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Papel Picotado
Nian Pissolati
Escrevendo, quando em vez.

Porta de entrada

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Era todo dia a mesma coisa.

Ela preparava o café. Ele saía.

E as cinco horas que se passavam enquanto ele não viesse para o almoço eram sempre breves. Mas seus preciosos minutos eram delicadamente registrados no seu diário de bordo. Os trinta minutos depois da primeira faxina do dia, ali pelas 9h30 da manhã, quando então vestia os olhos de lunetas, e pela janela da sala de estar, olhava a vida acontecer lá fora. Na casa defronte, a senhora que regava suas duas roseiras conversava com as novas flores que nasciam, e de vez em quando, quando achava não estar sendo vista, dava uma olhadela pra esquina. Dizem aquelas crianças faladeiras do prédio ao lado, que ela ainda espera o marido voltar, que saiu de casa há vinte e dois anos e nunca mais apareceu. Na época em que partiu, a última coisa que fez foi plantar aquela roseira. A segunda, ela plantou no dia em que sua ausência completou seis anos. Por essa hora também, passavam aquelas duas crianças da rua de cima, que iam cumprir seu nobre papel de fazer a compra dos pães da casa. E o que ela mais gostava de ver eram suas camisas, sempre combinando, além da espetacular bicicleta de dois assentos, que o pai habilmente tinha construído, conforme os dois anunciavam para o mundo inteiro. Na frente, sempre o mais velho, com seus olhos arregalados de alguém que perdeu o bonde. ‘Mas ele nem sabe o que é o bonde ainda!”, ela pensava toda vez muito impressionada. No segundo assento vinha o caçula, sempre rindo muito, e gritando aos quatro cantos que mais uma vez a dupla infalível ganhava mais uma corrida. Tinham também aqueles três ou quatro vira-latas, cada um de uma cor, cada um de um tamanho, que latiam a cada carro que passava, e Seu Joaquim, da Padaria, que sempre acabava perdendo a paciência, os pondo para correr. O grupo se descompunha por uns cinco minutos, mas logo voltava, porque já haviam aprendido que no meio da tarde, o mesmo Seu Joaquim viria para dar sobras do almoço dos funcionários. E assim ela ia vivendo a vida ali fora, ainda que dentro, até que o relógio de madeira da sala, de um mau gosto incrível, presente da sogra, anunciava que já eram 10h. Hora de preparar o almoço.

Então eram mais duas horas de bastante trabalho, dar os últimos primeiros retoques na casa do dia, até que o sol imperdoável lá de fora anunciava que a manhã acabara. Ela então sabia que teria mais quinze minutos seus. Ligava então a vitrola que herdara do avô e que há alguns anos não tocava outro LP senão um de Nelson Gonçalves. E então, ouvindo aqueles boleros se despia no banheiro e nos dias de bom humor, enquanto se enxaguava, cantarolava junto dele aquelas músicas que há uns bons quinze anos dançava quando ia ao clube do bairro, nas simpáticas tardes de sábado. E era o tempo de sair do banho, limpar o rosto com leite de rosas, e ouvir o barulho do portão, primeiro ruído de tantos que surgiriam durante a uma hora de almoço: ‘mas esses preços não param de subir!”, “esse trânsito infernal me mata”, “o Nunes, lá da firma, você não vai acreditar, faltou mais um dia! E sempre a mesma desculpa, a velha úlcera! Santa úlcera, pois sim!”. Nessas horas ela tinha duas reações, dependendo de seu humor (normalmente muito condizente com a estação do ano – amava o laranja dos outonos, odiava a secura dos invernos, se impressionava com a nostalgia que a primavera lhe trazia, e se aborrecia com o odor do verão). Na maioria das vezes ria com o canto da boca, achando graça dos grandes aborrecimentos do marido. Mas às vezes, a cumplicidade que lhe concedia vinha com um gosto de solidão, que nada conseguia tirar. Quando o inescrupuloso relógio então anunciava 13h ela começava a retirar a mesa, e enquanto começava a lavar as louças, o observava do canto dos olhos, lendo o jornal na poltrona verde-musgo da sala. Eram quinze minutos de passadas de olhos por sobre o diário e então tinha de partir mais uma vez. Ele então vinha, dava-lhe um beijo na boca, outro na testa, e dizia ‘fique com deus, meu anjo”. Ia-se e o portão gemia o último ruído do almoço.

Era todo dia a mesma coisa.

Ele preparava essa vida. Ela saía.

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nianpl@gmail.com

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