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Amor Pleno

por

25 de julho de 2013

Cinema, Receituário

To the Wonder

EUA, 2012

  • Dir: Terrence Malick
  • Elenco: Ben Affleck, Olga Kurylenko, Rachel McAdams, Javier Bardem, Tatiana Chiline, Charles Baker

Avaliação: ★★★★½ 

“Trata-se de algo poderoso demais, ou injusto demais, mas às vezes também belo demais, e que portanto excede nossas capacidades sensório motoras”. É assim que o filósofo Gilles Deleuze descreve as chamadas situações ótico-sonoras no cinema. São imagens que permitem apreender algo que vai além da simples ação ou movimento, obrigando a sairmos de nossos cômodos hábitos de visualização e permitindo o contato com algo da natureza do imponderável.

A definição serve bem ao cinema de Terrence Malick: não que ele seja exclusivo de situações assim (contando também com metáforas e movimentos baseados na ação e reação), mas a câmera do diretor aparece constantemente apaixonada pela luz, um olho que enquadra a imagem como faísca do sublime.

Após a busca do divino na natureza vista em “A Árvore da Vida”, “Amor Pleno” parece atrás de uma inversão, a natureza no divino. Para isso, Malick vai contar uma história de amor entre um homem, Neil (Affleck), e duas mulheres: a francesa Marina (Kurylenko) e a americana Jane (McAdams). O ponto de partida do filme é a paixão entre Neil e Marina, que levará a mulher e a filha a se mudarem para os Estados Unidos. Mas aos poucos o amor parece secar, e o diretor mostra isso de forma brilhante, misturando metáforas visuais com belíssimas imagens de tempos mortos, em planos que dão sentido ao tempo como essa forma inalterável que é preenchida pela mudança.

E a mudança já é sentida no início, com imagens que parecem captadas por câmera de celular acompanhando uma viagem de Neil e Marina. A paixão começa a crescer, e o amor vai aos poucos indo do mecânico do telefone para o divino do cinema (a imagem cinematográfica, em Malick, está para além do mecanicismo). Ao mesmo tempo, a mudança do cinza da Europa para a cor da América traz calor, ilumina a relação, assim como o vermelho das roupas de Marina vai indo aos poucos ao encontro do azul vestido por Neil. Ser puramente reativo, o homem vivido de forma competente por Ben Affleck usa as mesmas cores durante a história, com variações de tom que irão marcar seu humor. É um contraste grande com o vermelho paixão (ou infernal?) das mulheres, em luta com o azul da calma, o infinito imutável (ou divinal?).

Quando Jane entra em cena, Malick estabelece de forma mais clara sua principal metáfora: a relação entre água e terra. Presente insistentemente durante todo o filme, a água é tanto mudança (“renascida” é a primeira palavra escutada no longa) quanto amor (o homem chega a jogar água em mãe e filha, semeando o sentimento). Ou melhor, é os dois juntos. A água é como o amor fluído, claro, moldável, mas também passageiro, turvo, passível de contaminação (a profissão de Neil). Marina é água. A água que aos poucos vai invadindo o terreno arenoso em que ela brinca com o amante no início de “Amor Pleno”, conquistando-o por completo. Mas chega o inverno, a água congela, deixa de correr. Para depois derreter e ser absorvida pela terra.

E Jane é a terra. A garota aparece ligada ao campo, é duradoura, fixa, o oposto à água: ela é americana, está em seu próprio solo, não vai a lugar algum. No amor com Jane, a água aparece como um laguinho, cercada por terra, contida. É o amor dominado pela estabilidade, domesticado pela segurança. Mas a terra também pode ser contaminada, envenenada sem volta, pois não possui a fluidez do líquido. Tudo isso é mostrado com o mínimo de diálogo, jogando pensamentos soltos com imagens belíssimas na água que reflete o céu e terra que se une a ele. Divino e humano, natureza e sublime. É o homem que reage ao instinto e não aos desígnios da Igreja, é o mecânico do parque de diversões que tenta competir em beleza com as estrelas do céu.

Mas o diretor não parece confiar tanto em seu público dessa vez, e na figura do padre Quintana (Bardem) busca uma subtrama de redundância com o que já se vê na tela. Em dúvida de sua própria fé, o padre é o discurso religioso que não dá conta da natureza (seja ela divina ou humana). Em suas palavras, as metáforas visuais se tornam claras (“existe um amor que é como um rio que seca quando a chuva já não o alimenta. Mas existe o amor que é como uma fonte vinda da terra”) e perdem um pouco de seu poder de arrebatamento.

Ao ser redundante, Malick perde a chance de fazer mais uma obra-prima sensorial (a tentativa de um drama tradicional mais pro final envolvendo traição também não ajuda), o que não diminui seu talento em se mostrar, assim como Visconti, apaixonado pela imagem e seu poder de iluminação. Pois em “Amor Pleno” também há, principalmente, a luz. Brilho sempre presente, que atravessa os vitrais da igreja, e está na terra, na água, e que se acende nos cabelos das mulheres. E que joga o homem nas sombras. Terra e água são elementos naturais e divinos que se combatem e se completam, em um dualismo próprio da imprevisibilidade humana. Mas sempre iluminados. É o sol, mas também é deus. É vida.

E é cinema. Arte escrita com luz.

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