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Chá das cinco
Nara Mourão
Pequenas sutilezas cotidianas temperadas com uma dose de canela. Ou fragmentos da vida acompanhados de exagero crônico.

Outra Hora

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Reconhecer a graça do amor religiosamente, só de pensar no outro. Sem preocupar com os perigos que a dádiva pode causar, mas que aparecerão no próximo desentendimento. Desconheço se estão, nesse aperreio, as sutilezas do amor.

Sei que dói quando uma peça do coração perde o parafuso, e tudo que resta são porcas borboletas. Não duvide, o mundo continua inteiro, mesmo que seu lado esquerdo passe por desarranjo severo.

O vaticínio é corrosivo: se errar deixa em estado vegetal, o “Eu avisei” - entre dentes - é o tiro de misericórdia. São essas condenações prévias que tornam respirar junto, barriga com barriga, menos fácil. Por vezes, a discussão dá lugar a um beijo de despedida mirado no vento. Esse beijo, que não alcança ninguém, propõe um encerramento imediato, dizendo em silêncio “Amanhã a gente resolve, um de nós se reconhecerá culpado.”

Acontece que nenhum quer assumir sua parcela de falta. E fica um não telefonar, não manifestar carência, trabalhar para que não sejamos oficinas do diabo. E junto com um orgulho benéfico para ninguém, um brejo de sapos é engolido. Só que hoje escolhi um caminho mais doce, sem pedir concessões. Acabo de presentear uma discussão calorosa com um ato gratuito.

Esqueço o celular, o sono de quem foi sacudida às seis da manhã e todos os mamões com granola que devo comer. Um sanduíche com muito bacon não deixa o coração pior e dá uma satisfação preocupante. O dia não começou azul, mas o bacon começa a restaurar minha paz. Ligo o computador, ainda engordurada, e percebo com grande alívio estomacal que as palavras não sentem, mas nos representam com um desprendimento delicioso. E escrever se torna o verdadeiro refúgio de quem quer uma alternativa, para depois. Agora basta palavra.

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Nara Mourão adora um sorriso largo, mas garante que o dela não passa de 32 dentes.
narachamou@yahoo.com.br

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