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Papel Picotado
Nian Pissolati
Escrevendo, quando em vez.

Elvis não morreu

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Eram 10h da manhã.
“O convite para virar estátua no Madame Tussaud veio em boa hora”. A frase estava escrita em linhas rápidas, com letras tremidas, num pequeno bilhete amarelo jogado num canto da sala. Chegara a pouco da boate, e antes de ver a mensagem, perto da porta, tirou a camisa suada, acendeu um cigarro e com dedos automáticos ligou o rádio com o noticiário da manhã. Aborreceu-se com o bilhete e pensou que isso só podia ser coisa da Marilia. Que espécie de mensagem era aquela e quem diabos era essa tal de Madame Tussaud. Logo percebeu que aquela letra não podia ser dela. Sua letra era gorda, cheia de linhas sobrando, ocupava espaço. Aquele bilhete não. Era pequeno, contido, e tosco. Jogou a guimba pela janela e se preparou para dormir.

Eram 10h da noite.
Ainda tinha duas horas pra chegar no trabalho. Caminhava em linhas rápidas, com pernas tremidas, numa pequena rua amarela do centro. Saíra a pouco de casa, e antes de ganhar a rua olhou da janela cabeças automáticas que continuavam passando lá embaixo. Pegou a jaqueta surrada, colocou sobre o ombro e tomou o último gole da garrafa de vinho. Naquele dia não tinha visto Marilia, não tinha visto ninguém. Desceu o lance de escadas tonto, esbarrou na senhoria e quando ganhava a avenida, viu preso, entre as grades do portão, um jornal velho, sujo, com uma foto enorme do Elvis. Lembrou de Marilia e do seu amor estúpido por aquele sujeito. A matéria informava que o Museu Madame Tussaud ficaria fechado por um mês, para reformas. `Um museu de cera`, pensou. Achou Marilia ainda mais ridícula e ficou ainda mais aborrecido. Entrou no primeiro boteco que viu e tomou duas doses de conhaque. Já eram quase 11h, chegaria atrasado na boate. Teria que discutir novamente com a gerente. E as malditas estátuas de cera sempre rindo. Virou mais uma dose. Se Marilia lesse aquela matéria iria juntar dinheiro para um dia, que nunca viria, poder abraçar seu rei. Marilia era Madame Tussaud. Tomou mais duas doses e pediu um pedaço do papel amarelo em que o balconista calculava sua despesa. E com olhos miúdos viu sua mão escrever, em linhas rápidas, com letras tremidas: “O convite para virar estátua no Madame Tussaud veio em boa hora”. Pagou a conta, voltou para casa, subindo ainda mais tonto o lance de escada. Dessa vez a senhoria não estava lá. Tirou o bilhete do bolso da jaqueta e jogou por debaixo da porta.

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nianpl@gmail.com

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