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The Strokes – Angles

por

21 de março de 2011

Música, Receituário

Avaliação: ★★★½☆ 

O Strokes é uma banda da minha época. Sempre tive medo da hora em que eu tivesse que usar essa expressão, “tal coisa é da minha época”. Mas…       eles são o som que eu dançava quando tinha 19 ou 20 anos, era um universitário sem muito dinheiro, enchia a cara de vodka ruim e saía para o inferninho mais barato da noite. Era a banda que meus amigos e eu bombávamos mais quando começava a tocar. Então, acredito que isso se configura como algo “da minha época”.

E o sinal de que algum (bom) tempo se passou desde então é que, na primeira vez que ouvi Angles, não pensei exatamente se seria um álbum para bombar na pista. Minha primeira reação mental foi “nossa, esse CD vai ser ótimo para correr”. Sério. Eu não sou o tipo de pessoa que corre. Na praça, no calçadão, na esteira. Há 10 anos, nunca diria que hoje estaria correndo. Mas estou. Porque, na minha idade, se não fizer algo do tipo, eu posso ficar obeso, ter dores de coluna, um enfarto precoce ou simplesmente morrer.

Então, tai: Angles é um CD bom para jogging. Até porque quase não vou mais dançar – por preguiça de sair de casa e porque meus amigos, ou se casaram (das n maneiras possíveis) ou se mudaram. Ou os dois. E esse sou eu: uma pessoa que corre, quase não sai de casa, ainda não cresceu o bastante para resolver o que quer da vida e que NÃO achou o álbum novo do Strokes uma catástrofe, como 90% da Internet.

Entendo que o CD não é tão “seminal” como os três anteriores. Tanto que afirmar que “Under cover of darkness” é um dos melhores singles do ano, que a voz de Julian Casablancas nunca esteve tão limpa e melancólica quanto em “Call me back”, ou que o riff de “Machu Picchu” é um roubo sensacional, descarado e melhorado de “Wanna be starting something” do Michael Jackson, me faz ter medo de ter virado uma daquelas pessoas que ainda dizem que U2 é bom.

Mas querer comparar Angles a Is this it? ou Room on fire é como dizer que é possível ter 20 anos de novo e apreciar a vida com uma série de  expectativas que não existem mais. Ok, as letras não são tão geniais, a única coisa boa em “You’re so right” é que ela é curta e “Metabolism” é uma sobra pouco inspirada do CD passado. Mas me pergunto se o desencanto com a renegação da própria banda ao álbum – as afirmações de que eles não querem mais entrar em turnê, que não gostam mais de estar juntos; em síntese, a constatação de que não são mais um grupo – não dói tanto porque é o sintoma do fim de uma fase das nossas vidas também.

Casablancas canta “I’m ok, I’m alright, I was out last night, empty world, I will wait one more night” em “Games”. Já em “Gratisfaction”, ele diz que “You’ll be frustrated ‘till the day you give up… you get tired when the days are too long, you get lonely when the days are gone”. Não são, respectivamente, as mentiras, e seu desmascaramento, que contamos a nós mesmos de que a vida ainda é a mesma e sair é tão bom quanto 10 anos atrás?

Dito isso, poucas coisas me alegraram tanto esse ano quanto ouvir “Two kinds of happiness”, “Taken for a fool” ou “Life is simple in the moonlight”. A poesia, a queda da utopia irônica, e inocente ao mesmo tempo, revisitada (e revisada) e a ressonância emocional das três, especialmente da última, me lembraram por que o Strokes era “tudo aquilo” na minha época. Por mais que goste de manter sua pose de mauzão, Casablancas (agora um pai de família) sabe que nem só de cinismo se faz o indie young rock. E pouca gente soube cantar isso como o Strokes que, assim como meus 20 anos, talvez esteja na hora de acabar.

Adeus.
Adeus.

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5 Comments For This Post

  1. Bill Says:

    Eu acho que essa coisa de “não querer estar mais juntos” é birra dita na hora da afobação e do desentendimento. é estranho pessoas que são amigas há mais de 15 anos não gostarem umas das outras. Angles tem seus altos e baixos mas é um bom álbum. Não é nehuma catástrofe como dizem as línguas exageradas por aí.
    Acho que os Strokes ainda vão dar muito pano pra manga. não creio que esse seja o fim. Eles mesmos tem declarado que a poeira já baixou e eles querem continuar a lançar álbuns por um bom tempo.
    O que me resta fazer, como fã (sim, eu admito. Não tenho medo de parecer tiete)é desejar VIDA LONGA AOS STROKES E QUE O PRÓXIMO ÁLBUM SEJA BOM COMO OS ANTERIORES.

  2. renata Says:

    quer casar comigo ?

  3. Daniel Oliveira Says:

    Ok, mas você sabe muito de mim e eu nada de você: você tem religião? Pode ser só no civil? Qual sua música favorita do Strokes? E dos Beatles? Aliás, Beatles ou Rolling Stones? Brilho eterno de uma mente sem lembranças ou Antes do amanhecer?

  4. Pau(lista) Says:

    Gostei do texto. Parabéns. Queria ter gostado do disco também, hehe.
    Abraço.

  5. William Alves Says:

    Bicho, eu já não era fã quando eles eram roqueirões incontestáveis. Agora que eles viraram esse sub-Soft Cell, tô mais fora ainda, mano.

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