira o rosto e olha para a rua. O ônibus pára. Durante dois segundos o mundo pára. Ela ainda não desceu. Ele fita seus pés. Um clarão no céu anuncia a chuva que novamente está para chover. Na calçada uma senhora abre seu guarda-chuva amarelo.

Ela desce. Ele quer chorar.

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nianpl@gmail.com

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