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Tim Festival 2006, Marina da Glória, Rio de Janeiro – 27 a 29/10/06

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Para cada show comentado, uma frase ou expressão em inglês na tentativa de apresentar o texto que vem a seguir. Assim se resume a nossa overdose da etapa carioca do Tim Festival 2006. E antes que alguém pergunte, Daft Punk e outras atrações ficaram de fora desta vez por uma mera questão de termos uma equipe minguada.

Its like finding home in an old folky song

Devendra Banhart

por Luciana Dias

Fotos: Divulgação


Devendra é lindo (ao vivo)

Antes de dizer qualquer coisa a respeito do show, devo esclarecer que isso não será um comentário impessoal e objetivo. Foi por causa dessa hora e meia, precisamente, que eu viajei vários quilômetros e foi por esse show que esperei meses, ansiosamente. Então digamos que eu assisti ao show do Devendra com olhinhos de menina apaixonada; e é através deles que eu vou descrever o que vi.

Eu vi entrar no palco um cara meio sem graça, que entrou no palco com o cabelo caindo no rosto (não no sentido emo da coisa) e dizendo se sentir intimidado de estar tocando na nossa terrinha. Caetano tava lá na platéia, óbvio. Só que ao contrário do que muitas pessoas esperavam, ele não se apresentou sozinho-folk-minimalista igual nos primeiros discos. E, ao mesmo tempo, não resolveu fazer nada do tipo herdeiro da Tropicália, porque afinal de contas até onde eu sei ele não persegue esse título. O show foi um show de folk rock, e não vejo nada de errado nisso.

Músicas como “Long Haired Child” se tornam bem mais divertidas, com uma pegada meio funky e impossíveis de não acompanhar dançandinho e sorrindo. Outras canções como a linda “At The Hop” ganham novos arranjos, mas continuam sendo pequenos hinos de amor sobre coisas cotidianas. E ainda sobra espaço para uma canção do último álbum do Vetiver, a bucólica “You May Be Blue”, e para uma homenagem a Caetano, no cover de “Lost In The Paradise”.

Foi um bom show, com um Devendra menos showman do que esperávamos, mas com um repertório e uma banda que valeram cada centavo. O público estava receptivo, jogando flores e pétalas no palco; fossem indies ou neo-hippies naquela uma hora e meia podia tudo: uivar ao som de “Mama Wolf,” cantar “I Feel Just a Like a Child” a plenos pulmões ou pedir pela paz com flores no cabelo como se fosse 68.

Take a bow

TV On The Radio

por Luciana Dias

Fotos: Isabel Furtado


Tunde Adebimpe e seu show em condições adversas

Um amigo me disse que estando na presença de qualquer um dos integrantes do TV On The Radio, instintivamente ele sente-se inclinado a fazer uma mesura ou reverência. Se o baterista bate no prato, reverência. Se o vocalista joga água no público, reverência. Isso conseguiu resumir bem meu sentimento durante a apresentação do TV On The Radio no Rio.

Tocando em condições desfavoráveis – a banda teve sua bagagem com instrumentos extraviada no vôo e teve que tocar com instrumentos emprestados pelo Thievery Corporation – o show foi coisa linda de se ver. Um pouco curto, mas das músicas que eu queria muito assistir só não tocaram “I Was A Lover”. Logo no começo do show eles tocaram “Dreams”, provavelmente uma das coisas mais bonitas que eu já tive oportunidade de ver. Foi momentinho lágrimas e nó na garganta, mas que logo se desfez nas primeiras notas de “Wolf Like Me”, fácil a música que mais levantou o público que não estava tão familiarizado com a banda.

E a minha vontade de cantar junto e pular e se acabar entrava em conflito com uma espécie de dever que senti de simplesmente CALAR A BOCA e prestar atenção em cada acorde, cada pausa e cada passo que acontecia em cima daquele palco, afinal de contas era uma coisa meio mágica. É um entendimento de música que aqueles caras têm, de uma coisa tão antiga e bonita, que a gente fica meio abobado tentando entender de onde vem mas não consegue. Não é a toa que eles estão em cima do palco e você embaixo. E a única coisa que resta, como diriam meu amigo e a sempre tão sábia Madonna, é fazer uma reverência.

We (do) care about the old folks

Patti Smith

por Rodrigo Ortega

Fotos: Isabel Furtado


Patti abre os braços entre outros braços

A dinâmica do show da Patti Smith no Tim Festival foi inversamente proporcional à dinâmica da carreira da cantora norte-americana. O início foi grandioso, mas frio, com a cover de “Gimme Shelter”, dos Rolling Stones. O público grudou os olhos naquela senhora com um terno mal ajambrado, mas demonstrou mais respeito do que empolgação. No caminho para o final (do show), chegamos ao início (da carreira), até alcançar a “Gloria”, composição de Van Morrison que abre o clássico álbum Horses, de 75. Finalmente o respeito virou energia cinética.

De Horses, ela ainda cantou “Kimberly” e “Redondo Beach”. Com elegância, Patti arrumou o cabelo, tirou o blazer e tocou “So you want to be (a rock’n roll star)”, dos Byrds. Deu alívio saber que o ápice do show não foi quando soou o pianinho piegas de “Because the night”, e sim quando ela soletrou “G-L-O-R-I-A”.

A punk pioneira ainda conseguiu um feito incrível: um discurso político cool às vésperas da eleição mais mate-me-por-favor da história brasileira. Quem mais poderia fazer um bando de jovens irados com a invasão de clichês políticos em suas caixas de e-mail cerrarem os punhos e levá-los ao alto para cantar sem pudor: “People have the power”?

Bigger than the sound

Yeah Yeah Yeahs

por Rodrigo Ortega

Fotos: Divulgação


Ô, Karen...

Quem assistiu àquela clássica abertura do Fantástico nos anos 80, nunca iria imaginar que a garota com maquiagens e panos estranhos fugiria da telinha para se transformar 20 anos depois em uma roqueira “muderna”. Karen O, por baixo dos panos, é uma figura feminina notável: alta, de ombros largos, magra, porém forte. As músicas de sua banda são como ela: por baixo do barulho estão canções bem construídas, melodias fortes. Dizer que os Yeah Yeah Yeahs são uma enganação para quem gosta de bandas só pela aparência é não querer ouvir a música além das aparências.

“Phenomena” abriu o show, e com a tenda do Tim Stage cheia, mas não abarrotada, dava pra dançar como numa pista e pular como num estádio ao mesmo tempo. A sessão de rocks dançantes incluiu “Gold Lion”, “Y control” e “Maps”. Em “Cheated Hearts” a banda levou ao extremo a fórmula calma-barulheira-calma-barulheira do indie rock norte-americano e deixou os fãs à beira de um ataque de nervos. No final, em vez do hit “Way out”, eles tocaram a fofa canção escondida depois de “Modern Romance”. Fantástico.

Para fechar com outra comparação nacional, Karen O é uma Luísa Lovefoxxx um pouco mais adulta, mas igualmente sem noção; com uma banda um pouco menor e bem melhor.

Right to party

Beastie Boys

por Isabel Furtado
(texto e foto)


O muito bem vestido Adam Horowitz

É engraçado pensar que um grupo de rap formado por três (agora) senhores brancos tenha feito o show mais animado de todo o festival. Mas a indiscutível qualidade musical e o respeito adquirido ao longo de duas décadas de carreira garantiu um show por parte do público.

O mosh generalizado começou no primeiro acorde e se manteve praticamente ininterrupto até o eufórico fechamento com “Sabotage”. Durante a apresentação o DJ Mixmaster Mike tirou onda com sua incrível habilidade com as pickups enquanto os três rappers, vestidos com ternos alinhados, cuspiam seus versos intercaladamente. Ad Rock se mostrou o mais animado em contraposição a MCA que apareceu muito pouco.

Os três MCs e seu DJ fizeram bonito e agradaram ainda mais a platéia tocando vários hits como "Brass Monkey", "Ch-check it Out", "Intergalactic" e "No Sleep Till" Brooklin". Quando voltaram para o bis pegaram os instrumentos de uma formação clássica de banda de rock e foi nesse momento tive a esperança de ouvir “(You Gotta) Fight for Your Right (to Party)”, mas ainda não foi desta vez.

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