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Papel Picotado
Nian Pissolati
Escrevendo, quando em vez.

Pela janela

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Não que seja necessariamente ruim. Mas andar nestas ruas tem sido penoso. Já reparou no rosto das pessoas às sete da manhã? Veja o senhor, não é questão de sociabilidade, modernidade ou essas bobagens que estão em moda.

Mas é que antigamente não era assim, sabe? Olhos aflitos espantam, não é mesmo? O senhor há de convir. Ser invadido por esse tipo de olhar às sete da manhã no meio de todo o pó de asfalto... Aliás, o pó de asfalto... eu não sei não. Mas há algo de muito errado nisso, não é mesmo? O senhor já encostou nessas ruas? Eu digo, verdadeiramente, já encostou? Não? Pois então o senhor não sabe. E acredite, é preferível não saber mesmo. Essas ruas... tão duras e cinzas, não é mesmo? Quando o senhor encosta nelas... Tem uma poeira que está ali, esperando um toque. E se o senhor por algum motivo, encosta ou apenas esbarra nela, acredite, ela gruda em sua pele. E não sai. Não sai....

Ah, ah, ah. Mas não leve esses meus olhos tão a sério, tudo bem? Tem muita mentira aqui dentro. Ahaha. A vida é engraçada, não é mesmo? Um dia estamos lá em cima, vendo tudo pela janela do 24º andar... todas aquelas formiguinhas. E não dá nem para definir o que é rua e o que não é. Mas aí, passam-se os anos, algumas mudanças viram sua vida do avesso, e aí você acaba percebendo que não está impune. À rua, ao lixo, ao mundo.

E somos todos assim, não é mesmo? Eu, o senhor... pois é, desculpe a liberdade, mas o senhor também. Estamos todos... mas pela pouca idade, comparada à minha, pelo menos, sugiro que não encoste nesses chãos daqui. Ahahaha! O senhor está rindo... eu sei, parece tudo muita maluquice, eu sei. Mas só até o senhor se dar conta desses seus olhos aflitos. Depois...

Enfim, desculpe a intromissão. É que nunca tinha visto o senhor neste ônibus. Seus olhos são novos por aqui. Aliás... o senhor se importaria de mostrar-me suas mãos? Ah... eu já tive mãos assim... E o senhor talvez esteja para sujá-las, não é mesmo? Ahahah, velho doido, é o mínimo que o senhor está pensando. Perdão. Perdão. Bem, o senhor vai me dar licença. Cheguei no meu ponto. Mais uma vez, desculpe a liberdade excessiva que me permiti. Mas é que olhos aflitos podem mudar tanta coisa...

Enfim, até logo, e vá com calma, meu jovem senhor.

Ah! E compre um espelho. Não saia de casa sem mirá-lo por um grande tempo, às sete da manhã.

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nianpl@gmail.com

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