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Chá das cinco
Nara Mourão
Pequenas sutilezas cotidianas temperadas com uma dose de canela. Ou fragmentos da vida acompanhados de exagero crônico.

Nem a poesia

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Detestava qualquer todo dia excessivamente normal. Queria tudo novo de novo com freqüência maior que o resto do mundo. Por vezes se perdia em pensamentos e quase nunca queria pagar o preço do resgate. Ninguém entendia aquele menino, como era possível ter descontentamento “com casa, comida e roupa lavada?” Sempre comparando a dor dele com a maior miséria existente, e mostrando que o tal não tinha motivos para o choro.

Quando faltavam deuses, recorria aos poetas. Quando nem esses respondiam, andava nas mesmas ruas, sem definir caminhos ou olhar para o relógio. Quando caminhar indefinidamente foi pouco, comia compulsivamente. Qualquer coisa esquisita, só para não ficar igual: jantava pipoca doce e biscoito recheado. E quando nem o estômago colaborava na resolução, optava pelo sono. Só ele traria o amanhã.

Pensava nas possibilidades do amor, sobretudo as que conhecemos após quatro copos de cerveja. E fazia conjeturas estranhas: “Adorar é mais que amar? Gostar muito parece mesmo pouco. Paixão pode durar para sempre?”. Por vezes queria acolher o mundo, mas não tinha nem o mínimo necessário de quilos e coragem para ir ao banco de sangue mais próximo.

Mesmo tão confuso, era de uma graça boa para outras gentes. Que exceto um ou outro ataque de “esse lugar é injusto demais para mim” queriam tê-lo por perto. Também era de uma graça boa para ele mesmo. Tanto, que ao ser perguntado sobre a possibilidade de voltar em outro corpo, respondeu: “Quero voltar assim, desse jeito, só com o ‘pau’ um pouquinho maior”.

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Nara Mourão adora um sorriso largo, mas garante que o dela não passa de 32 dentes.
narachamou@yahoo.com.br

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